Uma sequência de enchentes repentinas atingiu o Nepal e o Tibete nesta quarta-feira, provocando mortes, destruição e deixando centenas de pessoas desaparecidas. As informações iniciais apontavam pelo menos 18 mortos no Nepal, enquanto equipes de resgate continuavam procurando vítimas e sobreviventes em áreas de difícil acesso.

Casas ficam parcialmente submersas pela lama após uma inundação repentina em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal | PRABIN RANABHAT/AFP/METSUL
As regiões mais atingidas ficam no norte do Nepal, próximas à fronteira com a China. Rios transbordaram com força e ondas de água e lama avançaram por vales, destruindo casas, pontes, estradas e estruturas de infraestrutura.
Segundo a polícia nepalesa, havia mortos confirmados nos distritos de Rasuwa, Nuwakot, Dhading e Gorkha. O número de vítimas, entretanto, poderia aumentar à medida que as equipes de emergência alcançassem localidades isoladas.
Entre os desaparecidos estavam moradores, trabalhadores e turistas. O Nepal Tourism Board informou que cerca de 400 viajantes não haviam sido localizados, incluindo 291 estrangeiros.
A lista reunia mais de 100 indianos, 17 malaios, 12 britânicos e quatro sul-africanos, além de cidadãos dos Estados Unidos, Austrália e Holanda. Muitos estavam em deslocamento para o Tibete, enquanto outros viajavam por áreas utilizadas por turistas e praticantes de trekking.
O fenômeno também atingiu a região de Gyirong, no lado tibetano da fronteira. Imagens divulgadas pela televisão estatal chinesa mostraram uma enorme quantidade de água e lama atingindo estruturas do posto fronteiriço e soterrando construções.
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No Nepal, autoridades informaram que equipes lideradas pelo Exército já haviam resgatado 88 pessoas. Cerca de 15 helicópteros foram mobilizados para operações de busca e salvamento, enquanto outras dezenas de pessoas permaneciam em áreas isoladas.
O Exército também instalou um hospital temporário na região afetada e transferiu feridos em estado grave para Katmandu. As operações eram dificultadas pelo bloqueio de estradas e pela destruição de pontes.
A dimensão dos danos à infraestrutura também era expressiva. Pelo menos 14 projetos hidrelétricos foram afetados, segundo a Associação de Produtores Independentes de Energia do Nepal.
Entre eles estavam empreendimentos em construção. Pontes e escolas também foram destruídas ou danificadas pela força das águas.
Causas do desastre ainda controversas
Uma das hipóteses investigadas para explicar a enchente é especialmente incomum. O ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shishir Khanal, afirmou que informações preliminares indicavam que um terremoto poderia ter provocado uma avalanche, desencadeando o deslocamento repentino de água e detritos pelos vales.
Um terremoto de magnitude 4,4 foi registrado na região tibetana do Nepal na manhã desta quarta-feira, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
A possibilidade de um evento associado a gelo, neve e água também chamou atenção porque não havia chuva significativa no momento da tragédia em algumas das áreas atingidas. “Não havia chuva no Nepal, então não esperávamos nada parecido”, afirmou Narendra Priyar, autoridade distrital de Rasuwa.
O episódio ocorre em uma região especialmente vulnerável a enchentes súbitas e movimentos de massa. No ano passado, uma inundação no rio Bhotekoshi foi associada ao rompimento de um lago glacial.
Esses eventos, conhecidos como inundações por rompimento de lagos glaciais, ou GLOFs, têm despertado preocupação crescente no Himalaia. O aquecimento do clima altera o comportamento das geleiras, da neve e dos lagos de altitude, aumentando a vulnerabilidade de comunidades instaladas rio abaixo.
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Imagens recordam Brumadinho e Mariana
Embora as causas preliminares apontadas pelas autoridades não indiquem que tenha havido o rompimento de uma barragem, as imagens em vídeos recordam muito as cenas vistas nos desastres de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais pela violência e rapidez do avanço da torrente.
🔴🇨🇳🇳🇵 ALERTE INFO — Une catastrophe majeure frappe la frontière entre la Chine et le Népal.
Un violent glissement de boue survenu côté népalais a touché des postes-frontières au Tibet.
Les autorités chinoises font état de nombreuses victimes et de personnes disparues. Routes,… pic.twitter.com/6XlcFf2jO9
— Jon De Lorraine (@jon_delorraine) August 26, 2026
Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), provocou uma das maiores tragédias ambientais da história do Brasil. A onda de rejeitos destruiu comunidades, matou 19 pessoas e percorreu centenas de quilômetros pelo rio Doce até chegar ao Oceano Atlântico.
O desastre de Mariana atingiu severamente rios, áreas de vegetação e comunidades ao longo da bacia do rio Doce. O impacto ambiental foi de grande escala, com contaminação e alteração de ecossistemas, além da destruição de moradias e atividades econômicas.
Pouco mais de três anos depois, em janeiro de 2019, outra barragem de rejeitos se rompeu em Minas Gerais, desta vez em Brumadinho. A barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale, liberou uma enorme quantidade de rejeitos, atingindo instalações da empresa e áreas próximas.
A tragédia de Brumadinho matou 272 pessoas e provocou impactos ambientais e sociais profundos. O desastre também reforçou os questionamentos sobre a segurança das barragens de mineração no país e sobre a fiscalização e os mecanismos de prevenção de novas tragédias.