Porto Rico enfrenta uma crise humanitária de desabastecimento de água em meio a uma seca histórica e calor extremo favorecidos pelo El Niño e que somam a problemas antigos de infraestrutura da ilha. A situação levou as autoridades a adotar um sistema de racionamento que deixa mais de 180 mil clientes sem água por períodos de até 48 horas com moradores fazendo buscas desesperadas por água.

Foto da seca em Porto Rico pelo El Niño

Moradores coletam água em caminhão-tanque durante racionamento em meio à seca severa em San Juan, Porto Rico | RICARDO ARDUENGO/AFP/METSUL

Os cortes atingem San Juan e outras cidades da região metropolitana. O abastecimento é interrompido de forma alternada entre diferentes áreas, em uma tentativa de preservar os estoques disponíveis nos reservatórios.

A medida ocorre justamente durante um período de temperaturas elevadas e pouca chuva. A situação preocupa especialmente idosos, pessoas acamadas, famílias de baixa renda e moradores que vivem em edifícios sem condições adequadas para armazenar grandes quantidades de água.

A governadora de Porto Rico, Jenniffer González, afirmou que não é possível determinar por quanto tempo o racionamento permanecerá em vigor. Segundo ela, as condições meteorológicas podem fazer com que a situação se agrave ainda mais. “Esta situação está fora do nosso controle”, afirmou a governadora ao justificar a adoção das medidas.

Um dos principais pontos de preocupação é o reservatório Carraízo, responsável pelo abastecimento de diversas áreas da região metropolitana. A redução dos níveis de água levou as autoridades a estabelecer o racionamento em sete regiões normalmente atendidas pelo reservatório. Além de San Juan, bairros de Carolina, Juncos, Gurabo, Trujillo Alto, Canóvanas e Loíza também estão entre as áreas afetadas.

O sistema prevê que diferentes grupos de consumidores tenham o fornecimento interrompido por 48 horas, enquanto outras áreas permanecem abastecidas. O objetivo é alternar os cortes para reduzir a pressão sobre o sistema.

Caminhões-tanque foram mobilizados para distribuir água potável nas comunidades afetadas. Hospitais, instituições de saúde e residências de idosos estão entre os locais considerados prioritários. Mesmo assim, moradores relatam dificuldades para saber quando exatamente o abastecimento será restabelecido. Em algumas comunidades, a água não retornou no período esperado, aumentando a tensão entre os moradores.

Julho mais seco da história com o El Niño

A dimensão da crise pode ser observada nos registros meteorológicos de San Juan. Julho foi o mais seco em mais de 120 anos de registros na capital porto-riquenha.

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O problema não ficou restrito ao mês passado. Até 4 de agosto, San Juan havia registrado apenas 52,6 mm de chuva desde o início de junho, um acumulado muito abaixo do esperado. O déficit de precipitação no período já superava 229 mm em relação à média.

A última vez que a capital recebeu pelo menos uma polegada ou 25,4 mm de chuva em um único dia foi em 28 de abril. Com isso, o verão de 2026 já se tornou o período mais seco para o intervalo entre junho e o começo de agosto em 128 anos de observações na cidade. A previsão meteorológica não oferece alívio imediato. Segundo especialistas do Serviço Nacional de Meteorologia em San Juan, a chuva nas próximas duas a três semanas pode ficar pelo menos 50% abaixo da média. As condições mais secas podem persistir até setembro.

Infraestrutura deficiente agrava o problema

A seca, entretanto, não é apontada como a única causa da crise. Porto Rico convive há anos com problemas estruturais no sistema de abastecimento. A rede apresenta perdas significativas de água devido a vazamentos, tubulações antigas e falta de manutenção.

Estimativas citadas por autoridades indicam que cerca de 65% da água produzida pelo sistema de abastecimento é perdida ou não é contabilizada. O cenário fez com que o prefeito de San Juan, Miguel Romero, processasse a Autoridade de Águas e Esgotos de Porto Rico no final de maio.

Foto da seca em Porto Rico pelo El Niño

Morador carrega baldes com água distribuída por caminhão-tanque durante racionamento em San Juan, Porto Rico | RICARDO ARDUENGO/AFP/METSUL

A própria governadora reconheceu que a infraestrutura passou décadas sem investimentos e manutenção suficientes. Para muitos moradores, portanto, a atual crise representa a combinação de dois problemas: uma seca excepcional e um sistema de abastecimento fragilizado.

A líder comunitária Marcia Soler París, de 61 anos, afirmou que algumas comunidades já enfrentavam falta de água havia meses, antes mesmo da implementação oficial do racionamento. Segundo ela, muitas famílias não têm condições de se preparar para dois dias sem água porque já convivem com abastecimento irregular.

Impacto sobre idosos e saúde

A interrupção do abastecimento representa um desafio ainda maior para os moradores mais vulneráveis. Idosos e pessoas com mobilidade reduzida enfrentam dificuldades para transportar recipientes pesados desde os caminhões de distribuição até suas casas.

A situação também aumenta os riscos associados ao calor. Porto Rico possui uma população significativa de idosos, muitos dos quais vivem sozinhos ou dependem de familiares e serviços de assistência.

Foto da seca em Porto Rico pelo El Niño

Moradores coletam água de caminhão-tanque durante racionamento em meio à seca severa em San Juan, Porto Rico | RICARDO ARDUENGO/AFP/METSUL

Sem água corrente, tarefas básicas como tomar banho, cozinhar e manter a hidratação tornam-se mais difíceis. O armazenamento doméstico de água também pode criar problemas sanitários. Recipientes mantidos de maneira inadequada podem servir como locais de reprodução do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue.

O risco é particularmente preocupante em um cenário de temperaturas elevadas, que podem favorecer a aceleração do ciclo de reprodução dos mosquitos. Autoridades de saúde afirmam que hospitais e centros médicos possuem protocolos para enfrentar o período de racionamento e que o abastecimento das unidades de saúde será tratado como prioridade.

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El Niño aumenta a preocupação

A crise ocorre em um momento de fortalecimento do El Niño, fenômeno climático associado a alterações nos padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.

Meteorologistas em Porto Rico apontam que o fenômeno contribui para o cenário de condições mais secas na região do Caribe. O El Niño pode alterar a circulação atmosférica e favorecer períodos de estiagem em determinadas áreas, embora seus efeitos variem conforme a região e a época do ano.

No caso de Porto Rico, o problema ganha dimensão ainda maior porque a falta de chuva ocorre simultaneamente a temperaturas elevadas. Quase 25% do território porto-riquenho está sob condições de seca severa, enquanto outros 36% enfrentam seca moderada, segundo o Monitor de Secas dos Estados Unidos. Somadas, as duas categorias representam mais da metade do território em algum grau de seca relevante.

Crise ultrapassa o abastecimento

Os efeitos da estiagem também alcançam a agricultura, a pesca e o turismo. A redução da disponibilidade de água ameaça atividades agrícolas e aumenta os custos de produção. Em comunidades costeiras, outro problema vem ganhando destaque: a proliferação de sargaço.

Foto da seca em Porto Rico pelo El Niño

Peixes mortos ficam na margem exposta do reservatório de Carraízo durante racionamento de água em Trujillo Alto, Porto Rico | RICARDO ARDUENGO/AFP/METSUL

O excesso de algas acumuladas nas praias pode prejudicar atividades turísticas e dificultar a operação de embarcações utilizadas por pescadores e empresas de turismo. Na região de La Parguera, no sul de Porto Rico, grandes volumes de sargaço já provocam impactos sobre a atividade turística e náutica.

Racionamento sem prazo para terminar

Porto Rico já enfrentou situações semelhantes em anos anteriores. Em 2015, aproximadamente 400 mil clientes chegaram a receber água somente a cada três dias durante um período de forte estiagem. Medidas de racionamento também foram adotadas em 2020.

A atual situação, porém, ocorre em um contexto de infraestrutura envelhecida, temperaturas elevadas e uma sequência excepcionalmente seca. Enquanto os reservatórios continuam sob pressão, as autoridades dependem de uma mudança no padrão meteorológico para aliviar a crise.

Por enquanto, não há uma data definida para o fim do racionamento. A expectativa é de que a situação continue exigindo distribuição emergencial de água e medidas de contenção enquanto Porto Rico atravessa um dos períodos mais secos de sua história recente.