A enchente que atinge o Rio Grande do Sul neste momento não será a única enfrentada pela população nos próximos meses. Ao contrário, tudo indica que ela representa apenas a primeira de uma série de episódios de cheias que poderão atingir não apenas o território gaúcho, mas também Santa Catarina e o Paraná durante o restante deste ano e até o primeiro semestre de 2027.

Enchente ontem em Lajeado com a cheia do Rio Taquari | PREFEITURA DE LAJEADO
O responsável por este cenário é um El Niño de intensidade já muito forte e que deverá evoluir para excepcional, o que vai aumentar significativamente o risco de eventos extremos de chuva, especialmente nos últimos meses deste ano.
Os meteorologistas da MetSul Meteorologia vêm alertando há meses que o atual El Niño tem potencial para se tornar um dos mais intensos da história e são crescentes os sinais que será o mais forte dos últimos 150 anos de registros.
Assim como ocorreu em 2023 e 2024, os sinais emitidos pela atmosfera e pelos oceanos apontam para um período prolongado de precipitações acima da média, com maior frequência de temporais, rios em níveis elevados e enchentes repetidas ao longo dos próximos meses.
A razão para esta preocupação está no comportamento extraordinário do Oceano Pacífico Equatorial. O aquecimento da superfície do mar já atingiu patamares compatíveis com um Super El Niño meses antes de qualquer outro evento de El Niño e os principais modelos climáticos internacionais indicam que o fenômeno ainda continuará ganhando força durante este segundo semestre.
As projeções mais recentes sugerem que o pico poderá ocorrer no final deste ano com anomalias sem precedentes em alguns setores do Pacífico, superando inclusive episódios históricos como os de 1982-1983, 1997-1998, 2015-2016 e 2023-2024.
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O El Niño modifica a circulação atmosférica em escala planetária. Sobre a América do Sul, uma das principais consequências é o fortalecimento do fluxo de umidade em direção ao Sul do Brasil. A atmosfera passa a transportar volumes muito maiores de vapor d’água da Amazônia até os estados do Sul, criando um ambiente extremamente favorável à ocorrência de chuvas intensas sempre que frentes frias, áreas de baixa pressão ou ciclones extratropicais avançam pela região.
Na prática, isso significa que os sistemas meteorológicos deixam de produzir apenas chuva e passam a encontrar uma atmosfera carregada de energia e umidade. Como consequência, os volumes de precipitação aumentam de forma expressiva.
Episódios que normalmente resultariam em acumulados moderados podem passar a registrar totais excepcionais em poucas horas ou ao longo de dias, elevando rapidamente os níveis dos rios e favorecendo enchentes, enxurradas e deslizamentos.
Outro aspecto importante é que o impacto do El Niño não ocorre em um único evento extremo. O fenômeno altera o padrão atmosférico durante vários meses. Assim, uma enchente é frequentemente seguida por outra dias ou semanas depois.
Os rios mal conseguem retornar ao leito normal antes da chegada de um novo episódio de chuva intensa, enquanto o solo permanece saturado, reduzindo drasticamente sua capacidade de absorver água.
Esse comportamento aumenta progressivamente o risco hidrológico. A cada novo episódio de precipitação volumosa, cresce a possibilidade de transbordamento dos rios, alagamentos urbanos e deslizamentos de encostas. Mesmo eventos de chuva que, isoladamente, não seriam considerados extremos podem produzir grandes impactos quando ocorrem sobre bacias hidrográficas já encharcadas por precipitações anteriores.
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Embora o Rio Grande do Sul costume receber maior atenção durante episódios de El Niño, Santa Catarina e Paraná também entram em uma zona de elevado risco. Historicamente, os três estados apresentam aumento significativo da precipitação durante eventos fortes do fenômeno.
Em Santa Catarina, o risco envolve tanto grandes enchentes nos vales quanto enxurradas rápidas em áreas montanhosas. No Paraná, rios das bacias do Iguaçu, Ivaí e Paranapanema podem registrar elevações importantes diante da repetição de episódios de chuva intensa nos próximos meses.
A primavera climatológica, entre setembro e novembro, normalmente representa o período em que esses efeitos começam a se intensificar. A frequência de frentes frias aumenta, os ciclones extratropicais tornam-se mais comuns e o contraste entre massas de ar frio e quente favorece temporais severos. Com um Super El Niño cada vez mais potente, cada um desses sistemas passa a ter maior potencial para produzir acumulados elevados de chuva e enchente.
Além da precipitação persistente, cresce também o risco de tempestades severas com vendavais, granizo e intensa atividade elétrica. A combinação entre calor, umidade abundante e a passagem de sistemas frontais cria um ambiente altamente favorável ao desenvolvimento de tempestades organizadas, capazes de provocar danos expressivos em diferentes regiões do Sul do Brasil.
Outro fator que reforça a preocupação é que existe uma defasagem entre o aquecimento do oceano e a resposta da atmosfera. Os maiores impactos do El Niño costumam ocorrer alguns meses depois do início do aquecimento mais intenso das águas do Pacífico. Foi exatamente o que se observou em episódios históricos, incluindo 1941 e, mais recentemente, em 2024, quando enchentes de maior magnitude ocorreram depois que o fenômeno já havia alcançado grande intensidade.
Por isso, a enchente observada agora deve ser encarada como um primeiro alerta e não como um evento isolado. Ela ocorre quando o El Niño ainda continua se fortalecendo, indicando que a atmosfera tende a ficar ainda mais favorável à ocorrência de episódios extremos de precipitação nos próximos meses. O risco não termina com a atual cheia. Pelo contrário, ele apenas começa a aumentar.