As projeções mais recentes para o El Niño 2026-2027 apontam para um cenário que, se confirmado, entrará para a história da meteorologia mundial. Modelos climáticos indicam que o aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial poderá alcançar intensidade jamais observada desde o início dos registros sistemáticos, superando todos os eventos registrados desde 1877.

NASA
O atual episódio poderá atingir um pico médio de 3,6°C de anomalia na região Niño 3.4, índice utilizado internacionalmente para medir a intensidade do fenômeno. Caso este valor se confirme, o novo El Niño ultrapassaria em cerca de 0,8°C o recorde anterior.
A comparação impressiona porque o maior El Niño observado até hoje, ocorrido entre 2015 e 2016, alcançou aproximadamente 2,75°C na convenção do Índice Oceânico Niño (ONI).
Antes, os episódios de 1982-1983 e 1997-1998 eram considerados os mais intensos da era moderna, enquanto o evento de 1877-1878 aparece como extremamente forte nas reconstruções históricas do conjunto de dados HadISST.
O aspecto mais extraordinário não é apenas a projeção central de 3,6°C. O intervalo de incerteza das previsões também chama atenção. Entre as 667 simulações utilizadas, os 80% centrais permanecem acima dos maiores eventos já registrados.
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Até mesmo o décimo percentil das projeções, um cenário relativamente conservador, praticamente alcança o recorde histórico estabelecido em 2015-2016. Em outras palavras, os modelos não estão apenas sugerindo um novo recorde. Eles indicam que existe elevada probabilidade de o evento superar amplamente tudo o que foi observado desde o final do século XIX.
A distância entre a projeção média e o antigo recorde é suficientemente grande para colocar o atual episódio em uma categoria própria caso a previsão se confirme.

Um gráfico elaborado pelo meteorologista norte-americano Zeke Hausfather, com base em dados históricos e em centenas de projeções de modelos climáticos, mostra 150 anos de eventos de El Niño.
Para os episódios posteriores a 1950 são utilizados dados do conjunto ERSSTv5, enquanto os eventos anteriores são reconstruídos a partir do banco HadISST, que utiliza registros históricos de temperatura da superfície do mar.
Embora exista maior incerteza nas observações do século XIX devido à menor quantidade de medições oceânicas, os maiores episódios históricos permanecem muito abaixo das projeções atuais.
A região Niño 3.4, localizada no Pacífico Equatorial central, é considerada a principal referência para caracterizar a intensidade do El Niño porque representa a área onde o aquecimento das águas apresenta maior relação com alterações na circulação atmosférica global.
Quanto maior a anomalia nesta região, maiores tendem a ser os impactos sobre chuva, temperatura e padrões climáticos em diversas partes do planeta.
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O que torna este episódio ainda mais extraordinário é a velocidade com que o oceano aqueceu. Em poucos meses, o Pacífico Equatorial passou de condições neutras para um aquecimento muito acima da média, impulsionado por sucessivas ondas oceânicas de Kelvin, ventos de oeste persistentes e um enorme volume de água excepcionalmente quente abaixo da superfície, que continua alimentando o aquecimento das águas superficiais.
Dados de modelos de clima que ingressaram ao longo deste mês reforçaram ainda mais o indicativo do que o atual evento de El Niño tende a ser extremo e com força jamais vista desde o começo dos dados em 1850 no Pacífico. Há modelos individuais projetando até +4ºC a +5ºC, o que seria absurdo.
Hoje, o Pacífico Centro-Leste na faixa equatorial já está com anomalia de +2ºC, patamar de Super El Niño alcançado meses antes de qualquer outro evento de muito forte intensidade. É literalmente a história do clima do planeta sendo reescrita em tempo real.
Os próximos meses vão ter, além de um aquecimento planetário muito acentuado, uma sucessão de eventos extremos ao redor do mundo pelo El Niño. Aqui no Sul do Brasil, os efeitos serão chuva muitíssimo acima da média com sucessivos eventos de precipitação extrema, numerosas enchentes e algumas grandes, e ainda muitos temporais.
Especialistas ressaltam, entretanto, que projeções de longo prazo ainda possuem incertezas. Embora exista forte concordância entre os modelos de previsão, a atmosfera continua desempenhando papel importante na evolução do fenômeno. Oscilações nos ventos tropicais, mudanças na circulação atmosférica e processos internos do oceano poderão fazer com que a intensidade final fique acima ou abaixo das estimativas atuais.