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Moradores de vários bairros de Porto Alegre enfrentaram alagamentos e inundações repentinos no final da tarde de ontem pela chuva extrema que se abateu sobre parte da cidade | Mauro Schaefer/Correio do Povo

Por que choveu tanto em tão pouco tempo em Porto Alegre? Um temporal com muitos raios e chuva excepcionalmente forte atingiu apenas parte da capital gaúcha no final da tarde de ontem (27) com elevados volumes de precipitação em muito curto período que resultaram em alagamentos e inundações em diversos bairros da cidade. A chuva extrema deixou vias intransitáveis, provocou correnteza que arrastou carros e alagou casas e estabelecimentos comerciais.

O episódio localizado de chuva extrema na capital gaúcha ocorreu nas últimas horas de uma de calor poderosa, histórica e atipicamente longa que durou duas semanas no Rio Grande do Sul e trouxe 12 dias com máximas acima de 35ºC e um dia acima de 40ºC entre os dias 14 e 26 de janeiro.


Com a massa de ar excepcionalmente quente atuando por duas semanas, o calor extremo acabou injetando uma quantidade enorme de energia na atmosfera. A forma com que o sistema atmosférico libera tal energia é por temporais isolados com chuva extrema, granizo e vendaval. No caso de Porto Alegre, a energia foi descarregada na forma de precipitação extrema em curto período.

Nem toda a cidade foi atingida pela chuva intensa. Os maiores volumes de chuva se deram no eixo das avenidas Ipiranga e Bento Goncalves com acumulados muito altos em bairros como Cidade Baixa, Menino Deus, Medianeira, Azenha, Santo Antônio, Partenon e Jardim Botânico. Em bairros mais ao Norte e o Sul da cidade não houve precipitação volumosa no momento do temporal.


O acumulado de chuva apenas em uma hora, entre 17h e 18h, na estação do Instituto Nacional de Meteorologia no Jardim Botânico, chegou a 47 mm. O volume em tão curto período equivale à quase metade da média histórica de precipitação do mês de janeiro inteiro na cidade de Porto Alegre de 100,1 mm. Entre 18h e 19h choveu mais 8,6 mm e entre 19h e 20h o acumulado foi de 0,6 mm. Significa que em apenas duas horas choveu no Jardim Botânico 55% da média do mês todo. No mesmo período foram observados 45 mm na Cidade Baixa e 30 mm no Centro.

O temporal em Porto Alegre se deu a partir da formação de uma grande nuvem de desenvolvimento vertical do tipo Cumulonimbus (Cb) gerada pelo calor e a umidade na dianteira de uma frente fria que estava no Uruguai e ingressando no Sul gaúcho. Observe no mapa de anomalia de temperatura em 850 hPa (nível de 1.500 metros de altitude) como havia ar muito quente sobre o Norte e o Nordeste gaúcho, incluindo a região da capital, enquanto pelo Oeste e o Sul ar mais ameno recém começava a ingressar.

A nuvem formada pelo calor úmido avançou de Oeste e se intensificou sobre o perímetro urbano da capital gaúcha, justamente sobre os bairros mais atingidos, onde despejou um grande volume de água. A temperatura máxima no Jardim Botânico chegou a 36,8ºC. A temperatura às 15h era de 36,5ºC com umidade de 53%, o que trazia um índice de calor de 46ºC

Havia outro componente favorecendo chuva extrema localizada. Assim como tinha ocorrido no episódio da última semana em Montevidéu, quando setores da capital uruguaia foram inundados, havia uma quantidade enorme de umidade disponível na atmosfera. Os modelos mostravam no momento do temporal de chuva intensa valores de água precipitável (umidade no ar) acima de 50 mm, sinalizando uma atmosfera excessivamente úmida.

O dado mais interessante veio na sondagem atmosférica feita às 21h no Aeroporto Salgado Filho. Trata-se de uma sonda lançada por balão meteorológico que vai coletando dado à medida que sobe até grandes altitudes. A sondagem encontrou água precipitável de 66 mm, medida de umidade no ar e não de chuva, o que é um valor absurdamente alto e raro de ver. No diagrama Sket-T da sondagem era possível ver as duas linhas (de temperatura e ponto de orvalho) muito próximas até 12 mil metros de altitude aproximadamente, o que sinaliza uma atmosfera por demais instável.

Este episódio é ilustrativo de como temporais de verão são intrincados de prever. Havia alerta de risco de chuva muito forte para a região de Porto Alegre publicado pela MetSul que estava até nos jornais de ontem: “a chuva será muito mal distribuída o que levará algumas cidades a terem pouco ou nada de água enquanto algumas terão chuva intensa com risco de alagamentos”.

Horas ou mesmo dias antes é possível se prever que uma determinada região tem risco de temporal, mas é impossível prever onde exatamente vai chover muito quando a chuva cai na escala de apenas alguns bairros, como se viu em Porto Alegre ontem. No caso do evento da capital gaúcha, para complicar ainda mais, a nuvem de chuva forte sequer passou por outras cidades vizinhas antes com chuva extrema, o que poderia gerar um alerta de curtíssimo prazo. Ao contrário, a nuvem cresceu sobre Porto Alegre e despejou o grande volume de precipitação de forma localizada.

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