A Indonésia iniciou nesta quinta-feira (15) um experimento incomum para tentar reduzir a fumaça tóxica que encobre cidades inteiras e se espalha por países vizinhos do Sudeste Asiático em meio aos incêndios favorecidos pela seca agravada pelo fenômeno El Niño.

Foto de fumaça de queimadas do El Niño na Indonésia

REINA/AFP/METSUL

Aeronaves foram mobilizadas para dispersar 1,5 tonelada de gelo seco sobre a província de Sumatra do Sul, em uma tentativa de alterar a distribuição da fumaça na atmosfera. A iniciativa ocorre durante uma das temporadas de incêndios florestais mais severas da última década, agravada pela estiagem associada a um El Niño excepcionalmente intenso.

A operação tem como alvo Palembang e áreas próximas, onde a poluição provocada pelas queimadas compromete a qualidade do ar e reduz a visibilidade. Segundo o ministro coordenador de Assuntos Políticos e de Segurança, Dudung Abdurachman, a proposta é utilizar o gelo seco, formado por dióxido de carbono em estado sólido, para ajudar a desorganizar a concentração de fumaça nas camadas inferiores da atmosfera e favorecer sua elevação. Caso o teste apresente resultados considerados satisfatórios, a técnica poderá ser aplicada em outras regiões afetadas.

A estratégia, entretanto, ainda precisa demonstrar sua eficácia. A elevação da fumaça não significa necessariamente a remoção dos poluentes da atmosfera, uma vez que as partículas podem continuar suspensas em outras camadas ou voltar a atingir a superfície. A dispersão também não elimina as fontes de emissão, que permanecem ativas enquanto os incêndios continuarem queimando florestas, plantações e turfeiras.

A experiência com gelo seco é diferente da semeadura de nuvens, procedimento que as autoridades indonésias já utilizam para tentar estimular a ocorrência de chuva. Nessa técnica, substâncias como o iodeto de prata são lançadas em nuvens para favorecer processos de formação de cristais de gelo e precipitação.

O objetivo é aumentar a disponibilidade de água e auxiliar no combate às chamas. Novas operações de semeadura estavam previstas para Kalimantan Central, outra área duramente atingida pela fumaça.

A dimensão da crise é evidente em Palangka Raya, na ilha de Bornéu, onde o céu adquiriu tonalidades intensas de amarelo e laranja. Em alguns locais, a visibilidade caiu para poucas dezenas de metros. O índice de poluição atmosférica chegou a ultrapassar 1.200 pontos, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente da Indonésia divulgados pela imprensa, quatro vezes acima do patamar de 300 utilizado como referência para condições perigosas no indicador citado.

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Moradores relatam dificuldades para trabalhar ao ar livre e irritação nos olhos provocada pela exposição prolongada à fumaça. Desde 18 de agosto, mais de 280 mil casos de problemas respiratórios foram registrados nas regiões afetadas, conforme informações divulgadas pelas autoridades.

A exposição ao material particulado fino aumenta os riscos à saúde, especialmente porque essas partículas podem penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea, agravando doenças respiratórias e cardiovasculares.

A poluição também atravessou as fronteiras da Indonésia. Singapura e Malásia registraram níveis preocupantes de contaminação atmosférica, enquanto Timor-Leste determinou o fechamento das escolas por três dias para proteger estudantes, professores e funcionários.

Em Singapura, autoridades distribuíram máscaras N95 para moradores elegíveis e retomaram medidas de apoio ao atendimento médico relacionado à exposição à fumaça. Kuala Lumpur chegou ao topo de um ranking internacional de grandes cidades com maior poluição do ar, segundo a plataforma IQAir.

Fumaça na Indonésia

REINA/AFP/METSUL

Os incêndios atingem áreas de Sumatra, Bornéu e Papua. Um dos principais problemas está nas turfeiras, ecossistemas que armazenam grandes quantidades de carbono no solo.

Quando drenadas para a agricultura, essas áreas perdem umidade e se tornam mais vulneráveis ao fogo. As chamas podem avançar abaixo da superfície, dificultando a identificação dos focos e prolongando os trabalhos de extinção.

Fumaça na Indonésia

REINA/AFP/METSUL

O El Niño intensifica a estiagem e favorece a propagação das queimadas, mas não é o único responsável pela gravidade da situação. O desmatamento, a degradação das turfeiras e o uso do fogo para limpar terrenos agrícolas também contribuem para o problema. A plataforma independente Nusantara Atlas contabilizou mais de um milhão de focos de incêndio na Indonésia neste ano, com quase 900 mil hectares de terras queimados.

As autoridades mobilizaram dezenas de milhares de bombeiros e helicópteros, embora a fumaça dificulte as operações aéreas. A polícia também identificou mais de 200 pessoas e nove empresas como suspeitas de envolvimento nos incêndios. O teste com gelo seco representa uma tentativa emergencial de aliviar os efeitos da poluição, mas a solução duradoura depende de conter as chamas, recuperar áreas degradadas e impedir novas queimadas.

Seca e El Niño criam cenário favorável ao fogo

O clima tem papel importante na dimensão da atual crise ambiental da Indonésia. A Indonésia atravessa uma temporada excepcionalmente seca em 2026, por conta do El Niño recorde no Pacífico Equatorial.

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A NASA informou que aproximadamente 90% do território indonésio recebeu pouca ou nenhuma chuva no início de agosto. Em condições normais, a umidade impede que o fogo avance profundamente pelas turfeiras de Kalimantan, Sumatra e Papua.

Bombeiros combatem incêndio florestal em Ogan Ilir, na província de Sumatra do Sul, enquanto queimadas atingem a Indonésia e espalham fumaça e poluição pelo ar | MUHAMMAD FAJRI/ANADOLU/AFP

Com a seca, o solo perde água e os depósitos de matéria orgânica ficam muito mais suscetíveis à combustão. O El Niño não provoca diretamente os incêndios. O fenômeno, porém, pode alterar os padrões de chuva e favorecer períodos mais secos em partes da Indonésia.

A ignição de muitos focos está relacionada à ação humana. O fogo é tradicionalmente utilizado para limpeza e preparação de áreas agrícolas. Quando empregado em condições extremamente secas, entretanto, pode escapar do controle e atingir áreas naturais.

Uma crise que se repete

A atual temporada de fogo na Indonésia pelo El Niño também recupera a memória de grandes crises registradas nas últimas décadas. País enfrentou episódios especialmente graves em 1997-1998 e em 2015, anos de Super El Niño.

O episódio de 1997-1998 ocorreu durante outro período marcado por forte El Niño e produziu uma das maiores crises de incêndios da história recente do Sudeste Asiático. Naquele período, aproximadamente 9,7 milhões de hectares foram afetados pelos incêndios. Em 2015, foram cerca de 2,6 milhões de hectares.

O governo intensificou as operações de combate. Ações incluem equipes terrestres, aeronaves, monitoramento por satélite e técnicas de indução de chuva. O problema é que os incêndios subterrâneos podem permanecer ativos durante semanas. Somente chuvas persistentes e em grande volume conseguem reidratar suficientemente o solo e interromper a combustão das turfeiras.

A crise também escancara ainda um problema de longo prazo. A proteção das florestas tropicais e das turfeiras é fundamental não apenas para reduzir o risco de incêndios, mas também para preservar biodiversidade e limitar emissões de gases de efeito estufa.