A Indonésia sufoca sob grave temporada de incêndios florestais com grandes áreas de Sumatra e Bornéu atingidas por fogo e enorme quantidade de fumaça, o que traz índices de qualidade do ar excepcionalmente ruins, numa condição favorecida pelo El Niño.

Equipes combatem incêndio em área de turfa em Ogan Ilir, na ilha de Sumatra, durante uma temporada seca que espalha queimadas e fumaça tóxica pelo Sudeste Asiático | BAGUS KURNIAWAN/NURPHOTO/AFP
A combinação de seca intensa, temperaturas elevadas, degradação ambiental e uso do fogo para abertura de áreas agrícolas e plantações transformou os incêndios em uma crise ambiental de grandes proporções.
O problema não está restrito às áreas diretamente atingidas pelas chamas. A fumaça se espalha por centenas de quilômetros e deteriora a qualidade do ar em regiões densamente povoadas e até em países próximos, como a Malásia.
Em algumas áreas, a concentração de poluentes atingiu níveis considerados perigosos para a população. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias estão entre os grupos mais vulneráveis à exposição prolongada.
A fumaça também ultrapassou as fronteiras da Indonésia. Partes da Malásia, Brunei e Singapura foram afetadas pelo chamado haze, nome dado na região à névoa de poluição provocada principalmente pela fumaça dos incêndios.
O episódio de 2026 chama atenção também pelo volume de carbono liberado. Entre 1º e 7 de setembro, as emissões de dióxido de carbono dos incêndios indonésios chegaram a aproximadamente 19,7 milhões de toneladas, segundo dados do serviço europeu Copernicus. O volume representou mais de um terço das emissões globais provocadas por incêndios naquele período.
A dimensão da crise é explicada, em parte, pela ocorrência de incêndios em áreas de turfeiras. Os ambientes armazenam enormes quantidades de carbono acumuladas durante milhares de anos. Quando estão úmidas, as turfeiras funcionam como grandes reservatórios naturais de carbono. Já em períodos prolongados de seca, porém, tornam-se altamente inflamáveis.
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O fogo pode penetrar no solo e continuar queimando abaixo da superfície, o que torna o combate muito mais difícil e permite que os incêndios permaneçam ativos mesmo quando as chamas não são facilmente visíveis.
As turfeiras tropicais de Sumatra e Bornéu estão entre os ambientes mais importantes para o armazenamento de carbono no planeta Quando são drenadas para agricultura ou plantações, tornam-se muito mais vulneráveis ao fogo.

Bombeiros combatem incêndios florestais e em áreas de vegetação em Banjar, no sul de Kalimantan, em meio à fumaça que afeta partes da Indonésia, Malásia e Singapura | MUDA SAGALA/AFP

Bombeiro combate incêndio florestal em Ogan Ilir, na ilha de Sumatra, onde as queimadas impulsionadas pela seca e pelo El Niño pioram a qualidade do ar na região | MUHAMMAD FAJRI/ANADOLU/AFP
A combustão deste tipo de solo libera grandes quantidades de gases de efeito estufa e partículas poluentes. Imagens de satélite analisadas pela NASA mostraram grandes colunas de fumaça sobre Bornéu, com numerosos focos concentrados principalmente no sul da ilha.
Os incêndios em turfeiras podem produzir muito mais poluentes do que incêndios convencionais em florestas tropicais. Segundo a NASA, os incêndios podem emitir grandes quantidades de material particulado fino, dióxido de enxofre, carbono orgânico, metano e monóxido de carbono.
Seca e El Niño criam cenário favorável ao fogo
O clima tem papel importante na dimensão da atual crise ambiental da Indonésia. A Indonésia atravessa uma temporada excepcionalmente seca em 2026, por conta do El Niño recorde no Pacífico Equatorial.
A NASA informou que aproximadamente 90% do território indonésio recebeu pouca ou nenhuma chuva no início de agosto. Em condições normais, a umidade impede que o fogo avance profundamente pelas turfeiras de Kalimantan, Sumatra e Papua.

Bombeiros combatem incêndio florestal em Ogan Ilir, na província de Sumatra do Sul, enquanto queimadas atingem a Indonésia e espalham fumaça e poluição pelo ar | MUHAMMAD FAJRI/ANADOLU/AFP
Com a seca, o solo perde água e os depósitos de matéria orgânica ficam muito mais suscetíveis à combustão. O El Niño não provoca diretamente os incêndios. O fenômeno, porém, pode alterar os padrões de chuva e favorecer períodos mais secos em partes da Indonésia.
A ignição de muitos focos está relacionada à ação humana. O fogo é tradicionalmente utilizado para limpeza e preparação de áreas agrícolas. Quando empregado em condições extremamente secas, entretanto, pode escapar do controle e atingir áreas naturais.
Fumaça provoca crise de saúde pública
A emergência ambiental rapidamente se transformou em problema de saúde pública. Dados do Ministério da Saúde da Indonésia indicaram que milhões de pessoas foram afetadas pelos incêndios e pela fumaça.
As doenças respiratórias relacionadas à exposição ao haze aumentaram em diferentes regiões. Crianças estão entre os grupos mais vulneráveis porque respiram quantidade maior de ar em relação ao tamanho do corpo e possuem sistemas respiratórios ainda em desenvolvimento.
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A exposição prolongada ao material particulado fino pode provocar irritação das vias respiratórias, tosse, dificuldade para respirar e agravamento de doenças respiratórias preexistentes.

Fumaça e neblina encobrem o rio Kapuas, em Pontianak, em meio aos incêndios que atingem a Indonésia e espalham poluição para países vizinhos do Sudeste Asiático | BAY ISMOYO/AFP

Cão permanece em estrada tomada pela fumaça em Palangkaraya, na Indonésia, em meio aos incêndios florestais e queimadas que provocam intensa poluição do ar | REINA/AFP
Em algumas cidades, escolas foram fechadas e atividades ao ar livre suspensas. Hospitais e unidades de saúde também registraram aumento na procura por atendimento relacionado aos efeitos da poluição.
Em Palangka Raya, na ilha de Bornéu, os índices de poluição chegaram a níveis extremos durante episódios de intensa concentração de fumaça. A situação também atingiu países vizinhos. Na Malásia, a fumaça proveniente de Kalimantan deteriorou a qualidade do ar em partes de Bornéu. A poluição atmosférica obrigou autoridades a recomendar restrições às atividades externas em determinadas áreas.
Uma crise que se repete
A atual temporada de fogo na Indonésia pelo El Niño também recupera a memória de grandes crises registradas nas últimas décadas. País enfrentou episódios especialmente graves em 1997-1998 e em 2015, anos de Super El Niño.
O episódio de 1997-1998 ocorreu durante outro período marcado por forte El Niño e produziu uma das maiores crises de incêndios da história recente do Sudeste Asiático. Naquele período, aproximadamente 9,7 milhões de hectares foram afetados pelos incêndios. Em 2015, foram cerca de 2,6 milhões de hectares.
O governo intensificou as operações de combate. Ações incluem equipes terrestres, aeronaves, monitoramento por satélite e técnicas de indução de chuva. O problema é que os incêndios subterrâneos podem permanecer ativos durante semanas. Somente chuvas persistentes e em grande volume conseguem reidratar suficientemente o solo e interromper a combustão das turfeiras.
A crise também escancara ainda um problema de longo prazo. A proteção das florestas tropicais e das turfeiras é fundamental não apenas para reduzir o risco de incêndios, mas também para preservar biodiversidade e limitar emissões de gases de efeito estufa.