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O aquecimento do Pacífico acelerou nos últimos dias e as anomalias de temperatura da superfície do mar estão no limite do patamar de um Super El Niño neste momento, de acordo com a análise da MetSul Meteorologia. Com uma intensificação dos ventos de Oeste no Pacífico Equatorial, anomalias de temperatura oceânica em patamar de Super El Niño podem ser iminentes.

NOAA

O último boletim semanal do estado do Pacífico da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), a agência de tempo e clima do governo dos Estados Unidos, indicou que a anomalia de temperatura da superfície do mar era de 1,9ºC na denominada região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Central.


Esta região é a usada oficialmente na Meteorologia como referência para definir se há El Niño e ainda avaliar qual a sua intensidade. O valor positivo de 1,8ºC está na faixa de El Niño forte (+1,5ºC a +1,9ºC) e se trata da maior anomalia semanal observada desde o começo deste evento de El Niño.

Nos últimos dias, por conta de ventos mais fortes de Oeste na faixa equatorial, o que favorece maior aquecimento das águas superficiais, a anomalia de temperatura do mar se elevou para 1,9ºC.


Este é o maior valor semanal de anomalia informado pela NOAA para esta parte do Oceano Pacífico desde a semana de 2 de março de 2016, quando a anomalia foi de 2,0ºC no episódio de Super El Niño de 2015-2016.

Por outro lado, a região Niño 1+2, está com anomalia de +2,0ºC, com El Niño costeiro muito forte junto ao Peru e Equador, aquecimento na região que teve início no mês de fevereiro e que atingiu o seu máximo de intensidade durante o inverno. A maior anomalia de El Niño costeiro na região Niño 1+2 neste ano se deu na semana de 19 de julho com 3,5º C.

Pacífico muito perto do patamar de Super El Niño

Não existe uma definição técnica de Super El Niño. A regra é considerar um El Niño fraco se as anomalias estão entre +0,5ºC e +0,9ºC no Pacífico Equatorial Centro-Leste, moderado entre +1ºC e +1,4ºC, forte de +1,5º a +2,0ºC e muito forte acima de +2ºC. Aí entra a questão do que é ou não um Super El Niño.

Na comunidade científica que se dedica a estudar o fenômeno ENOS (El Niño – Oscilação Sul) a opinião dominante é que o Pacífico atinge o patamar de um Super El Niño com anomalias de temperatura da superfície do mar acima de +2,0ºC na chamada região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Centro-Leste.

Com base no índice ONI (Oceanic Niño Index), mantido pela NOAA, que é a referência para análise trimestral das condições do Pacífico com base nas anomalias da região Niño 3.4, a última vez em que houve um Super El Niño foi em 2015-2016.

IRI

Naquele evento, foram seis trimestres seguidos com anomalia de ao menos 2ºC, sendo o primeiro entre agosto e outubro de 2015 com 2,2ºC e o último janeiro a março de 2016 com 2,1ºC. O máximo trimestral foi 2,6ºC nos trimestres outubro a dezembro de 2015, novembro de 2015 a janeiro de 2016, e dezembro de 2015 a fevereiro de 2016.

No Super El Niño de 1997-1998 houve cinco semestres com anomalias acima de 2ºC, de agosto a outubro de 1997 a dezembro de 1997 a fevereiro de 1998. Os trimestres mais quentes tiveram anomalia de 2,4ºC, em outubro a dezembro de 1997 e novembro de 1997 a janeiro de 1998.

Já no Super El Niño de 1982-1983, o Pacífico Equatorial Centro-Leste esteve em patamar de Super El Niño, assim com anomalias trimestrais de 2ºC ou mais, em quatro trimestres: setembro a novembro de 1982 (2,0ºC); outubro a dezembro de 1982 (2,2ºC); novembro de 1982 a janeiro de 1983 (2,2ºC); e dezembro de 1982 a fevereiro de 1983.

Hoje, com uma anomalia de +1,9ºC, mesmo forte, o El Niño atual está menos quente nesta data que nos dois episódios de Super El Niño recentes. Na metade de novembro, em 1997, a anomalia era de 2,2ºC. Na metade de novembro de 2015, o registro era de 3,0ºC. O patamar de Super El Niño tende a ser atingido, mas não deve se sustentar por muito tempo, como em 1997-1998 ou em 2015-2016.

El Niño ainda deve ganhar força

A tendência é que o Pacífico Centro-Leste aqueça ainda mais nas próximas semanas com o pico de aquecimento se dando entre o fim de dezembro e o mês de janeiro, sob ventos mais fortes de Oeste.

Nos últimos dias, ocorreu um fenômeno extremamente relevante que impacta na força do El Niño. É o que se denomina em Inglês de “westerly wind burst”. O que é isso? Os ventos de Oeste aumentaram muito e subitamente ao redor da Linha Internacional da Data, o que levará águas mais quentes do Indo-Pacífico para o Pacífico Centro-Leste, tendo como resultado a intensificação do El Niño.

NOAA

Assim, o entendimento nosso na MetSul Meteorologia é que o El Niño ainda deverá se intensificar em curto e médio prazos, ingressando no patamar de Super El Niño com anomalias de 2ºC ou mais, inclusive porque hoje já está muito próximo deste patamar com anomalia na última semana de 1,9ºC.

O pico do El Niño deve ocorrer agora entre dezembro e janeiro com algumas projeções indicando o máximo deste evento se dando no final do ano e outras no decorrer do mês de janeiro. Na sequência, o fenômeno começaria enfraquecer. Modelos de clima indicam que o El Niño chegaria ao fim no decorrer do outono, mas seus reflexos no clima seriam sentidos em todo ou grande parte do primeiro semestre de 2024.

O que é El Niño

Um evento de El Niño ocorre quando as águas da superfície do Pacífico Equatorial se tornam mais quente do que a média e os ventos de Leste sopram mais fracos do que o normal na região. A condição oposta é chamada de La Niña. Durante esta fase, a água está mais fria que o normal e os ventos de Leste são mais fortes. Os episódios de El Niño, normalmente, ocorrem a cada 3 a 5 anos.

El Niño, La Niña e neutralidade trazem consequências para pessoas e ecossistemas em todo o mundo. As interações entre o oceano e a atmosfera alteram o clima em todo o planeta e podem resultar em tempestades severas ou clima ameno, seca ou inundações. Tais alterações no clima podem produzir resultados secundários que influenciam a oferta e os preços de alimentos, incêndios florestais e ainda criam consequências econômicas e políticas adicionais. Fomes e conflitos políticos podem resultar dessas condições ambientais mais extremas.

Ecossistemas e comunidades humanas podem ser afetados positiva ou negativamente. No Sul do Brasil, La Niña aumenta o risco de estiagem enquanto El Niño agrava a ameaça de chuva excessiva com enchentes. Historicamente, as melhores safras agrícolas no Sul do país se dão com El Niño, embora nem sempre, e as perdas de produtividade tendem a ser maiores sob La Niña. O El Niño agrava o risco de seca no Norte e no Nordeste do Brasil enquanto La Niña traz mais chuva para estas regiões.

A origem do nome “El Niño” data de 1800, quando pescadores na costa do Pacífico da América do Sul notavam que uma corrente oceânica quente aparecia a cada poucos anos. A captura de peixes caía drasticamente na região, afetando negativamente o abastecimento de alimentos e a subsistência das comunidades costeiras do Peru. A água mais quente no litoral coincidia com a época do Natal.

Referindo-se ao nascimento de Cristo, os pescadores peruanos, então, chamaram as águas quentes do oceano de El Niño, que significa “o menino” em espanhol. A pesca nesta região é melhor durante os anos de La Niña, quando a ressurgência da água fria do oceano traz nutrientes ricos vindos do oceano profundo, resultando em um aumento no número de peixes capturados.

O último episódio de El Niño se deu entre 2015 e 2016 e foi de muito forte intensidade, o que rendeu a expressão Super El Niño e o apelido de “El Niño Godzilla”. Este evento foi responsável por grandes enchentes no Sul do Brasil e alguns dos maiores picos de cheia do Lago Guaíba, em Porto Alegre, desde 1941.

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