O Oceano Pacífico Equatorial atingiu pela primeira vez na sua parte Centro-Leste, usada para designar se o fenômeno está presente, anomalias de temperatura da superfície do mar, conforme o novo critério adotado pela NOAA para monitorar o Pacífico.

Mapa de anomalia de temperatura da superfície do mar de 18 de maio já mostra a “língua” de águas quentes característica do El Niño na faixa equatorial do Pacífico | NASA
Dados da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), a agência de tempo e clima dos Estados Unidos, divulgados no começo desta semana, mostraram anomalia de temperatura da superfície do mar de +0,5ºC na chamada Região Niño 3.4.
Trata-se do valor mínimo de patamar de El Niño e se trata da primeira semana em que esta área do oceano atinge anomalias em nível de La Niña, conforme o novo critério de monitoramento designado Índice Niño Oceânico Relativo (RONI).
Já pelo critério tradicional e usado pela NOAA até o começo deste ano, denominado de Índice Niño Oceânico (ONI), a anomalia de temperatura da superfície do mar está hoje em +0,9ºC.
É a quinta semana seguida, pelo critério antigo, em que o Pacifico Equatorial Centro-Leste está em patamar de El Niño. Os dados indicaram anomalias de +0,5ºC na semana de 15 de abril; +0,8ºC na semana de 22 de abril; e +0,9ºC nas semanas de 29 de abril, 6 de maio e 13 de maio.
Uma vez que são necessárias várias semanas seguidas de aquecimento sustentado em patamar de El Niño com acoplamento das condições oceânicas e atmosféricas, não se espera um anúncio de imediato pela NOAA de que o El Niño começou, quando apenas uma semana até agora apresentou anomalias pelo novo critério de monitoramento.
Estivesse ainda em uso o método antigo e tradicional de monitoramento, possivelmente a agência norte-americana já teria declarado o começo do fenômeno ou estaria na iminência de anunciar. Em 2023, quando do último El Niño, quando se ainda utilizava o critério antigo, o início do fenômeno foi declarado pela agência norte-americana ainda no começo de junho.
Entenda por que a NOAA mudou o sistema para monitorar o El Niño
A NOAA anunciou mais cedo neste ano uma mudança importante na forma de monitorar o El Niño e a La Niña com a substituição do tradicional ONI (Oceanic Niño Index) pelo novo índice chamado RONI (Relative Oceanic Niño Index).
A alteração busca tornar o acompanhamento do Pacífico Equatorial mais preciso em um planeta cada vez mais aquecido pelo aumento da temperatura média global. O ONI utilizava anomalias de temperatura da superfície do mar calculadas com base em médias históricas fixas de 30 anos.
O problema é que, com o aquecimento global, os oceanos ficaram progressivamente mais quentes, o que poderia mascarar ou distorcer episódios de El Niño e La Niña ao comparar o presente com um clima passado mais frio. O novo RONI passa a usar uma abordagem relativa, levando em conta o aquecimento global de fundo para identificar se o Pacífico Equatorial está efetivamente mais quente ou mais frio do que o restante dos oceanos tropicais.
Assim, o índice tenta separar melhor o sinal natural da tendência de aquecimento causada pelas mudanças climáticas. Na prática, a NOAA entende que o RONI poderá identificar de forma mais realista a intensidade dos eventos e evitar classificações exageradas ou subestimadas.
A mudança também pode alterar comparações históricas entre episódios antigos e atuais de El Niño e La Niña, já que os critérios de análise passam a considerar um oceano global significativamente mais quente do que décadas atrás. Com a alteração, alguns períodos considerados antes neutros (sem Niño ou Niña) passaram a ser considerados como La Niña.
O que os modelos projetam para o Pacífico
O fenômeno El Niño começa no final deste outono e tende a ganhar força ao longo do inverno rapidamente. A esmagadora maioria dos modelos indica que o evento deverá atingir o seu pico de intensidade no último trimestre do ano, como normalmente ocorre, entre outubro e dezembro, e com intensidade forte a muito forte (Super El Niño).
A atualização de 1º de maio do modelo climático europeu (ECMWF) elevou o alerta para a possibilidade de um Super El Niño histórico nos próximos meses. As projeções agora indicam aquecimento ainda mais intenso no Pacífico Equatorial, com anomalias na região Niño 3.4 perto de +3,2°C até o fim de 2026, pelo critério tradicional (ONI). Em muitos cenários do modelo, o aquecimento varia entre +2°C e +4°C.

ECMWF/METSUL
Se confirmado, o evento poderá rivalizar ou até superar os maiores episódios já registrados, como os de 1997-1998 e 2015-2016, que atingiram cerca de +2,8°C e +2,7°C respectivamente. Alguns cenários sugerem um dos três eventos de El Niño mais intensos desde o século XIX, em aproximadamente 150 anos de dados observacionais.
O fortalecimento das projeções está ligado à maior transferência de calor para a superfície do Pacífico nas últimas semanas. Meteorologistas também acompanham a possibilidade de novos episódios de ventos de Oeste no fim de maio, que podem reforçar ainda mais o aquecimento do oceano e sustentar a tendência de alta nas projeções climáticas.

Projeção de aquecimento do Pacífico do modelo NMME | NOAA/METSUL
Além do ECMWF, o modelo norte-americano CFS da NOAA também projeta um El Niño excepcionalmente forte. Pelo antigo índice ONI, algumas projeções superam +3°C, enquanto pelo novo índice RONI o aquecimento aparece um pouco menor, mas ainda em território de Super El Niño, entre 2,5ºC e 2,7ºC. A maioria dos cenários indica forte intensificação no segundo semestre, com pico entre a primavera e o fim de 2026.
Quais são os impactos do El Niño no Brasil
No Norte do Brasil, o El Niño costuma provocar diminuição das chuvas, especialmente no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é um período mais seco e quente, que favorece a propagação de queimadas e agrava incêndios florestais. No Nordeste, os efeitos são ainda mais críticos: a redução acentuada das precipitações pode levar a episódios de seca, comprometendo o abastecimento de água e causando prejuízos significativos à agricultura.

METSUL
No Centro-Oeste, historicamente, os impactos tendem a ser mais moderados, com uma leve tendência de chuvas acima da média em algumas áreas, mas acompanhadas por temperaturas mais elevadas. Episódios de calor intenso se tornam mais frequentes, sobretudo no final do inverno e durante a primavera, enquanto as queimadas aumentam no Pantanal.
Já no Sudeste, o principal sinal do fenômeno é o aumento das temperaturas médias, com períodos mais quentes que o normal e extremos de calor, sem um padrão claro e consistente de mudança no regime de chuvas.
No Sul do Brasil, o El Niño costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias de rios e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte. Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio.