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Homem se refresca com banho ao ar livre durante um dia quente de verão em Ajmer, no estado indiano de Rajasthan | HIMANSHU SHARMA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Mais de um bilhão de pessoas na Índia e no Paquistão, cerca de 10% da população mundial, enfrentam uma onda de calor extremo que foge à normalidade e castiga uma das áreas mais populosas do planeta com temperaturas tórridas muito acima das médias climatológicas. As temperaturas na Índia estão altas há semanas com sucessivas ondas de calor sob clima seco e sufocante desde o início da primavera. E a tendência é piorar.

O Departamento Meteorológico da Índia (IMD) afirmou que as temperaturas máximas de março foram as mais altas em quase 1250 anos e que as chuvas estavam ficaram em apenas um quarto a um terço do normal. O padrão atmosférico de clima muito quente persistiu agora ao longo deste abril e neste final de mês as marcas nos termômetros se elevaram ainda mais.


Em março, as regiões Noroeste e Central da Índia, incluindo Gujarat, Maharashtra e Delhi, experimentaram ondas de calor precoces e severas. Agora, a temperatura máxima mais alta de 45,0°C foi reportada em Wardha, no estado de Maharashtra, em 25 de abril, e Barmer, no oeste do Rajastão, teve a temperatura mais alta em 26 de abril com 44,4°C.

Quinze estados e territórios indianos foram afetados por ondas de calor desde março, de acordo com o Centro de Ciência e Meio Ambiente, uma organização de pesquisa e defesa de interesse público com sede em Nova Délhi. Os estados de Rajasthan e Madhya Pradesh, no Noroeste e centro da Índia foram os mais atingidos; cada um tendo observado 30 dias de ondas de calor até agora nesta primavera.


Isso em um país com mais de um bilhão de habitantes em que a grande maioria das famílias indianas vive na pobreza e não conta com aparelhos de ar condicionado em suas casas ou apartamentos, aumentando ainda mais a vulnerabilidade da população ao calor extremo. Os adultos mais velhos estão especialmente em risco neste quadro de altas temperaturas.

A onda de calor de primavera incomumente intensa não apenas vários estados da Índia como também assola o Paquistão com potencial de recordes mensais de temperatura máxima. Além das moradias em sua esmagadora maioria não contarem com ar-condicionado nos dois países, o calor torna o trabalho ao ar livre insustentável em algumas horas do dia, retardando os projetos de construção e impactando a economia.

Normalmente, as ondas de calor nesta região atingem o pico em maio e junho antes da chegada das chuvas de monção, com algumas das temperaturas mais altas do mundo em qualquer lugar, fora do Oriente Médio, sendo registradas. Esta onda de calor é atipicamente intensa para este início da temporada, provavelmente favorecida por chuvas abaixo da média durante março, no mesmíssimo padrão que levou à brutal onda de calor na América do Sul em janeiro deste ano.

Pesquisas vincularam ondas de calor cada vez mais intensas e duradouras em todo o mundo com o aquecimento global causado pelo homem. Por exemplo, os cientistas concluíram que a onda de calor que atingiu o Noroeste do Pacífico, nos Estados Unidos, no ano passado, não teria ocorrido sem a influência das emissões humanas de gases de efeito estufa da queima de combustíveis fósseis.

Calor vai piorar neste fim de semana

De acordo com o IMD, a onda de calor em curso se tornará ainda mais sufocante e perigosa nos próximos dias, pois uma área de alta pressão, ou bolha de calor, ficará sobre o país. O instituto oficial de Meteorologia indiano projeta aumento nas temperaturas máximas diárias de 2ºC a 4°C na região central da Índia, “e nenhuma grande mudança depois disso”.

Projeções de modelos de computador mostram que as temperaturas podem subir mais neste fim de semana, potencialmente até 49°C, especialmente ao longo da fronteira com o Paquistão.

Onda de calor pode piorar crise mundial de alimentos

Além da preocupação com as mortes de pessoas geradas pelo calor, o clima extremo está causando apreensão sobre a segurança alimentar dos povos da Índia e do Paquistão. Há preocupações sobre o impacto nos suprimentos nacionais e globais de alimentos. Agricultores dos maiores estados produtores de trigo da Índia, Haryana, Punjab e Uttar Pradesh, viram seus campos secarem sob o sol escaldante após um março excepcionalmente seco.

“O período de calor ocorreu muito rápido e também amadureceu a safra em ritmo mais acelerado, o que reduziu o tamanho do grão. Isso também resultou em uma queda no rendimento”, disse JDS Gill, oficial de informações agrícolas no estado de Punjab, ao jornal India Today.

Período extremamente prolongado de clima seco e muito mais quente que o normal ameaça suprimento de alimentos da Índia e castiga a população em cidades superpopulosas em que a maioria não tem ar-condicionado | JEWEL SAMAD/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Temperatura atinge níveis perigosos e rotina da cidade de Nova Déli é afetada pela brutal onda de calor que assola a Índia e o Paquistão com marcas nos termômetros que se aproximam dos 50ºC | JEWEL SAMAD/AFP/METSUL METEOROLOGIA

A onda de calor extremo ocorre em um momento em que os suprimentos de alimentos básicos do mundo já estão sob pressão devido à invasão da Ucrânia pela Rússia – muitas vezes chamada de “o celeiro da Europa” – e outros eventos alimentados por mudanças climáticas e de variabilidade natural do clima como a La Niña.

A influência das correntes de jato

Ondas de calor se formam sob sistemas de alta pressão. Na Ásia Oriental, um persistente padrão desde o início de março permitiu que o sistema de alta pressão sobre a região se tornasse extraordinariamente forte. Isso leva a atmosfera a formar uma cúpula de calor que pode durar dias ou até semanas.

O alívio geralmente vem na forma de chuva ou uma frente fria. Como a temporada de monções não deve começar antes de junho ou julho para grande parte da região, é possível que o calor extremo no Sul da Ásia continue nos meses de verão com enorme custo econômico e perda de vidas. Em 2015, uma onda de calor semelhante (quente o suficiente para derreter asfalto de estradas) matou mais de 500 pessoas somente em Nova Déli, na Índia.

Onda de calor e mudanças climáticas

A temperatura média da Índia aumentou cerca de 0,7°C entre 1901-2018, de acordo com um relatório do IMD, que vinculou essa tendência às emissões humanas de gases de efeito estufa. O relatório descobriu que, no pior cenário de emissões (que não é mais considerado o resultado mais provável), o calor extremo pode aumentar de 50% a 70% até 2100. No entanto, avaliações recentes do principal painel climático da ONU projetaram aumentos significativos nas ondas de calor em todo o mundo, mesmo sob um aquecimento mais modesto até 2100.

O vizinho Paquistão teve a maior anomalia de temperatura positiva do mundo durante o mês de março, o que significa que a margem entre as temperaturas observadas e as temperaturas médias históricas foi maior do que em qualquer outro lugar do mundo no último mês. Várias estações paquistanesas estabeleceram recordes mensais de temperatura máxima de todos os tempos durante fevereiro e março.

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