O Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), a agência federal de tempo e clima do governo dos Estados Unidos, anunciou na manhã desta quinta-feira (11) o começo do episódio do El Niño de 2026-2027.

NOAA
O anúncio já era esperado, considerando as condições do oceano e da atmosfera na faixa equatorial do Oceano Pacífico, que por semanas apresentam características típicas do fenômeno como aquecimento acelerado das águas e mudanças nos padrões de vento e de precipitação.
A MetSul Meteorologia, em detalhado informe especial, publicado no domingo (7), há havia antecipado que o evento de El Niño tinha começado no Oceano Pacífico ao analisar indicadores oceânicos e atmosféricos.
O boletim da NOAA de hoje destaca que “o fenômeno El Niño se estabeleceu no último mês no Oceano Pacífico Equatorial, com temperaturas da superfície do mar acima da média entre as regiões central e leste do oceano. Os indicadores atmosféricos e oceânicos passaram a mostrar um acoplamento típico do fenômeno, incluindo águas mais quentes em superfície e subsuperfície, alterações nos ventos sobre o Pacífico Equatorial e mudanças nos padrões de chuva e nebulosidade”.
Conforme o comunicado, modelos climáticos internacionais indicam que o El Niño deve ganhar força gradualmente ao longo dos próximos meses. A combinação de elevado conteúdo de calor armazenado no oceano e da expansão de anomalias de vento de oeste no Pacífico aumenta a confiança dos meteorologistas de que o evento continuará se intensificando durante o segundo semestre deste ano.
“As projeções apontam uma probabilidade de 63% de que o episódio alcance intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, podendo figurar entre os mais intensos desde o início dos registros modernos, em 1950. Embora um El Niño muito forte não produza os mesmos impactos em todas as regiões do planeta, eventos dessa magnitude costumam aumentar significativamente a probabilidade de anomalias climáticas marcantes em diversas áreas do mundo”, destaca a NOAA.
O último El Niño ocorreu entre maio de 2023 e abril de 2024, trazendo vários desastres climáticos em diferentes áreas do planeta. Um dos maiores foi a enchente no Rio Grande do Sul, a maior da história do estado, em maio de 2024, que afetou milhões de pessoas e causou danos em mais de 400 municípios do estado.
O El Niño é um fenômeno oceânico-atmosférico. Para sua caracterização, não basta apenas que as águas do Pacífico estejam mais quentes do que o normal. É necessário também que a atmosfera responda ao aquecimento, estabelecendo um processo conhecido como acoplamento oceano-atmosfera. Segundo a nossa análise, tal processo já está em andamento.
Nas últimas semanas, o aquecimento das águas se intensificou significativamente. Grandes volumes de água excepcionalmente quente que estavam no Pacífico Oeste avançaram em direção à América do Sul e passaram a emergir na superfície, elevando rapidamente as temperaturas do oceano.
Os dados mais recentes mostram que a região que é principal referência para monitoramento do fenômeno, já atingiu valores compatíveis com El Niño. Pelo critério tradicional de monitoramento, conhecido como Índice Niño Oceânico (ONI), as anomalias já estão muito acima do limiar exigido por semanas.
O aquecimento é ainda mais expressivo junto às costas do Peru e do Equador, onde atua o chamado El Niño Costeiro. Em alguns pontos do litoral peruano, o mar está até 8ºC mais quente que o normal.
Além dos sinais oceânicos, a atmosfera também já apresenta sinais de El Niño. O principal indicador é o Índice de Oscilação Sul (SOI), que mede a diferença de pressão atmosférica entre o Pacífico Ocidental e o Oriental.
Risco de um Super El Niño
O El Niño não é um fenômeno passageiro como uma tempestade, um ciclone ou uma frente fria que traz chuva. É uma complexa condição oceânica e atmosférica que impacta as condições do tempo e do clima por vários meses, devendo o atual episódio perdurar ao menos até o outono de 2027.
Os modelos climáticos reforçam a perspectiva de um evento histórico. Caso as projeções se confirmem, o El Niño poderá ser intenso no segundo semestre, na categoria informal chamada de Super El Niño. O episódio poderia até superar os grandes eventos de 1982-1983 e 1997-1998.

ARTE DE LEANDRO MACIEL | CORREIO DO POVO
O pico do El Niño normalmente ocorre no final do ano em que se instala, muitas vezes perto do Natal. Os dados de modelos analisados pela MetSul Meteorologia indicam que a intensidade máxima deve ser alcançada no trimestre outubro a novembro de 2026. A dimensão exata do pico de intensidade, no entanto, ainda é uma incerteza.
Não é porque o pico de intensidade ocorre no último trimestre do ano que os piores efeitos do El Niño se dariam neste trimestre. No último El Niño, a intensidade máxima foi alcançada em novembro de 2023 e o grande desastre daquele episódio ocorreu em maio de 2024 com a grande enchente no Rio Grande do Sul.
Sul do Brasil será a região mais impactada por este episódio
O El Niño impacta o clima em todas as regiões do Brasil com a diminuição da chuva mais ao Norte do país e um grande aumento da precipitação mais ao Sul, mas nenhuma região deve ser tão afetada por este evento como o El Niño.
Para o Sul do Brasil, os sinais são especialmente preocupantes. A experiência histórica mostra que o El Niño inevitavelmente vai trazer chuva extrema, cheias de rios, enchentes, e muitos temporais severos de vento e granizo. Não é uma pergunta se haverá ou não enchentes, mas sim quantas e o tamanho.
A MetSul destaca que o período de maior risco será o segundo semestre, especialmente o fim do inverno e a primavera, e o outono de 2027, mas mesmo no verão podem ocorrer eventos extremos.
Embora aumente o risco de uma nova catástrofe, o retorno do fenômeno com intensidade muito possivelmente maior que em 2023-2024 não significa que haverá uma repetição da enchente histórica de maio de 2024. Não há relação linear entre a intensidade do El Niño e a ocorrência ou magnitude de um desastre em determinada região. As grandes enchentes dependem da soma de diversos fatores atmosféricos em paralelo e que só podem ser avaliados com maior precisão em previsões de curto prazo.