O inverno começou pelo critério astronômico no domingo (21), mas na climatologia a estação compreende o trimestre de junho a agosto, o chamado inverno meteorológico, e até agora tem sido muito mais frio do que normalmente seria sob a influência do El Niño.

Período frio do ano em 2026 começa com temperaturas mais baixas do que o normal mesmo sob um El Niño cada vez mais forte | EITAN ABRAMOVICH/AFP/METSUL METEOROLOGIA
Junho, embora transcorra em grande parte no outono astronômico, na média histórica é o segundo mês mais frio do ano no Rio Grande do Sul e, em alguns anos, chega a ser o mais gelado. Isso ocorre porque junho marca a consolidação da circulação atmosférica típica do inverno no Cone Sul, com maior frequência de incursões de ar polar e noites mais longas que favorecem o resfriamento da superfície.
Com a atuação do fenômeno El Niño, deveria, ao menos em tese, estar fazendo menos frio no Rio Grande do Sul. O aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial costuma alterar a circulação atmosférica em escala planetária por meio das chamadas teleconexões, influenciando os padrões de temperatura e precipitação em diversas partes do mundo.
No Sul do Brasil, a literatura científica do clima mostra que episódios de El Niño estão frequentemente associados a maior nebulosidade, aumento da chuva e temperaturas médias de inverno mais elevadas, reduzindo a frequência e a duração das ondas de frio mais intensas.
Mas não é o que se observa neste ano. Desde a primeira semana de maio, o Rio Grande do Sul vem registrando um padrão persistente de temperaturas abaixo a muito abaixo da média, reforçando o que a MetSul Meteorologia tem destacado há meses: nenhum evento de El Niño é exatamente igual ao outro.
Embora o fenômeno exerça uma influência importante sobre o clima regional, ele não determina sozinho o comportamento do tempo. Pesquisas mostram que a resposta climática no Sul da América do Sul depende também da interação com outros modos de variabilidade atmosférica e oceânica.
Foram 13 dias com temperaturas negativas em maio no Rio Grande do Sul, um número muito elevado para o quinto mês do ano e mais compatível com o auge do inverno. Junho, agora, caminha para encerrar igualmente com temperatura abaixo da média histórica, impulsionado pelo frio intenso da semana passada e pela nova onda de frio desta semana que recém se inicia. O
O comportamento da temperatura neste ano no começo do inverno contrasta com o registrado em outros anos Super El Niño. Em 1982, maio e junho tiveram temperaturas próximas ou acima da média. Em 1997, considerado por muitos o episódio mais intenso do El Niño do século XX, maio foi mais frio que o normal, mas junho terminou perto da média climatológica.
Em 2015, os dois meses apresentaram temperaturas acima a muito acima da média no Rio Grande do Sul, enquanto em 2023 tanto maio quanto junho foram marcados por anomalias positivas de temperatura.
A diferença observada neste começo de inverno em 2026 evidencia uma máxima entre os estudiosos do clima, a de que o El Niño aumenta a probabilidade de determinados padrões de temperatura e precipitação, mas não necessariamente garante a ocorrência. A atmosfera continua sendo influenciada por múltiplos outros fatores e a variabilidade natural do clima em paralelo ao El Niño.