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O cenário está consolidado para os próximos meses no Oceano Pacífico e é desfavorável a chuva abundante no Sul do Brasil. A tendência no restante deste ano não fugirá na área equatorial do Pacífico de um quadro de retorno do fenômeno La Niña ou de neutralidade fria (com temperatura abaixo da média da superfície do mar), condições não favorecem precipitações acima da média por meses seguidos.

Mapa de anomalia de temperatura da superfície do mar mostra que Pacífico Central está mais frio que a média neste começo de agosto | NOAA

O último boletim semanal divulgado pela NOAA, a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos, a agência climática norte-americana, apontou anomalia de temperatura da superfície do mar (TSM) de -0,4ºC no Pacífico Equatorial Central, que é a denominada região Niño 3.4 usada para a classificação da atuação ou não de El Nino ou La Niña. O valor corresponde à neutralidade, uma neutralidade fria, e perto do limite de -0,5ºC para La Niña.


Quase todos os modelos climáticos indicam para os próximos meses ou La Niña ou ainda a manutenção de uma neutralidade com anomalias negativas (anomalia fria) na região do Pacífico Central. Um mês atrás, as probabilidades numéricas de La Niña eram maiores, mas o retorno do fenômeno segue sendo uma possibilidade para os próximos meses. Caso venha novamente a se instalar será durante a primavera.

Probabilidade de La Niña nos próximos três meses é semelhante à de neutralidade, mas análise probabilística indica maior propensão para um Pacífico neutro no verão | IRI/University of Columbia

A análise probabilística do International Research Institute for Climate and Societu da Universidade de Columbia, em parceria com a NOAA, aponta para o trimestre de agosto a outubro 33% de chance de La Niña e 61% de neutralidade. Para o trimestre de setembro a novembro o indicativo é 40% de probabilidade de La Niña e 53% de neutralidade. Já para o trimestre de outubro a dezembro 44% de La Niña e 48% de neutralidade. Por sua vez, o trimestre de novembro a janeiro tem 41% de probabilidade de La Niña e 48% de neutralidade. Ainda, o trimestre de verão dezembro a fevereiro tem 35% de La Niña e 51% de probabilidade de neutralidade. E, por fim, o período janeiro a março apresenta 27% de probabilidade de La Niña e 58% de neutralidade.

Assim, como se vê pelos números calculados a partir de uma série de modelos climáticos, as probabilidades de o final deste ano e o começo de 2022 transcorrerem sob um Pacífico neutro é maior que de um novo evento de La Niña. Como estes cenários são atualizados periodicamente, há margem para alterações. É extremamente difícil, contudo, que estes próximos meses não decorram ou sob La Niña ou neutralidade.

La Niña e neutralidade oferecem riscos de déficit de chuva

Não há muita diferença entre um evento de La Niña fraco e neutralidade com anomalias de temperatura da superfície do mar negativas. Os dois cenários agravam o risco de que se registre déficit de chuva durante os próximos meses no Sul do Brasil, o que não deve ser visto como ausência de chuva ou mesmo inocorrência de episódios pontuais de chuva volumosa, mais regionalizados, que são bastante comuns na primavera.

O fenômeno La Niña se caracteriza pelo resfriamento das águas superficiais da faixa equatorial do Oceano Pacífico com a alteração do regime de vento na região que impacta o padrão de circulação geral da atmosfera em escala global, inclusive no Brasil. Quando há um evento de La Niña há uma tendência de a Terra esfriar ou na fase atual de apresentar aquecimento menor que haveria estivesse sob El Niño.

Hoje, o Pacífico encontra-se oficialmente em uma fase neutra. Por isso, mesmo com o Pacífico em neutralidade, ocorrem extremos tanto comuns em El Niño como La Niña. O Centro-Sul do Brasil e o Oeste dos Estados Unidos, por exemplo, seguem sob condição de seca – em alguns locais severa a excepcional – a despeito de o Pacífico estar neutro. O regime de chuva, assim, está longe da normalidade.

Tanto La Niña como neutralidade agravam o risco de chuva abaixo da média. No caso do Rio Grande do Sul, estudou que analisou dezenas de anos e correlacionou as condições do Pacífico com produtividade, em particular no milho, mostrou que sob neutralidade há probabilidades semelhantes de a produtividade ficar acima, abaixo ou na média. Já sob El Niño a tendência maior é de aumento de produtividade enquanto com La Niña a chance maior é de perdas na produção.

O perigo de associações lineares

Há uma propensão a se fazer uma correlação entre El Niño e mais chuva no Sul do Brasil e La Niña maior risco de estiagem, mas esta é uma fórmula distante de correta e existem muitas ressalvas a serem feitas do ponto de vista histórico. Nenhum evento de La Niña é igual ao outro e La Niña ou neutralidade não são sinônimos de estiagem, apenas condições que agravam tal risco.

Uma evidência histórica que correlações simplistas de El Niño com chuva e La Niña com seca é errado, apesar de a grande maioria das estiagens no Sul do país ter ocorrido sob neutralidade ou La Niña, é a maior seca do Rio Grande do Sul neste século. No verão de 2005, quando a estiagem foi gravíssima, o Pacífico Equatorial estava oficialmente numa condição de El Niño. Da mesma forma já houve muitos meses bastante chuvosos e até enchentes durante episódios de La Niña.

No caso do último verão, por exemplo, a MetSul enfatizava que o evento de La Niña poderia trazer estiagem, como ocorreu com perdas no milho no começo da estação, mas a mesma previsão da MetSul indicava que janeiro poderia ser mais chuvoso do que a média, o que beneficiaria o ciclo de soja, o que de fato ocorreu. Até porque, sob La Niña, a média dos dados das ultimas décadas mostra uma maior propensão para chuva acima da média do que abaixo da média durante o mês de janeiro em grande parte do Rio Grande do Sul.

Assim, nem La Niña nem tampouco neutralidade são certeza de estiagem no Sul do Brasil. O que se enfatiza é que as duas situações fazem é aumentar a probabilidade de a chuva fica abaixo da média na parte meridional do país. Por isso, se instalando um evento de La Niña na primavera ou mesmo uma neutralidade fria no limite de La Niña, aumenta muito o risco de haver prejuízos no campo para culturas que já sofrem com deficiência de chuva mais cedo, como o milho, ao passo que a soja tem sua maior demanda hídrica no período central e final do verão.

Tendência é de chuva abaixo da média no trimestre de setembro a novembro que é crítico para o milho e marca o começo do plantio da safra de verão no Sul do Brasil | IRI/University of Columbia

Ademais, da mesma forma que não se pode fazer associação linear entre La Niña e seca ou El Niño e enchentes, a despeito do risco agravado destes desfechos, a intensidade do fenômeno também não é o melhor parâmetro. Os dados históricos revelam que já houve casos de estiagens mais graves em eventos de La Niña fraco que sob forte a intenso.

Não bastasse, La Niña e El Niño decorrer do que ocorre no Pacífico Central Equatorial. Se, por exemplo, o Pacífico Central estiver mais frio que a média (Niña), mas o Pacífico Leste ter um forte aquecimento das águas durante o verão, o efeito pode ser o oposto ao que poderia se esperar com La Niña. Exatamente o que se viu em 2017. Da mesma forma, se o Pacífico Central estiver mais quente que a média (Niño) e o Pacífico Leste ter forte resfriamento, o desfecho pode ser o que normalmente o que ocorre com La Niña. Foi o caso do verão de 20005.


Todas estas ressalvas de correlações que comumente são feitas são enfatizadas pela MetSul porque o clima é por demais complexo para que apenas o Pacífico seja a forçante do comportamento do clima. Mesmo a parte do Pacífico que está mais fria ou quente faz enorme diferença nos impactos.

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Existem muitas outras que passam pelo perfil atmosférico na Antártida, o comportamento do Oceano Índico, a temperatura do Atlântico Sul e em especial as variáveis denominadas intrasazonais como a Oscilação de Madden-Julian que pode interferir enormemente para atenuar ou reforçar os efeitos de La Niña ou El Niño. Enfim, o clima é um grande quebra-cabeças.

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