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Dezembro começou o fenômeno La Niña no limite entre intensidade fraca e moderada no Oceano Pacifico Equatorial. Esta é a tendência que tem sido observada desde que na metade de outubro foi declarado um evento de La Niña pela NOAA, a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera, a agência oficial de tempo e clima do governo dos Estados Unidos.

NOAA

De acordo com o último boletim semana da NOAA, a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Central, a denominada região Niño 3.4, está em -0,9ºC. O valor está dentro da faixa de intensidade fraca (-0,5ºC a -0,9ºC), mas no limite de moderada. Por sua vez, a anomalia de temperatura no Pacífico Equatorial Leste encontra-se em -1,1ºC, no limite inferior da faixa de intensidade moderada (-1,0ºC a -1,4ºC).


O Pacífico Central pode ser a região usada para classificar se há La Niña, neutralidade ou El Niño, mas é o Pacífico Equatorial Leste que costuma exercer enorme influência no regime de chuva de grande parte do Sul do Brasil durante o verão. A persistência de valores negativos, e mais uma semana em território de La Niña moderada, desfavorece chuva mais abundante e traz as precipitações não apenas irregulares como abaixo da média histórica.

Uma grande área de águas muito mais frias do que a média abaixo da superfície do oceano mais ao Centro do Pacífico avançou para Leste e começou a chegar à superfície no Pacífico Leste por meio de ressurgência, o que explica a manutenção das anomalias no patamar de intensidade moderada por mais uma semana.


Outro indicador relacionado ao Pacífico é o Índice de Oscilação Sul (SOI em Inglês), calculado a partir da diferença de pressão atmosférica entre Darwin e o Taiti. Valores positivos acompanham La Niña e negativos El Niño. Desde que teve início o atual evento de Niña a média móvel de 30 dias da SOI atingiu o seu maior valor em 6 de dezembro com +13,1. O maior valor da média móvel de 90 dias foi atingido em 8 de dezembro com +10,08.

A tendência é a La Niña persistir durante todo o verão de 2022, atingindo o seu pico de intensidade agora em dezembro ou no máximo no começo de janeiro. No decorrer do verão, a expectativa é que o fenômeno enfraqueça, mas siga influenciando muito o regime de chuva no Sul do Brasil e no Centro da América do Sul. O evento de resfriamento do Pacífico chegaria ao fim no outono.

O que é o fenômeno La Niña?

A La Niña se caracteriza pelo resfriamento das águas superficiais da faixa equatorial do Oceano Pacífico com a alteração do regime de vento na região que impacta o padrão de circulação geral da atmosfera em escala global, inclusive no Brasil. Quando há um evento de La Niña há uma tendência de a Terra esfriar ou na fase atual de apresentar aquecimento menor que haveria estivesse sob El Niño.

No caso do Rio Grande do Sul, há estudos mostrando efeitos em produtividade agrícola pelas diferentes fases do Pacífico. Estes trabalhos levam em conta décadas de dados. Quando sob neutralidade a produtividade ficou acima da média em um terço dos anos, abaixo da média em outro terço e acima no terço restante. Sob El Niño, a tendência maior foi de aumento de produtividade e com La Niña verificou-se uma probabilidade maior de perdas na produção.

Há uma propensão a se fazer uma correlação entre El Niño e mais chuva no Sul do Brasil e La Niña a um maior risco de estiagem, mas esta é uma fórmula distante de correta e existem muitas ressalvas a serem feitas do ponto de vista histórico. Nenhum evento de La Niña é igual ao outro. Apesar de a grande maioria das estiagens no Sul do país ter ocorrido sob neutralidade ou La Niña, a maior seca do Rio Grande do Sul neste século, em 2005, se deu com o Pacífico Equatorial oficialmente numa condição de El Niño. Da mesma forma já houve muitos meses bastante chuvosos e até enchentes durante episódios de La Niña.

No caso do último verão, por exemplo, a MetSul enfatizava que o evento de La Niña poderia trazer estiagem, como ocorreu com perdas no milho e se repete agora, mas a mesma previsão indicava que janeiro poderia ser mais chuvoso do que a média, o que beneficiaria o ciclo de soja. Até porque, sob La Niña, a média dos dados das últimas décadas mostra uma maior propensão para chuva acima da média do que abaixo da média durante o mês de janeiro na maioria dos anos em parte do Rio Grande do Sul.

Assim, La Niña nem sempre é certeza de estiagem generalizada no Sul do Brasil nem tampouco de chuva acima da média mais ao Norte e o Nordeste do Brasil. O que o fenômeno faz sim é aumentar a probabilidade de ocorrência destes cenários nas diferentes regiões do país. Por isso, com a La Niña instalada desde outubro, aumenta muito o risco de estiagem no verão no Sul do país.

Por fim, da mesma forma que não se pode fazer associação linear entre La Niña e seca ou El Niño e enchentes, a intensidade do fenômeno também não é o melhor parâmetro. Os dados históricos revelam que já houve casos de estiagens mais graves em eventos de La Niña fraco que sob forte a intenso. Isso se explica porque o Pacífico não é a única variável que influencia na chuva. Outras variáveis como a Oscilação de Madden-Julian (OMJ), a temperatura do Atlântico e a Oscilação Antártica podem atenuar ou aumentar os efeitos da La Niña.

Sul do Brasil e Argentina são as áreas de maior risco na agricultura neste segundo verão seguido com La Niña

De acordo com a análise da MetSul, o maior risco por deficiência hídrica na safra de verão se dará no Sul do Brasil e na Argentina e desde já antecipamos um altíssimo risco de perda de produtividade e quebras, especialmente na Argentina. A safra 2022 da Argentina, em especial, pode sofrer demais durante os próximos meses com falta de chuva e calor muito intenso com temperatura bastante acima da média, agravando ainda mais a perda de umidade do solo e gerando estresse nas plantas. Quebras muito expressivas podem ocorrer nas áreas produtoras de soja e milho do Centro e do Nordeste do país, na zona núcleo do Pampa úmido.

No Sul do Brasil, em particular no Rio Grande do Sul e no Oeste de Santa Catarina, inicialmente a cultura de milho é que pode ser a mais atingida e, assim como ocorreu no final de 2020, terá perdas e quebras significativas em diversas áreas.

No Rio Grande do Sul, o período mais crítico para a soja se dá entre a segunda metade de janeiro e o começo de março, período de maior demanda hídrica e que pode ter irregularidade na chuva em 2022 com riscos em parte do Estado. A Metade Norte gaúcha pode enfrentar problemas nos próximos meses com precipitações deficientes, mas os dados de hoje indicam risco de chuva irregular e déficit hídrico será maior nas Metades Oeste e Sul, em cenário benéfico para o arroz e de risco para a soja nestas regiões.

Recomenda-se, por fim. ao produtor rural ficar atento aos boletins da Meteorologia e ter uma consultoria especializada em clima diante de uma safra de riscos em 2021/2022. O produtor, ao assinar a MetSul, ainda tem acesso aos nossos mapas de chuva para dias, semanas e meses para melhor planejar as atividades no campo.

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