Anúncios

Imagem de 5 de abril de 2020 mostra uma pessoa segurando um contador Geiger no local de um incêndio florestal em uma zona de exclusão de 30 quilômetros de Chernobyl, não muito longe da usina nuclear. O fogo à época aumentou os níveis de radiação no ar na região. | YAROSLAV EMELIANENKO/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Incêndios florestais eclodiram ao redor da usina nuclear de Chernobyl, disse o parlamento ucraniano, levantando temores de que a radiação possa se espalhar da instalação danificada. O ministro de recursos naturais da Ucrânia disse mais tarde à Associated Press que os incêndios foram extintos, aliviando o alarme imediato. No começo da guerra, um súbito aumento dos níveis de radiação na região causou apreensão mundial.

Pelo menos sete incêndios dentro da zona de exclusão da usina foram observados em imagens de satélite da Agência Espacial Europeia, disse o parlamento em comunicado. Os legisladores atribuíram as chamas às forças russas que capturaram o local em fevereiro.

Autoridades e bombeiros ucranianos não puderam realizar suas funções habituais na área para extinguir os incêndios devido ao controle russo da usina, acrescentou a atualização. O parlamento também alertou que incêndios dentro de “um raio de 10 quilômetros” de resíduos radioativos significativos e contaminação podem representar um “perigo particular”.

Incêndios florestais já ocorreram perto da extinta usina, cenário de uma catástrofe em 1986. Grandes quantidades de material radioativo contaminaram a terra ao redor da central nuclear de Chernobyl após o desastre, e uma cidade próxima foi evacuada. Hoje, uma “zona de exclusão”, onde a contaminação radioativa é mais alta, cobre uma enorme área ao redor da usina.

A Energoatom, empresa nuclear estatal da Ucrânia, disse na segunda-feira que a captura da área pela Rússia significava que as equipes não podiam mais monitorar os níveis de radiação lá. A empresa afirmou que o serviço de combate a incêndios florestais não foi capaz de trabalhar sob controle russo.

Uma pesquisa do Center for Security Studies publicada no ano passado descobriu que a fumaça dos incêndios florestais pode transportar material radioativo, apresentando um “motivo de preocupação internacional”. Com as mudanças climáticas, “os incêndios florestais nucleares apresentam um problema grave, mas pouco discutido” que requer atenção urgente, disse o estudo.

O New York Times informou que os incêndios florestais são comuns na primavera e no verão nas áreas abandonadas da zona de exclusão ao redor da usina nuclear, onde “os níveis de radiação são consideravelmente mais baixos do que eram imediatamente após o acidente de 1986, mas ainda apresentam riscos”. Em 2020, grandes incêndios florestais foram registrados na floresta contaminada pelo acidente nuclear.

O desastre de Chernobyl

Em 26 de abril de 1986, à 1h23, o reator número 4 da central de Chernobyl, situado a 100 quilômetros de Kiev, explodiu durante um teste de segurança. Começava o maior acidente nuclear da história. Durante 10 dias, o combustível nuclear queimou e liberou na atmosfera elementos radioativos que contaminaram, segundo algumas estimativas, até 75% da Europa, especialmente as então repúblicas soviéticas da Ucrânia, Belarus e Rússia.

Desastre nuclear em 1986 assustou o mundo e espalhou radiação da usina atômica de Chernobyl por vários países da Europa | STF/AFP/METSUL METEOROLOGIA

As autoridades soviéticas tentaram esconder o acidente. O líder da União Soviética na época, Mikhail Gorbachev, não falou publicamente sobre a questão até 14 de maio. Segundo documentos de arquivo publicados pelo Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), em 1982 e 1984 houve ao menos três falhas na usina de Chernobyl, mas as autoridades soviéticas as mantiveram em segredo.

Tanto a central de Chernobyl quanto as de Leningrado e Kursk (Rússia), todas com o mesmo tipo de reator, “são as mais perigosas em relação ao seu funcionamento, o que pode gerar consequências ameaçadoras”, segundo um documento do KGB de 1983 publicado pelo SBU.

Um total de 116.000 pessoas foram retiradas em 1986 dos arredores de Chernobyl, que permanecem atualmente praticamente inabitados. Nos anos posteriores, outros 230.000 moradores deixaram a zona. Durante quatro anos, quase 600.000 pessoas foram enviadas ao local do desastre com pouca ou nenhuma proteção para controlar o incêndio, isolar o reator com uma cobertura de concreto e limpar os arredores.

O balanço de vítimas da catástrofe continua sendo objeto de debate. O comitê científico da ONU (Unscear) reconhece oficialmente apenas 30 mortes entre os operários e bombeiros que faleceram vítimas da radiação após a explosão. Em 2006, a ONG Greenpeace calculou em quase 100.000 o número de mortes provocadas pelos efeitos radioativos da catástrofe nuclear.

A central de Chernobyl manteve a produção de energia elétrica até dezembro de 2000, quando a pressão dos países ocidentais resultou na paralisação do último reator operacional. Após anos de adiamento, no final de 2016 foi instalado um arco gigante de aço sobre o reator danificado. Esta estrutura, com um custo de 2,1 bilhões de euros financiados pela comunidade internacional, cobriu o “sarcófago” de concreto, rachado e instável, e que deve garantir a segurança pelos próximos 100 anos.

Embora as autoridades afirmem que os humanos não poderão viver na região de forma segura por pelo menos 24.000 anos, o local atrai cada vez mais turistas à procura de emoção e Kiev deseja sua inclusão na lista de Patrimônio Mundial da Unesco.

Anúncios