Furacão Catarina na costa do Sul do Brasil em 27 de março de 2004 | NASA

Há 20 anos, em 28 de março de 2004, um domingo, o Brasil acordava sob o impacto da notícia de um furacão que havia tocado terra durante a madrugada no Sul do Brasil com mortes e destruição. A tempestade atingiu o Sul de Santa Catarina e o Litoral Norte do Rio Grande do Sul, mas mesmo em Porto Alegre e na Serra houve danos por vento.

O furacão, batizado de Catarina pelo centro meteorológico estadual catarinense (Ciram), foi responsável por prejuízos de centenas de milhões de reais e uma dezena de mortos. Foi o primeiro e único furacão documentado até hoje no Atlântico Sul e teve intensidade entre o limite superior da categoria 1 e inferior da categoria 2 da escala Saffir-Simpson com vento sustentado ao redor de 150 km/h e rajadas mais fortes.

Catarina foi um choque para a Meteorologia, no mundo e principalmente para os profissionais brasileiros. Como um furacão poderia ter se formado se a teoria científica afirmava que não era possível sobre o Atlântico Sul?

Embora fosse evidente para MetSul e outros profissionais antes mesmo de a tempestade tocar terra, meses de debates se seguiram na Meteorologia brasileira para classificar o fenômeno. A conclusão, ouvidos especialistas do exterior, foi a óbvia: foi um furacão.

Passados 20 anos do Catarina, nenhum outro furacão se formou na região do Atlântico Sul, apesar de tempestades tropicais, estágio anterior a um furacão, terem se originado na costa do Brasil nos últimos anos.

O desastre de 2004 forçou mudanças, mas nem tudo foi avanço. Hoje, duas décadas depois, há conhecimento maior sobre ciclones tropicais no Brasil e uma capacidade de modelagem numérica de previsão e de ferramentas de monitoramento muito melhores, em grande parte de origem estrangeira. Até uma lista de nomes foi concebida para designar os ciclones atípicos, os subtropicais e os tropicais (furacão é um ciclone tropical).

A Defesa Civil catarinense, por exemplo, se estruturou e se tornou exemplo como a melhor entre os três estados do Sul. Há ainda maior cultura de alertas e uma maior capilaridade das advertências com o avanço das redes sociais, mesmo que ainda hoje, como em 2004, muitas pessoas não levem a sério os avisos ou descreiam das previsões.

Por outro lado, as boias de monitoramento na costa, tão citadas em 2004, são quase nulas. Seguimos sem saber o que ocorre em mar aberto antes de um ciclone tocar terra, dispondo-se apenas de estimativas de vento por satélites (já existentes em 2004) e de esparsos relatos de embarcações.

Além disso, os códigos de edificação em cidades costeiras, que também são afetadas por ciclones extratropicais, este um fenômeno recorrente e também capaz de causar ventos destrutivos, jamais foram adaptados para os riscos de vento muito intenso a extremo na costa.

Finalmente, o Brasil se equivoca quando centraliza os alertas e informações dos ciclones atípicos no serviço meteorológico da Marinha, que tem preocupação e competência legal exclusivas para os oceanos, quando estes sistemas não raro causam impactos em terram firme, onde vivem as pessoas (mais da metade da população brasileira vive perto da costa). Os boletins da Marinha são ininteligíveis para a população, que desconhece escala Beuafort de ventos, por exemplo, e tem focos em segurança marítima e não na preservação de vidas e patrimônio no continente.

Por isso, o nosso entendimento que a competência primária para a previsão destes ciclones deveria ser do Instituto Nacional de Meteorologia, que é o órgão oficial de previsão do tempo do Brasil, e deveria ter uma unidade especializada para prognóstico de ciclones, o que poderia ser feito em parceria com outros serviços regionais como os do Uruguai e da Argentina.

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