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Região da Catânia foi tomada por inundações após chuva com volume equivalente à média anual de precipitação em apenas 48 horas e agora enfrenta a ameaça de mais chuva com a chegada do Medicane Apollo, um furacão atípico que se forma sobre o Mar Mediterrâneo| STRINGER/AFP/METSUL METEOROLOGIA

O Sul da Itália se prepara para ser atingido por um furacão do Mediterrâneo dias depois de a região ter sido castigada por precipitações trazidas por um outro centro de baixa pressão não tropical, a tempestade Gloria, que despejou o equivalente a um ano de chuva em apenas 48 horas com graves inundações.

A área mais atingida pela chuva excepcional do começo desta semana foi a da cidade portuária de Catânia, onde as precipitações em horas atingiram a média anual inteira. Duas pessoas perderam a vida e uma ainda está desaparecida. Casas e comércios foram tomados pela águas, ruas viraram rios e carros se empilharam pela cidade com as inundações.


Estação meteorológica na localidade de Lentini, na Sicília, registrou 275,4 mm no dia 26. Já outras estações acusaram 312,2 mm em Linguaglossa e 279,8 mm em Lentini entre os dias 24 e 25. Com o prosseguimento da precipitação intensa no dia seguinte, a média anual de chuva da região de 586 mm foi ultrapassada em apenas dois dias.

Depois do dilúvio, um furacão do Mediterrâneo

O Sul da Itália está em alerta máximo agora para a chegada nas próximas horas e durante esta sexta-feira de um ciclone híbrido que reúne características tropicais que se forma sobre o Mar Mediterrâneo e é denominado de um Medicane. O sistema se forma entre os mares da Líbia e Jônico e será denominado de Apollo pelo Instituto Meteorológico de Berlim.

Tempesta Apollo/Ventusky/Reprodução

Os modelos matemáticos agora dão como certa sua transição para um furacão (Medicane) entre hoje e amanhã devido à contínua alimentação pelo ar quente e úmido sobre a superfície do Mar Mediterrâneo.

A transformação do ciclone em um Medicane fará que sua extensão seja menor, entretanto mais intenso e muito mais perigoso em sua trajetória para o extremo Sul do território italiano.

A Tempesta Apollo, em Italiano, trará uma piora gradual do tempo ao longo do dia de hoje na Sicília, mas, especialmente, amanhã, quando também atingirá a Calábria com fortes chuvas e trovoadas.

O grande temor é de novas inundações em áreas já duramente castigadas por chuva extrema no começo desta semana. Os modelos meteorológicos ainda não firmaram tendência se o sistema tocará terra, mas é muito provável que o centro da tempestade se aproxime muito da costa.

O que é um Medicane

Ciclones no Mar Mediterrâneo não chegam a ser incomuns. Quando adquirem algumas características especiais do tipo tropical (tropical like cyclones) são conhecidos informalmente como Medicanes, a conjunção das palavras Mediterrâneo e hurricane (furacão em Inglês). Enquanto os furacões dos trópicos se formam com temperatura do mar acima de 27ºC, estes Medicanes podem se originar sobre águas de até 15ºC.

Ciclones do tipo tropical mediterrâneo não chegam a ser incomuns. Em regra, ocorrem uma ou duas vezes por ano, sobretudo entre os meses de setembro e novembro, no outono da região. São sistemas que trazem vento forte, mas, sobretudo, chuva intensa com inundações. São, normalmente, menores em dimensão que um furacão tradicional e se dissipam mais rapidamente.

Embora o vento em um Medicane possa ser intenso, raramente este tipo de fenômeno alcança a intensidade de um furacão categoria 1 (vento sustentado igual ou acima 119 km/h).

Em algumas ocasiões, porém, estes ciclones podem gerar muitos estragos por vento. O Medicane Qendresa, que atingiu Malta e a Sicília em 2014, causou danos significativos. Os ventos sustentados chegaram a 111 km/h com rajadas de mais de 150 km/h. Em agosto de 2020, a Grécia foi castigada pelo Medicane Ianos que trouxe muitos estragos, especialmente na ilha de Lefkada.

Mudanças climáticas

Como os ciclones do tipo tropical do Mediterrâneo ocorrem apenas uma ou duas vezes por ano, é difícil afirmar que as mudanças climáticas estejam interferindo.

Cientistas, porém, especulam que as temperaturas mais altas da superfície do mar no Mediterrâneo podem levar os ciclones a apresentar características mais tropicais, aumentando a velocidade do vento e tornando as tempestades mais intensas. Estes especialistas advertem para a possibilidade de uma tropicalização do Mediterrâneo.


Justamente as águas mais quentes podem estar interferindo na formação dos chamados Medicane. O clima está tórrido no Norte da África e o Mar Egeu registra uma temperatura de 3ºC acima da média enquanto o Mar Jônico tem temperatura quase 2°C superior ao normal.

Os sinais de mudança no clima estão cada vez mais evidentes na Sicília, onde em agosto uma estação de monitoramento na cidade de Siracusa registrou uma temperatura de 48,8ºC, a mais alta já registrada na Europa. Dados apontam um aumento médio da temperatura na ilha nos últimos 50 anos em quase 2°C, subindo para 3,4°C em Messina, na costa Nordeste.

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