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Moradores do município de São Francisco de Assis, no Centro do Rio Grande do Sul, relataram a ocorrência de chuva preta na localidade durante o fim de semana. A água da chuva acumulada em baldes e outros objetos tinha coloração enegrecida. As imagens da chuva preta foram apresentadas pela meteorologista Estael Sias da MetSul no SBT Rio Grande Primeira Edição no quadro Nosso Clima.

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A chuva ocorreu no momento em que havia uma grande quantidade de fumaça sobre o Rio Grande do Sul, o que alterou a coloração do céu significativamente na sexta-feira em muitas cidades gaúchas a ponto de oferecer a perspectiva que o tempo encontrava-se nublado ou encoberto mesmo que os satélites não mostrassem nenhuma nuvem. Devido a uma corrente de jato (vento), a cerca de 1.500 metros de altitude, a fumaça oriunda de queimadas na região amazônica, no Pantanal e em países vizinhos era transportada para o Rio Grande do Sul.

Com as precipitações do fim de semana, associadas a um sistema frontal sobre o Estado, o material particulado se precipitou sobre o Rio Grande do Sul. A chuva tem o efeito de “limpar” a atmosfera, o que explica a qualidade do ar em uma cidade poluída melhorar muito após o registro de chuva. O material particulado em suspensão na atmosfera, e no caso de queimadas é fuligem ou o chamado carbono negro (soot) oriundo de queima de biomassa, acabou se precipitando juntamente com a chuva.

Nos últimos dias, a MetSul Meteorologia já vinha recebendo relatos de Porto Alegre e de outras cidades de precipitação escura. Um funcionário de empresa de tratamento de piscinas havia nos relatado a coloração alterada da água que observou. Isso fez com que na última semana coletássemos em uma experiência doméstica simples a água da chuva, em objeto limpo e colocado em ponto livre de qualquer contaminação, para verificar se havia alguma contaminação e o resultado foram pequenos pontos pretos misturados na água da chuva.

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Não é um fato novo, entretanto, a ocorrência de chuva preta, apesar de indicar quadro de grande presença de aerossóis na atmosfera e refletir uma situação ambiental grave. No ano passado, cidades do Rio Grande do Sul e em São Paulo houve registro de chuva preta. No caso paulista, análises químicas de universidade demonstraram que a chuva preta foi resultante de queimadas.

Em 2010, outro ano que foi de muitas queimadas, a MetSul Meteorologia registrou em fotografias que muito carros estacionados em Porto Alegre apresentavam fuligem sobre as suas superfícies após um dia de chuva com presença de fumaça na atmosfera.

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A MetSul antecipa que o avanço de quente de origem tropical vai manter um grande fluxo de fumaça para o Sul do Brasil e São Paulo, chegando até o litoral do Rio de Janeiro, no restante da semana.

Como se espera chuva associada ao avanço do ar quente de Norte entre esta terça e quarta, mas, especialmente na quarta, com a presença de muita fumaça na atmosfera pode voltar a se produzir precipitação de carbono preto.

Carbono negro, o ambiente e o clima

Estudos mostram que a presença de fuligem de queimadas na atmosfera pode interferir com a ocorrência de chuva, no degelo de glaciares e impactar o aquecimento do planeta. Uma equipe liderada por Newton de Magalhães Neto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), modelou o possível efeito que a queima de biomassa na Bacia Amazônica poderia ter na geleira boliviana Zongo, usando dados coletados entre 2000 e 2016 sobre episódios de incêndio, movimentos de plumas de fumaça, precipitação e derretimento de geleiras.

Os pesquisadores descobriram que os aerossóis provenientes da queima de biomassa, como o carbono negro, podem ser transportados pelo vento para as geleiras andinas tropicais. Lá, se depositam na neve e têm potencial de aumentar o derretimento das geleiras, porque a neve é escurecida pelo carbono negro ou partículas de poeira e, assim, reflete menos luz (menor albedo).

Um dos principais constituintes da fuligem, o carbono negro é o componente do material particulado que absorve energia solar. A quantidade de energia armazenada na atmosfera é medida em watts por metro quadrado da superfície da Terra e estudo de 2013 estimou o efeito do carbono negro em 1,1 watts por metro quadrado por ano, perdendo apenas para o dióxido de carbono que é responsável por 1,56 watts por metro quadrado.

Em outras palavras, o carbono negro é o segundo maior contribuinte para as mudanças climáticas depois do CO2, apontou o estudo. Ao contrário do CO2, que pode permanecer na atmosfera por centenas a milhares de anos, o carbono negro por ser uma partícula permanece na atmosfera apenas por dias ou semanas antes de retornar à terra com chuva ou neve.

O carbono negro, como todas as partículas na atmosfera, também afeta a refletividade, estabilidade e duração das nuvens e altera a precipitação. Dependendo da quantidade de fuligem que está no ar e em qual camada da atmosfera o carbono negro se encontra, ele tem efeitos diferentes. Se absorver calor no nível em que as nuvens estão se formando, elas tendem a evaporar. Quando fica acima das nuvens estratocúmulos inferiores que bloqueiam o sol, o carbono as estabiliza e, portanto, tem um efeito de resfriamento.

Como o carbono negro interage com outros componentes do material particulado, como sulfatos e nitratos que refletem a luz do sol e resfriam a atmosfera, os cientistas não sabem exatamente quanto o próprio carbono negro consegue influenciar o tempo, mas estudos brasileiros mostram que a fumaça interfere no processo de formação da chuva na Amazônia com efeito de redução.

Dentre os estudos sobre a fuligem das queimadas, um mostrou que a queima incompleta da madeira das árvores resulta na produção de carbono negro que chega às águas do Rio Amazonas nas formas de carvão e fuligem e acaba transportado para o Oceano Atlântico como carbono orgânico dissolvido.

Um grupo internacional de pesquisadores quantificou e caracterizou pela primeira vez o carbono negro que flui pelo Rio Amazonas em trabalho publicado na revista Nature Communications e que mostrou que a maior parte desse material transferido para o oceano é “jovem”, sugerindo que foi produzido por queimadas recentes na floresta.

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