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Chuva forte a torrencial atingiu vários bairros da cidade do Rio de Janeiro com acumulados de até 200 mm em alguns pontos e deixou a capital fluminense em estágio de atenção | TÂNIA RÊGO/AGÊNCIA BRASIL/EBC/ARQUIVO METSUL

Chuva extrema atingiu pontos da cidade do Rio de Janeiro neste sábado com alagamentos e outros transtornos para a população carioca, o que levou o Centro de Operações da Prefeitura Municipal do Rio a colocar o município em estado de atenção.

O AlertaRio ainda emitiu avisos de alto risco de deslizamentos de terra pelos volumes muito altos em curto período. Conforme o órgão municipal da Prefeitura carioca, o risco era alto de escorregamento de encostas na Baía de Guanabara e o estágio era de atenção com risco médio para deslizamentos na Baía de Sepetiba e na Barra/Jacarepaguá. Já na zona Sul, o risco era baixo.


Os volumes até 14h deste sábado, conforme o AlertaRio, atingiram 225 mm na Estrada do Grajaú-Jacarepaguá, 207 mm em Campo Grande, 170 mm em Madureira, 168 mm em Anchieta, 148 mm em Santa Cruz, 146 mm no Grande Méier, 142 mm na Penha, 133 mm em Bangu, 130 mm na Piedade, 126 mm na Ilha do Governador, 125 mm na Avenida Brasil (Mendanha), e 105 mm em Irajá.

Por que a chuva foi tão extrema?


Volumes extremos não são incomuns no litoral do Rio de Janeiro pela condição geográfica da região. Foram duas situações meteorológicas e em dois momentos potencializadas por uma condição geográfica que é a topografia da região. Primeiro, uma frente fria chegou ao litoral do Sudeste do Brasil e trouxe muita chuva primeiro em pontos da costa de São Paulo e no Leste paulista.

Segundo, e muito mais importante, foi o aporte de umidade do mar para o continente com a atuação de uma massa de ar frio no oceano. Observe no mapa com o vento em 850 hPa (1.500 metros de altitude) como havia fluxo de vento mais intenso do oceano para a costa, carregado de umidade, praticamente um pequeno e estreito rio atmosférico, justamente no sentido da cidade do Rio de Janeiro, o que explica os acumulados de precipitação elevados em parte da capital fluminense.

A umidade que vinha do mar com ar mais frio encontrou ar mais quente sobre o continente e a barreira física dos morros da Serra do Mar, gerando que se denomina de chuva orográfica. Chuva orográfica é precipitação induzida pelo relevo.

Umidade que vem do oceano, trazida por vento do quadrante Sul a Leste, em razão de uma massa de ar frio de trajetória oceânica e que atua na costa do Sul do Brasil, ao encontrar a barreira do relevo da Serra, ascende na atmosfera e encontra temperatura mais baixa. Isso leva à condensação e à ocorrência de chuva induzida pelo relevo.

Episódios de chuva orográfica são de alto risco porque costumam trazer acumulados de precipitação localmente muito altos e que não raro até acabam superando as projeções dos modelos numéricos. Os litorais de Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro são os de maior risco de eventos de chuva extrema de natureza orográfica no Brasil.

Modelos numéricos de maior resolução, como o WRF da MetSul Meteorologia, indicavam acumulados muito altos para hoje do Litoral Sul do estado do Rio de Janeiro até a região da capital fluminense, mas como tradicionalmente ocorre em eventos de chuva orográfica a precipitação acaba extrapolando até as piores projeções dos modelos numéricos.

A cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, tem um histórico de eventos de chuva extrema em março e abril por esse tipo de situação em que infiltração de umidade marítima por massa de ar frio no oceano traz acumulados extremos em locais junto ao relevo da Serra do Mar.

As dez maiores medições de chuva em 24 horas na rede do Alerta Rio ocorreram todas no mês de abril. Os episódios ocorreram em 6/4/2010, 9/4/2019 e 26/4/2011. A maioria teve acumulados superiores a 300 mm em 24 horas. No fim de março e em abril começam a ingressar as primeiras massas de ar frio mais fortes que encontram o ar tropical quente e úmido no Sudeste com chuva forte que é potencializada em áreas junto à Serra do Mar.

Em seu boletim com o prognóstico para abril, a MetSul advertia que “no Sudeste do Brasil, áreas perto da costa em São Paulo e o Rio de Janeiro podem ter chuva acima a muito acima da média pelo maior transporte de umidade do oceano em razão da maior frequência de ar frio sobre o Atlântico na costa do Sul do país”. O boletim acrescentava o “alto o risco de eventos de chuva excessiva nestas áreas”.

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