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O consenso entre os meteorologistas até ontem era de que o ciclone que vai atingir hoje o Rio Grande do Sul seria subtropical (centro quente em superfície e frio em altitude), mas dados que hoje ingressaram mostram que o sistema pode ser tropical. Já com base nos dados de modelos da madrugada e manhã de hoje, a MetSul Meteorologia cogitava um ciclone tropical na costa.

Um ciclone tropical, de centro quente, é gênero para três tipos conforme o vento sustentado: depressão tropical (30 km/h a 60 km/h), tempestade tropical (60 km/h a 120 km/h) e furacão (acima de 120 km/h). Os dados dos modelos ao longo desta segunda indicaram o ciclone com vento sustentado na faixa de forte tempestade tropical, mas com rajadas com força de furacão,  o que é ==comum em tempestades tropicais por ser o estágio anterior a um furacão em força do vento.


Em conversa com a MetSul, o meteorologista Michel Davison, chefe da seção internacional do Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos (NWS), comentou que via uma transição de subtropical para tropical.  Davison, que está a pouco dias de se aposentar após muitos anos treinando meteorologistas do mundo inteiro na NOAA, revelou que estava em diálogo direto com a Marinha do Brasil sobre a evolução do ciclone. Nas cartas publicadas pela sua seção no final da manhã, a projeção era de o ciclone passar de subtropical para tropical.


No final da tarde, o meteorologista Ryan Maue usou as suas redes sociais para comentar sobre o ciclone nas costas gaúchas e uruguaia. Maue, um dos maiores experts em ciclones dos Estados Unidos e que atuou no Naval Research Laboratory, afirma que o ciclone na costa gaúcha vai ser uma tempestade tropical.

Observou que um sistema de baixa pressão segregado ao interagir com um bloqueio atmosférico vai levar à rápida formação da tempestade tropical. “As temperaturas do oceano são muito frias para desenvolvimentos tropicais, mas a parte inferior da atmosfera permite convecção (instabilidade vertical) mais fácil e maior intensidade potencial”, disse.

Que ciclone tropical se forme numa onda de frio é absurdamente incomum, mas já havia ocorrido nas costas uruguaia e gaúcha no final de junho de 2021 com a tempestade Raoni. Antes, a tempestade Anita (2010) e o furacão Catarina (2004) foram os ciclones tropicais que atuaram junto ao litoral gaúcho em meses quentes.

À medida que o ciclone se aproxima, o vento se intensifica ao longo desta terça no Sul e no Leste gaúcho com rajadas fortes. Modelos de computador indicam a possibilidade de um olho na tempestade, o que é característica clássica de uma tempestade tropical forte ou um furacão.

A estrutura da tempestade projetada pelo modelo WRF é igualmente clássica de tempestade tropical ou um furacão, ambos ciclones tropicais, com um centro de circulação fechado e uma parede de nuvens (parede do olho) com forte chuva ao seu redor e bandas de nebulosidade derivadas com chuva localmente torrencial e vento. Os ventos mais intensos ocorrem na sua periferia.

A estrutura de nuvens ao redor do olho com vento muito intenso ingressa pelo extremo Sul gaúcho à tarde e avança pelo Litoral Sul. No fim da tarde e início da noite chega à região de Pelotas e Rio Grande. Após, avança pela Lagoa dos Patos e a costa, atingindo a região de Porto Alegre no fim do dia. No início da quarta, o centro da tempestade castiga mais o Litoral Norte.

O vento médio no Sul e no Leste gaúcho deve atingir 80 km/h a 100 km/h, mas vários pontos devem ter rajadas de 100 km/h a 120 km/h com risco de marcas isoladas na Lagoa dos Patos e na costa de até 130 km/h ou 140 km/h. O Sul e o Leste do Rio Grande do Sul serão as regiões mais castigadas com vento, em média, de 90 km/h a 110 km/h, mas rajadas em alguns pontos que podem atingir de 110 km/h a 130 km/h, em especial no Litoral Sul e na área da Lagoa dos Patos e seu entorno.

Alguns modelos projetam o pior do vento entre a região de Rio Grande, Mostardas e Palmares do Sul e Cidreira. Na madrugada, o modelo meteorológico alemão Icon chegou a indicar vento de quase 160 km/h no Norte da Lagoa dos Patos, o que acabou sendo objeto de comentário nas redes sociais de um meteorologista alemão, mas o modelo diminuiu a força do vento na região em sua saída da tarde.

Em Porto Alegre, a estimativa da MetSul é de rajadas, em média, de 80 km/h a 100 km/h, mas, adverte-se, a topografia da cidade e a presença da lagoa ao Sul e do Guaíba a Oeste podem resultar em vento superior a 100 km/h com algumas projeções indicando vento extremo em pontos mais ao Sul da cidade e próximos da Lagoa dos Patos acima de 120 km/h. Cidades mais ao Sul da área metropolitana como Guaíba, Eldorado do Sul e Viamão podem ser igualmente duramente castigadas. O Vale do Sinos, pelo seu relevo, costuma ter vento menos intenso em ciclones, mas pode registrar rajadas muito fortes.

O Litoral Norte gaúcho também deve sofrer com vento forte a intenso com rajadas perto ou acima de 100 km/h e potencialmente mais intensas em praias e municípios mais ao Sul da região como Palmares, Quintão, Balneário Pinhal, Tramandaí, Cidreira, Imbé, Xangri-lá e Capão da Canoa. Mais ao Norte, embora se preveja vento muito forte a intenso em alguns momentos, as rajadas seriam menos violentas que em praias mais ao Sul da região.

Em Santa Catarina, o vento pode ser muito forte também no Sul do estado com as rajadas mais intensas ocorrendo no Litoral Sul, onde em alguns pontos devem ficar próximas ou acima de 100 km/h, como nas áreas de Passo de Torres, Balneário Rincão e Laguna. O vento nas montanhas do Planalto Sul Catarinense, como no Morro da Igreja, e em elevações na borda da Serra nos Aparados pode atingir velocidades altíssimas.

Cidades de maior risco

Os municípios de maior risco no Rio Grande do Sul por vento muito intenso a extremo são Chuí, Santa Vitória do Palmar, Pelotas, Rio Grande, Capão do Leão, São José do Norte, Piratini, Pedro Osório, Pinheiro Machado, Morro Redondo, Turuçu, São Lourenço do Sul, Cristal, Camaquã, Mostardas, São José do Norte, Tapes, Camaquã, Sertão Santana, Cerro Grande do Sul, Sentinela do Sul, Mariana Pimentel, Guaíba, Barra do Ribeiro, Eldorado do Sul, Viamão, Porto Alegre, Canoas, Gravataí, Cachoeirinha, Alvorada, Glorinha, Osório, Tavares, Santo Antônio da Patrulha, Palmares do Sul, Balneário Pinhal, Cidreira, Tramandaí, Xangri-lá, Imbé, Capão da Canoa, Arroio do Sal, Maquiné, Terra de Areia, Três Cachoeiras, e Torres.

Impacto do ciclone pode ser significativo

Há alta probabilidade de danos na passagem deste ciclone pelo Sul e o Leste do Rio Grande do Sul entre amanhã e a quarta-feira. Adverte-se para a possibilidade elevada de destelhamentos, quedas de árvores, quedas de postes, colapso de estruturas como placas, etc. Prédios mais altos nas cidades de médio e grande porte por onde passará o ciclone devem ter vento mais intenso nos andares elevados que no nível térreo e há risco de quebras de vidros e quedas de estruturas.

Espera-se um impacto muito alto no serviço de energia com a esmagadora maioria dos pontos sem luz na área de concessão da CEEE Equatorial, onde, considerado a projeção de vento, elevado número de clientes deve ficar sem luz. Na área de concessão da RGE, embora se preveja vento forte em áreas do Centro para o Leste gaúcho, as consequências devem ser menos graves que na região de atuação da CEEE. Com falta de luz, há risco de falta de água, uma vez que as estações de DMAE, CORSAN e outros serviços de saneamento são dependentes de energia.

Adverte-se ainda para a ocorrência de ressaca de grandes proporções na costa do Rio Grande do Sul. A Marinha do Brasil está projetando ondas de 4 a 6 metros junto ao litoral gaúcho com aviso de mar muito grosso. A MetSul alerta que a ressaca pode ser muito forte com elevação da maré, o que pode trazer danos em áreas costeiras e erosão na costa, havendo risco em especial para estruturas na beira das praias como guaritas, quiosques e calçadões.

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