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Muito se falou neste mês da onda de frio nos Estados Unidos, mas nenhuma ocorrência climática no país é tão significativa como a seca que atinge hoje a Califórnia e o Oeste americano. Não apenas 2013 foi o ano-calendário mais seco até hoje registrado no estado da Califórnia, como algumas cidades bateram seus recordes de mínima precipitação anual, em alguns casos em até impressionantes 50%. O mapa abaixo de umidade no solo revela como é grave a deficiência hídrica no Oeste.



Praticamente todo o estado está neste momento sob condições de seca no momento em magnitude jamais vista nos nossos tempos. Nas áreas mais populosas da Califórnia, nunca houve um período tão seco em mais de um século. Tanto que nesta sexta-feira (17), o governador democrata da Califórnia Jerry Brown formalmente proclamou o estado inteiro em “emergência de seca”, mostrando no anúncio em Sacramento um cartaz com a evolução da chuva nos anos-hídricos entre 1970 e 2014.



No decreto de emergência por seca, o governo da Califórnia apelou à população para que reduza o consumo de água em até 20%. Nesse sentido, já existe campanha de mídia para conscientização do público (reprodução abaixo). Um exemplo que deveria ser seguido aqui não só em situações de estiagens que afetam o Rio Grande do Sul, mas também quando da previsão de ondas de calor, que levam a consumo excessivo e falta de água, como recentemente em diversas comunidades gaúchas.


Los Angeles, no Sul da Califórnia, teve em 2013 o ano mais seco desde que começou a ser medida a chuva na cidade em 1877 com 90 mm, batendo os anos muito secos de 1947 e 1953 que tiveram apenas 100 mm, muito abaixo da média anual de 372 mm. San Francisco está entre as cidades americanas com histórico de chuva mais antigo, de 1849, na era da “Corrida do Ouro” e um ano antes da Califórnia se tornar um estado. Apenas para vocês terem ideia, usando como exemplo uma obra ficcional popular do cinema que muitos de vocês viram, em De Volta para o Futuro 3 os personagens Emmet Brown (cientista) e Marty McFly conhecem a origem da cidade da também fictícia cidade de Hill Valley, no Norte da Califórinia, durante o Velhi Oeste em 1885. San Francisco tem registros desde 36 anos antes da data da história do filme e jamais um ano tinha sido tão seco como o último. Em 2013, caíram só 140 mm, batendo o recorde de menor precipitação anual de 1917 de 225 mm. A média anual em San Francisco é de 590 mm. A precipitação anual em San Francisco está sujeita a grandes oscilações de um ano para o outro, mas o que se observou em 2013 foi algo completamente fora de qualquer coisa jamais vista nos registros.


A cobertura de neve nas montanhas de Sierra Nevada é mínima nesta segunda metade de janeiro e inimaginável para um período que é o ápice do inverno climático na região. Dados do dia 20 indicaram apenas 16% da cobertura que normalmente se registra nesta época do ano. Imagens de satélite divulgadas pelo NOAA (Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera) dos Estados Unidos comparando as montanhas nesta época em 2013 e agora evidenciam como há pouca neve no solo. Esta imagem, aliás, foi utilizada pelo governador californiano Brown nesta sexta-feira em que anunciou a “emergência por seca”.


Engana-se quem pensa que a neve nas montanhas é apenas importante para o turismo local que movimenta milhões. Ela tem uma relevância muito maior para o abastecimento de água do estado. A maior parte da precipitação anual da Califórnia ocorre nos meses de inverno e um terço da água que é consumida no estado vem da neve caída nas montanhas. Por isso, os meses entre o outono e a primavera, quando neve, são críticos. E por essa razão também os especialistas na Califórnia consideram o chamado ano hídrico entre julho e junho para suas análises ao invés do ano-calendário (janeiro a dezembro). A baixa cobertura de neve é alarmante. O gráfico abaixo do equivalente líquido de neve em Sierra Nevada comparado aos últimos anos e o recorde de 1983 (ano de Super El Niño) revela que desde 1976/1977 não se testemunhava algo semelhante.


A maior ameaça para a população é o abastecimento de água, vital também para a agricultura, já que a Califórnia é um dos principais produtores de frutas e verduras do país. Os níveis dos reservatórios de água (abaixo) estão perigosamente baixos e caindo rapidamente, o que pode levar a racionamento e restrições severas de consumo muito em breve. A maior ameaça é para o Centro e o Norte da Califórnia. Se não chover durante os próximos dois meses, e não tem chovido o suficiente há 13 meses, o quadro deverá se deteriorar demais e se transformar numa crise de água.


Outro drama são os incêndios. O tempo seco tem proporcionado recordes de temperatura alta absolutos para janeiro de até um século e vem favorecendo incêndios. O mais grave deles ocorre neste momento na área de Los Angeles, no Sul do Estado. Se o restante do inverno não tiver chuva abundante e o verão de 2014 começar com o déficit de chuva atual ou piorado, especialistas locais alertam para uma temporada “catastrófica”de incêndios florestais ou de vegetação neste ano de 2014.  


O que está por trás desta seca épica ? Meteorologistas são unânimes em apontar que um persistente bloqueio meteorológico exercido por um centro de alta pressão no Pacífico e associado a uma anomalia de pressão na costa do Alasca (fez a temperatura do mar na costa do Alasca disparar e terá efeitos na Oscilação Decacal do Pacífico) é a razão para a falta de chuva. Há quem esteja chamando o bloqueio de ridiculamente (absurdamente) longo. Funciona como uma parede na atmosfera, desviando as tempestades e a chuva para o Oeste do Canadá. Geralmente estes bloqueios são comuns no inverno, entretanto são curtos e logo cedem. Este se arrasta por um tempo completamente fora do comum. Com isso, o ar gelado da Sibéria passa sobre o Alasca, não desce para o Oeste americano e avança direto para o Meio-Oeste e o Nordeste americano, onde têm sido registrados extremos de frio. Este padrão atmosférico que leva seca à Califórnia se arrasta por 13 meses, desde dezembro de 2012, e os meteorologistas ainda não tem convicção se está ou não associado às mudanças climáticas.


Estudos paleoclimatógicos de até 1100 anos publicados ainda na década de 90 mostraram que no passado houve secas até piores que as dos tempos modernos. Há dois exemplos sugeridos de chamadas megasecas, uma que teria durado 220 anos e outra 140 anos. Os mesmos trabalhos indicaram que um século chuvoso como foi o último na Califórnia seria a exceção e não a regra nos últimos 3500 anos de análises de proxies (como anéis de árvores). O que muito me chamou a atenção foi ver que este período atual de seca de 2013/2014 guarda grande semelhanças com o de 1976/1977. Logo me veio à mente a associação de que o inverno aqui no Sul do Brasil em 2013 foi muito gelado como também em 1976 (imagem abaixo).


Agora o que me deixou estupefato foi buscar a comparação dos mapas de precipitação de janeiro de 1976 e 1977 com o atual para o Brasil e encontrar o que encontrei. Notem a incrível, extraordinária, absurda coincidência de repetição de padrão da chuva em nosso país entre janeiro de 1976 e até a primeira metade de janeiro de 2014. Há quase uma repetição perfeita, virtualmente um replay, o que não é a regra em clima que apresenta semelhanças (análogos), mas não repetição absoluta.


O que isso significa ? Pode ser muito, pode ser quase nada. Difícil dizer vendo um mês isoladamente. Nitidamente está presente neste começo de 2014 o sinal do início de 1976, mas isso pode não perdurar. Prova disso é que se for analisado o mapa de chuva de dezembro de 1975 se verá que o Espírito Santo teve chuva muito abaixo da média e em 2013 o mês terminou com desastres pela chuva extrema. Não é algo matemático. O ano de 2014 será desafiador em termos de projeções climáticas de médio e longo prazo, já tendo começado extremado, mas buscar e enxergar estas repetições de padrões ou ciclos é interessante e ajuda a melhor compreender a dinâmica da caótica atmosfera. (Com produção de Alexandre Aguiar)

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