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Alguns bairros de Porto Alegre terão perto de 40°C na tarde de hoje | Fernando Oliveira/Arquivo

O Rio Grande do Sul enfrenta uma quarta-feira de muito calor e um dos dias de novembro mai quentes das últimas décadas no Estado. A tendência é de máximas na tarde de hoje entre 39ºC e 41ºC nos pontos mais quentes do território gaúcho. O site da MetSul conversou com a meteorologista Estael Sias da MetSul para esclarecer algumas das principais dúvidas que chegam pelas redes sociais.

MetSul.com: Estael, existe uma explicação para tanto calor?

Estael Sias: O Rio Grande do Sul está sob influência de uma massa de ar seco e quente, o que favorece a forte elevação da temperatura. Nesta quarta-feira, atua no Estado o que se denomina de uma corrente de jato, uma espécie de corredor de vento a cerca de 1.500 metros de altitude que se origina na Bolívia e vem até o território gaúcho, trazendo não apenas ar muito quente como vento do quadrante Norte que sopra moderado a forte nos vales e em áreas de encostas. Justamente nestas regiões se produz o que se chama de aquecimento adiabático à medida que, com o vento, o ar escoa pelas encostas do morros e se comprime, gerando um efeito de superaquecimento.

Meteorologista da MetSul e do SBT enfatiza que proximidade do verão já favorece dias de calor intenso | Divulgação SBT

MetSul.com: Tanto calor assim nesta época do ano é normal?

Estael Sias: Já estamos em novembro. Falta menos de uma semana para o que é chamado de verão climático, o trimestre de dezembro a fevereiro. O verão pelo critério astronômico tem início somente na segunda metade de dezembro, neste ano no dia 21 de dezembro, mas em climatologia o trimestre de dezembro a fevereiro é o de verão para os cálculos da média em critério usado mundialmente. Assim, dias de muito calor são muito normais nesta época do ano.

MetSul.com: Mas vocês meteorologistas têm dito que o calor de hoje pode ser um dos mais intensos em novembro já registrados neste século e nas últimas décadas. Como isso pode ser normal?

Estael Sias: É absolutamente normal à medida que dias quentes são comuns nesta época do ano. Ocorre que alguma vezes estes dias podem acabar sendo muito quentes e aí se dão estes extremos pontuais de calor. Se tivéssemos uma sequência de dias de calor de 40ºC por uma semana aí estaríamos diante de algo fora do comum, mas um dia ou outro de calor mais extremo nesta época não foge ao normal.

“Dias de muito calor em novembro são comuns”, diz Estael Sias | Fernando Oliveira

MetSul.com: Então não se pode relacionar com aquecimento global?

Estael Sias: Não, o que se denomina de atribuição em eventos extremos é um dos temas de maior complexidade em mudanças climáticas. Como separar influência humana de variabilidade natural do clima quando da análise de um evento extremo de chuva, frio, calor, vento, etc. Estava verificando dados antigos e tivemos máximas de 38ºC ou mais em novembro em anos como 1933 e 1955 em Porto Alegre. Desta forma, já tivemos dias piores de calor em novembro no passado.

MetSul.com: Muita gente comenta em nossas postagens nas redes sociais que tanto calor em novembro já seria um prenúncio de ainda mais calor no verão e uma estação quente de castigar. Isso procede?

“Calor extremo em novembro não é indicador de que o verão será extremamente quente. Pode acabar sendo muito quente, mas não em razão de um dia de muito intenso calor na primavera”

Estael Sias: Olha como são as coisas, calor extremo em novembro não é indicador de que o verão será extremamente quente. Pode acabar sendo muito quente, mas não em razão de um dia de muito intenso calor na primavera. Em alguns anos, as maiores temperaturas não se deram no verão e sim na primavera. Olha o recorde de Campo Bom. A maior máxima da cidade do Vale do Sinos de 41,9ºC desde que começaram os registros em 1984 foi em 16 de novembro de 1985, logo não teve nenhum dia no verão de 1985 que foi mais quente, apesar de dezembro de 1985 e janeiro e fevereiro de 1966 terem sido muito quentes.

MetSul.com: É ótimo que você toque neste ponto. Teremos um verão quente?

Estael Sias: É a tendência. Todos os modelos de clima indicam a perspectiva de que o verão de 2020/2021 seja de temperatura acima da média no Rio Grande do Sul com muitos dias de calor e alguns de calor excessivo.

MetSul.com: Então, teremos ondas de calor fortes no verão, certo?

Estael Sias: É quase uma certeza. O que não se pode dizer hoje, porque isso entra em previsão do tempo que é curto prazo, quantas ondas de calor teremos, suas durações e e a intensidade, mas que teremos ondas de calor com quatro ou cinco dias de temperatura altíssima é quase uma certeza, ainda mais com La Niña.

“La Niña favorece períodos secos e períodos secos no verão favorecem ondas de calor mais fortes”

MetSul.com: Mas La Niña traz mais frio como regra?

Estael Sias: Verdade, mas favorece também extremos de calor no verão. Por quê? Com o fenômeno La Niña cresce o risco de períodos secos mais longos durante o verão e são nestes períodos secos mais prolongados que ocorre o que se chama de cúpula de calor em que há forte movimento de subsidência na atmosfera com alta pressão em altitude que traz muitos dias seguidos de tempo seco e sol com o calor aumentando cada vez mais. E lembro que os recordes históricos de calor do Rio Grande do Sul, de 1917 e 1943, ambos se deram durante severas estiagens no Estado. Assim, La Niña favorece períodos secos e períodos secos no verão favorecem ondas de calor mais fortes.

MetSul.com: Agora este período de calor extremo está perto do fim, certo?

Estael Sias: Certo, hoje será o pico de intensidade deste evento de temperaturas altas, mas com a chegada da instabilidade as máximas declinam a partir desta quinta. Se por um lado escaparemos de dias de 40ºC, por outro o restante da próxima semana e o fim de semana serão muito abafados e é muito provável que as pessoas sintam mais desconforto pelo abafamento dos próximos dias que pelo calor de 40ºC muito seco de hoje.

 

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