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Moradores de Guaíba começaram a terça-feira ainda contabilizando os estragos da violenta tempestade que atingiu o município | Mauro Schaefer/Correio do Povo

A cidade de Guaíba, na Grande Porto Alegre, amanheceu nesta terça-feira ainda impactada pela violência do temporal da tarde de ontem e contabiliza os estragos do que foi um dos piores temporais da história do munícipio com danos graves em diversos bairros. Não houve vítimas, entretanto os prejuízos materiais são significativos com destelhamentos de casas, empresas e prédios públicos, muitos postes caídos e colapso de estruturas.

A Prefeitura de Guaíba decretou situação de emergência imediatamente após o temporal e antes mesmo de um levantamento completo dos estragos ante a gravidade do episódio de tempo severo que se abateu sobre a cidade. A prefeita em exercício Claudinha Jardim instituiu um comitê de crise para atender rapidamente a população que sofreu os impactos do que as autoridades municipais descreveram como uma “calamidade”, organizar o trânsito e a retirada de árvores caídas e para restabelecer rapidamente o serviço público que também foi impactado pelo temporal.


“Estamos trabalhando incansavelmente para atender toda a nossa comunidade que foi prejudicada pelo temporal. Articulamos rapidamente o comitê de crise e estabelecemos um plano de ação emergencial para reerguer a nossa cidade”, declarou a prefeita em exercício Claudinha Jardim.

O comitê de crise é composto por representantes do Gabinete do Prefeito, Defesa Civil de Guaíba, Secretaria de Assistência Social, Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos, Secretaria de Saúde, Secretaria de Educação, Secretaria de Licitações e Contratos, Secretaria de Governo, Procuradoria Geral de Município, Assessoria de Comunicação, Diretoria de Habitação, Diretoria de Governança Participativa e Ação Comunitária.


Os efeitos do temporal podem ser vistos em diversas partes da cidade com cenas de destruição. Muitas árvores caíram sobre o acostamento da BR-16, entre Eldorado do Sul e Guaíba, mas sem atingir a pista. Algumas árvores caíram sobre a fiação, derrubando os postes. Antes mesmo da entrada de Guaíba é possível avistar os sinais da destruição que atingiu a cidade com um galpão com o telhado totalmente revirado. No quilômetro 294 da BR-116, um caminhão tombou com a força do vento.

Na entrada do bairro Santa Rita, todos os postes de luz caíram, sendo que um deles desabou sobre a pista em diversos pedaços, quebrado, obstruindo parcialmente a via. Uma casa na Avenida Doutor Nei Brito teve um cômodo completamente destruído. “Foi questão de menos de 5 minutos”, lamentou a moradora, Natália Beatriz em depoimento ao jornal Correio do Povo. Ninguém se feriu. O bairro inteiro estava sem luz e o cenário era desolador.

Em outra rua, moradores faziam fila para pegar doação de lonas com a prefeitura. “Pegamos todos os eletrodomésticos e colocamos no único cômodo que não destelhou. Depois vamos ver o que funciona ainda”, contou Adriana Sábio, que esperava para ser atendida. Na fila, vizinhos e conhecidos se encontravam para perguntar se estavam todos bem. Pessoas aflitas falavam ao telefone, informando parentes que suas casas foram destruídas.

Na Avenida Osvaldo Jardim, Scheila Tavares Dias teve parte de sua casa destruída pelos fortes ventos. “Eu não estava em casa, foi minha vizinha quem me avisou. Fiquei preocupada com meus gatos e cachorro, mas encontrei eles todos bem”, disse aliviada. Apesar do estrago, Scheila conseguiu salvar a maior parte dos eletrodomésticos.

Próximo dali, na escola estadual de ensino fundamental Carmen Alice Laviaguerre, a maior de Guaíba, o cenário era de devastação. Telhas, madeira e vidro enchiam o pátio e os arredores do colégio que teve quase a totalidade do telhado destruída. “Eu me sinto mal de ficar triste, tanta gente perdeu a casa. Mas nós fazemos isso com tanto amor, é muito difícil ver tudo nesse estado. Estou desolada”, disse, chorando, a diretora da escola, Carla Salazar, para o jornal.

O que aconteceu em Guaíba

A tempestade que atingiu o município de Guaíba pode ser classificada como severa e foi um evento localizado de vento destrutivo associado a uma célula de tempestade gerada pela combinação de umidade e excessivo calor. A ferocidade do vento e a gravidade dos danos observados chocam o observador. A análise preliminar, com base nos dados disponíveis, não sugere, entretanto, que tenha sido um tornado a causa da destruição na cidade de Guaíba.

Tornado é um fenômeno que atravessa uma faixa limitada de terreno, deixando um rastro muito evidente de destruição numa espécie de linha (irregular) por onde passa. Os danos observados na cidade de Guaíba ocorreram numa zona muito ampla em que os danos estão dispersos por muitos pontos, o que não é consistente com um evento tornádico. Os vídeos mostram vento destrutivo na horizontal e por um período prolongado e não de poucos segundos, como ocorreria em um tornado.

As evidências neste momento indicam que correntes violentas de vento descendentes, o que se denomina de micro-explosão (não é uma explosão propriamente dita) ou downburst em inglês, tenham ocorrido sob a célula de tempestade que afetou a localidade da Grande Porto Alegre. Células de tempestade muito intensas podem produzir múltiplos microbursts e às vezes podem ocorrer um tornado envolto em chuva acompanhando, apesar de por ora e numa análise muito preliminar não existirem evidências de que tenha havido um tornado.

Este tipo de fenômeno, downburst ou micro-explosão, é capaz de produzir vento tão forte quanto acima de 150 km/h, mas agora não há dados ainda suficientes de danos para estimar a velocidade do vento ocorrido na cidade de Guaíba que não possui estação meteorológica. O que é uma certeza é que o vento passou facilmente de 100 km/h.

Tratou-se de evento isolado e estações próximas não registraram vento muito forte nem logo a Leste nem tampouco ao Norte e ao Sul da cidade. Em Eldorado do Sul, por exemplo, estação meteorológica registrou 40 km/h. Em Barra do Ribeiro, as duas estações da cidade indicaram 22 km/h e 31 km/h, respectivamente. Em Porto Alegre, as rajadas chegaram 63 km/h no Salgado Filho. No Jardim Botânico, também na Capital, 60 km/h. Em Canoas, na base aérea, 50 km/h.

O temporal severo isolado de Guaíba era um risco que se antecipava desde a semana passada. Desde a semana passada a MetSul vem alertando que o aumento da umidade em meio a uma massa de ar extremamente quente que provoca a onda de calor histórica traria episódios isolados de tempo severo com risco de vento destrutivo por downburst (micro-explosão e/ou tornados). Os alertas enfatizaram sempre que o Leste do Rio Grande do Sul estava entre as áreas de maior risco, mas que pelo caráter excepcionalmente isolado – às vezes na escala de poucos bairros – não é possível prever horas ou dias antes quais pontos exatos serão atingidos.

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