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Um violento terremoto de magnitude 7,8 causou dezenas de mortes e destruição no Sul das Filipinas na segunda-feira (8). Centenas de pessoas ficaram feridas e milhares seguem fora de casa. As áreas mais atingidas estão na província de Sarangani, onde equipes de resgate ainda enfrentam dificuldades devido aos frequentes tremores secundários e aos danos na infraestrutura.

Foto mostra terremoto nas Filipinas

Terremoto causou grande destruição na segunda-feira na cidade filipina de General Santos | DANIEL CENG/ANADOLU/AFP/METSUL

Hospitais da região precisaram improvisar atendimentos ao ar livre por causa do risco de colapso das estruturas. Em um dos casos mais marcantes, médicos auxiliaram uma mulher a dar à luz em uma tenda montada sob forte calor. Em outras unidades, dezenas de pacientes foram transferidos para leitos externos por receio de novos desabamentos.

Os relatos dos moradores descrevem momentos de pânico durante o terremoto. Muitas casas e prédios sofreram danos severos, com rachaduras, deslizamentos de terra e até fenômenos de liquefação do solo. Diversas famílias afirmam que terão de abandonar definitivamente suas residências e reconstruir suas vidas do zero.

As operações de busca continuam em edifícios destruídos e áreas atingidas por deslizamentos. Equipes com cães farejadores trabalham na procura por desaparecidos, enquanto embarcações da Guarda Costeira buscam pessoas levadas pelo mar durante o tremor. Alertas de tsunami chegaram a ser emitidos nas Filipinas e em países vizinhos, mas foram cancelados poucas horas depois quando o risco diminuiu.

Mais cedo neste ano, outro violento terremoto de magnitude 7,7 pela escala da Agência Meteorológica do Japão atingiu em 20 de abril a costa de Sanriku, no Nordeste da ilha de Honshu, junto à Fossa do Japão, uma das áreas sismicamente mais ativas do planeta. O tremor, que teve magnitude entre 7,4 e 7,5 pela escala de momento sísmico, foi sentido desde Hokkaido até a região central do país.

Dez pessoas ficaram feridas e mais de 230 edifícios sofreram danos apenas em Aomori. Também houve interrupções no fornecimento de energia, suspensão de linhas do trem-bala, cancelamento de serviços de ferry e evacuação de cerca de 176 mil pessoas.

Há relação dos terremotos com o El Niño?

Dois grandes terremotos na fase inicial do El Niño e no Oceano Pacífico, onde se dá o fenômeno de aquecimento das águas que impacta o clima, levanta a questão se existe uma relação entre a atividade sísmica, que ocorre a dezenas de quilômetros abaixo da superfície terrestre, e o aquecimento das águas que ocorre na superfície da Terra.

Trata-se de um tema extremamente controverso na ciência. Ainda na década de 80, Daniel A. Walker, do Hawaii Institute of Geophysics na Universidade do Havaí, publicou um estudo relacionando a ocorrência de terremotos na Cadeia Leste do Pacífico (East Pacific Rise ou EPR), que vai do Golfo da Califórnia até a Ilha de Páscoa e adiante, a episódios de El Niño (aquecimento das águas do Oceano Pacífico na região equatorial).

Ao longo de 285 meses de dados, até setembro de 1987, Walker encontrou uma incrível coincidência entre a energia de terremotos na região e a recorrência de episódios Niño na EPR.

Em congresso de Geologia, em Londres, pesquisadores se concentraram na microplaca da Ilha da Páscoa (Chile) porque é relativamente isolada de outras falhas, o que torna mais fácil distinguir mudanças causadas pelo clima. Desde 1973, a chegada periódica do El Niño foi acompanhada de uma frequência maior de tremores no fundo do mar com magnitude entre 4 e 6 graus.

Os cientistas que defendem a tese de correlação entre El Niño e sismicidade sustentam que o fenômeno aumentaria o nível do mar, gerando um peso maior e aumentando a pressão de fluídos nas rochas do leito do Oceano Pacífico.

O tema é muito controvertido na literatura especializada em Geologia. El Niño seria causa ou consequência de atividade sísmica? Ou seria uma alteração importante e súbita do perfil de temperatura do Pacífico, seja na transição para El Niño ou La Niña, que levaria a uma maior atividade sísmica? Ou não teria qualquer correlação?

Críticos do trabalho de Walker observam que todos os episódios de El Niño desde 1960 (possivelmente com a exceção do evento de 1982/1982) foram precedidos por uma mudança no nível do mar (menor no Pacífico Leste e maior no Oeste).

Dizem ainda que variações do nível do oceano na ordem que se observa (associadas à transferência de massas de água) resultariam em alteração de pressão insignificante e que seria insuficiente para alterar a frequência de terremotos (sismicidade).

Contestam também que uma vez estar provado o papel do vento para desencadear o fenômeno oceânico-atmosférico El Niño, a teoria de que aquecimento em decorrência de atividade vulcânica no leito do oceano seria descartável.

Mas isso não é consenso. Em estudo intitulado “Magmatic Heat and the El Niño Cycle”, publicado em junho de 2011, os pesquisadores Herbert R. Shaw e James G. Moore, do USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos) descreveram grandes fluxos de lava submarinos que, segundo eles, poderia produzir anomalias termais capazes de perturbar o processo cíclico do oceano, podendo ser um fator de gênese do El Niño.

De acordo com os pesquisadores, grandes eventos de magma associados à flutuação de sismicidade ao longo da Cadeia Leste do Pacífico são possíveis em intervalos mais longos e poderiam explicar episódios de grande magnitude do El Niño, como o de 1982-1983.

Em outro trabalho (“Plate Tectonics and the El Niño Cycle”), publicado em abril de 2003, Maria Gausmam analisa a frequência de terremotos, erupções vulcânicas, tsunamis e a correlação com a SOI (Índice de Oscilação do Sul), variável usada para monitorar o ciclo ENSO no Pacífico Equatorial.

“A correlação das várias atividades tectônicas com a SOI não mostrou nenhuma correlação entre os eventos”. Em gráfico no estudo, entretanto, a cientista destaca um maior número de terremotos em momentos imediatamente precedentes e posteriores aos episódios de El Niño, como agora.

Círculo de Fogo do Pacífico, a região mais sísmica do mundo

Não é raro que fortes terremotos ocorram nos países do Círculo de Fogo do Pacífico, como o que se registrou no começo desta semana na Indonésia, com centenas de mortos e feridos. O país foi o epicentro do sismo de 2004 que gerou o tsunami que provocou mais de 200 mil mortes.

O Círculo de Fogo do Pacífico é formado pelo encontro de várias placas tectônicas, tornando a região uma zona com alta frequência de terremotos e tsunamis. Esta área é responsável por cerca de 90% dos abalos sísmicos e de 50% dos vulcões existentes em todo o planeta.

O chamado círculo percorre toda a extensão da costa do Oceano Pacífico. Começa com uma ramificação no Oceano Índico e segue pela Indonésia, Sumatra e Malásia até a Placa das Filipinas. Então, o anel abrange toda a Placa do Pacífico, a Placa Juan de Fuca (localizada em frente à costa do Canadá e dos estados americanos de Washington e Oregon), a Placa de Cocos (localizado no Pacífico em frente à América Central) e a Placa de Nazca (junto à América do Sul).