Desastres climáticos atingiram 6,9 milhões de brasileiros, provocaram 25 mortes e obrigaram 87,7 mil pessoas a deixar suas casas entre julho e setembro de 2026. No período, 1.035 municípios decretaram situação de emergência ou estado de calamidade pública, e os prejuízos econômicos chegaram a R$ 12,6 bilhões, em um cenário de preocupação com o fortalecimento do El Niño e a possibilidade de novos eventos extremos nos próximos meses.

Foto de enchente pelo El Niño em São Paulo

Enchente atingiu o município de Eldorado, Vale do Ribeira, em São Paulo, em setembro | FREDERICO VIEGAS/ISA/ARQUIVO

Os dados são da segunda edição do Boletim El Niño 2026/2027, elaborado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM). O levantamento dimensiona os impactos de fenômenos meteorológicos e climáticos sobre as cidades brasileiras e alerta para as dificuldades enfrentadas pelas administrações municipais na prevenção e na resposta aos desastres.

Dos prejuízos contabilizados, R$ 3,6 bilhões correspondem a danos ao setor público. O abastecimento de água potável concentrou R$ 1,8 bilhão em perdas, enquanto os danos à infraestrutura pública somaram R$ 557,8 milhões. As perdas relacionadas à assistência médica, à saúde pública e ao atendimento de emergências alcançaram R$ 562,8 milhões.

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A distribuição dos impactos pelo território nacional revela a diversidade de ameaças enfrentadas pelas cidades. No Norte, a redução dos níveis dos rios e as condições de seca preocupam comunidades que dependem dos cursos d’água para transporte, abastecimento e atividades econômicas. No Nordeste, a estiagem agrava a vulnerabilidade hídrica, enquanto o Centro-Oeste enfrentou incêndios florestais.

No Sudeste, vendavais, granizo, deslizamentos e inundações provocaram danos. No Sul, episódios de chuva intensa e tornados ampliaram os riscos, com impactos sobre residências, infraestrutura e atividades produtivas. A variedade de ocorrências demonstra a necessidade de estratégias de prevenção adaptadas às características e aos riscos de cada região.

El Niño aumenta preocupação para os próximos meses

A perspectiva para o restante da primavera preocupa diante do fortalecimento do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial. A MetSul Meteorologia vem alertando para os riscos associados ao fenômeno, que pode contribuir para extremos opostos no Brasil, com agravamento da estiagem em áreas do Norte e do Nordeste e aumento do risco de chuva volumosa no Sul.

No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, episódios de precipitação intensa podem elevar os riscos de inundações, enxurradas e deslizamentos. A resposta atmosférica ao El Niño, entretanto, depende também da interação com outros padrões climáticos, de modo que a intensidade do fenômeno não determina, isoladamente, a dimensão dos impactos em cada localidade.

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Municípios enfrentam falta de recursos para prevenção de desastres

Além dos impactos humanos e econômicos, a capacidade de resposta das prefeituras permanece como um dos principais desafios. Entre 2010 e setembro de 2026, apenas R$ 27 bilhões dos R$ 99,8 bilhões autorizados pelo Congresso Nacional para a gestão de riscos e desastres foram efetivamente repassados aos municípios, o equivalente a 27,05% do total.

O presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, alerta que a insuficiência de recursos federais compromete a prevenção e amplia a vulnerabilidade das populações. Como as despesas com prevenção e resposta a desastres não são obrigatórias, a execução orçamentária historicamente fica aquém das necessidades locais.

A entidade recomenda que as prefeituras atualizem planos de contingência, identifiquem áreas de risco, organizem abrigos e rotas de evacuação e fortaleçam os sistemas de comunicação com moradores.