O El Niño que se fortalece rapidamente no Oceano Pacífico deixou de ser apenas uma questão para meteorologistas e passou a integrar o radar de agricultores, cooperativas, governos, bancos centrais, empresas e mercados financeiros. A possibilidade de um episódio de intensidade excepcional entre a primavera e o começo do verão coloca em discussão não apenas a ocorrência de chuva excessiva, seca e calor, mas também os efeitos sobre a produção de alimentos, a inflação, a logística e o crescimento econômico mundial.

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O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial Central e Leste ficam anormalmente quentes. Esse aquecimento altera os ventos, a convecção e a circulação atmosférica, produzindo mudanças que se propagam muito além do Pacífico. O resultado são alterações nas probabilidades de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta.
Um El Niño forte, entretanto, não significa que todos os lugares terão necessariamente o mesmo tipo de condição meteorológica. O fenômeno não determina individualmente cada tempestade, onda de calor ou período de estiagem. Ele modifica a circulação atmosférica e inclina as probabilidades para determinados padrões, que ainda dependem de outros fatores oceânicos e atmosféricos.
No Brasil, o Sul é uma das regiões que mais chama atenção. Episódios de El Niño costumam favorecer maior frequência de chuva e períodos de precipitação persistente no Sul do país, especialmente no Rio Grande do Sul. Dependendo da configuração atmosférica, os acumulados podem ser muito elevados e provocar enchentes, alagamentos, deslizamentos e problemas na infraestrutura.
A possibilidade preocupa particularmente o setor agropecuário. Depois de sucessivos episódios de extremos meteorológicos, produtores e cooperativas já trabalham com a perspectiva de maior variabilidade climática. O desafio não é simplesmente saber se haverá mais chuva, mas antecipar a distribuição dessa chuva, sua intensidade e os intervalos entre os episódios.
Uma sequência de precipitações pode impedir a entrada de máquinas no campo, atrasar a semeadura, aumentar a ocorrência de doenças, provocar erosão e dificultar a colheita. Chuvas torrenciais também podem causar perdas diretas de lavouras e danificar estradas rurais utilizadas para retirar a produção das propriedades.
É justamente por isso que cooperativas agrícolas passaram a intensificar a orientação aos associados. O planejamento inclui diversificação, escolha adequada de períodos de plantio e colheita, manejo do solo e da água e acompanhamento contínuo das informações meteorológicas.
“Desde o começo do ano temos desenvolvido um trabalho intenso de orientação e de informação constante aos parceiros da MetSul Meteorologia no agronegócio sobre a evolução do El Niño e seus possíveis impactos”, destaca a meteorologista Estael Sias. “É um esforço que é feito em palestras, reuniões, seminários e nos contatos diários com os nossos clientes”, comenta.
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A preparação ganha importância porque o efeito do El Niño sobre a agricultura não é uniforme. Enquanto algumas regiões podem receber chuva acima da média, outras podem enfrentar períodos mais secos. Em áreas produtoras, portanto, o mesmo fenômeno pode representar excesso de água em determinado momento e deficiência hídrica em outro.
O impacto também pode aparecer na produtividade. Calor excessivo combinado com irregularidade das chuvas aumenta o estresse sobre as plantas. Em culturas sensíveis, a ocorrência de temperaturas elevadas em fases críticas do desenvolvimento pode provocar perdas mesmo quando o volume total de chuva da temporada não é excepcional.
“Muito se fala sobre chuva, seca e enchentes, mas uma variável que temos trabalhado nos contatos com os clientes em todo o Brasil envolve também a temperatura e como os picos de calor esperados com o fenômeno podem afetar a produção”, observa Estael Sias.
O problema ultrapassa as fronteiras brasileiras. O El Niño altera o regime de precipitação em importantes áreas agrícolas do planeta e pode afetar simultaneamente diferentes cadeias de produção.
Café, cacau, trigo, arroz e açúcar estão entre os produtos que merecem atenção. Na África Ocidental, condições mais secas podem prejudicar a produção de cacau. No Brasil, o café pode sofrer com uma combinação desfavorável de calor e chuva irregular. Na Austrália, o trigo fica exposto a alterações no regime de precipitação, enquanto a agricultura indiana depende fortemente do comportamento das monções.
Uma redução importante das chuvas na Índia pode atingir a produção de arroz e outros alimentos e pressionar os preços internacionais. Em outras regiões, o problema pode ser exatamente o oposto, com precipitações excessivas provocando enchentes, doenças agrícolas e perdas de produtividade.
Banco Central incorpora risco do El Niño
O Banco Central do Brasil já incorporou um cenário de El Niño forte em suas projeções. O Relatório de Política Monetária traz dados do fenômeno. O próprio Banco Central estima que o efeito do clima sobre a inflação dos alimentos seja inicialmente de alta e posteriormente baixista, à medida que as condições climáticas retornem ao normal.
A presença do fenômeno no cenário do Banco Central mostra como uma variável meteorológica pode interferir diretamente na política monetária. Se uma quebra de safra reduzir a oferta de determinados alimentos, os preços podem subir. Caso o movimento seja disseminado ou persistente, pode aumentar a pressão sobre a inflação e dificultar a convergência do índice para a meta.
A ata do Copom também trata os choques de oferta como fatores de incerteza. O Comitê reconhece que fenômenos climáticos podem afetar preços de alimentos e outras variáveis econômicas, embora choques temporários de oferta não sejam tratados da mesma forma que uma pressão inflacionária persistente.
Isso não significa que o Banco Central vá elevar juros automaticamente diante de qualquer evento climático. O risco está justamente na possibilidade de o clima provocar aumentos suficientemente fortes e disseminados para alterar expectativas e a trajetória dos preços.
O impacto econômico do El Niño pode ser ainda maior quando ocorre simultaneamente a outros choques. O sistema mundial de alimentos depende de fertilizantes, energia, transporte marítimo e cadeias logísticas altamente integradas. Uma redução da produção em grandes áreas agrícolas pode se transformar rapidamente em aumento das importações, maior custo de transporte e pressão sobre os preços.
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Impactos do El Niño podem durar anos na economia
Pesquisa publicada na revista Science por Christopher Callahan e Justin Mankin mostrou que grandes episódios de El Niño podem produzir efeitos negativos sobre o crescimento econômico não apenas no ano do fenômeno, mas também nos anos seguintes. Uma das explicações está na redução dos investimentos provocada pelas perdas iniciais.
Uma lavoura destruída reduz a renda do produtor. Uma enchente danifica uma estrada. Uma empresa interrompe a produção. Um governo precisa deslocar recursos para reconstrução. Uma família passa a gastar mais com alimentos. Somados, esses efeitos podem reduzir a capacidade de investimento e deixar marcas econômicas que persistem mesmo depois da normalização do clima.
Uma análise recente do Peterson Institute for International Economics, baseada no trabalho de Callahan e Mankin e em um cenário de El Niño semelhante ao de 1997-98, estimou perdas econômicas globais de aproximadamente US$ 986 bilhões no primeiro ano. A mesma análise calculou uma perda acumulada potencial de cerca de US$ 17,6 trilhões em seis anos, com ampla margem de incerteza.
Os números não representam uma previsão de perda econômica que necessariamente ocorrerá. São estimativas baseadas em relações históricas entre intensidade do El Niño, temperatura, precipitação e crescimento econômico. O estudo chama atenção, sobretudo, para o fato de que os prejuízos podem persistir além do período em que o fenômeno está ativo.
A distribuição dos prejuízos também tende a ser desigual. Países tropicais e economias de baixa e média renda apresentam, em muitos casos, maior exposição às teleconexões do El Niño e maior dependência da agricultura. Para essas nações, uma quebra de safra pode significar simultaneamente queda de renda, aumento das importações de alimentos e necessidade de gastos públicos emergenciais.
Em países mais pobres, existe ainda menor capacidade fiscal para reconstruir infraestrutura ou compensar agricultores. O resultado pode ser uma recuperação mais lenta e uma deterioração das condições sociais.
Aquecimento global agrava o cenário
O El Niño é um fenômeno natural do sistema climático e não deve ser confundido com uma consequência direta da mudança climática causada pelo homem. O que mudou é o ambiente no qual o fenômeno ocorre. O planeta está mais quente, e os oceanos também apresentam temperaturas mais elevadas.
Uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais vapor d’água. Isso não significa chuva automaticamente mais intensa em todos os lugares, mas aumenta o potencial de precipitação quando existem mecanismos atmosféricos capazes de promover forte ascensão e condensação do vapor.
Da mesma forma, temperaturas elevadas podem agravar os efeitos de períodos secos. Uma região submetida a precipitação abaixo da média pode sofrer mais rapidamente com déficit hídrico quando a evaporação e a demanda atmosférica por água são maiores.