O El Niño de 2026-2027 se encaminha para reescrever a história climática mundial com um crescente coro de especialistas e pesquisadores advertindo que o episódio atual não apenas deve ser o mais intenso dos registros modernos iniciados em 1850 como pode se transformar no El Niño mais intenso em séculos.

El Niño se encaminha para ser o mais intenso já visto nos tempos modernos | ESA
Eric Webb é meteorologista e pesquisador norte-americano expert em Meteorologia e variabilidade climática, com particular interesse nos fenômenos associados ao El Niño–Oscilação Sul (ENSO). Graduado na North Carolina State University (NC State), Webb se converteu em uma das principais vozes da comunidade científica sobre o El Niño e nos últimos elevou dramaticamente o tom sobre a intensidade do fenômeno deste ano, com advertências sobre um evento absolutamente extraordinário.
“Estou muito confiante de que o El Niño deste ano será o mais forte de toda a série histórica instrumental, de 1850 até o presente, superando inclusive eventos históricos como o de 1877-1878. Este poderá ser o El Niño mais intenso em pelo menos 250 anos, ou desde o Grande El Niño de 1789-1793”, afirma Webb.
A comunidade meteorológica mundial está cada vez mais convicta de que o episódio de El Niño deste ano reescreverá a história climática mundial moderna, superandos os mais intensos eventos do fenômeno dos últimos 150 anos, como 1877-1878, 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.
O pesquisador Diego Restrepo, da Universidade de Roterdã, afirma que se trata de um evento histórico, muito mais intenso do que outros episódios de variabilidade climática registrados ao longo do último século.
O coro crescente em torno de um episódio excepcional se justifica pelos dados que já indicam El Niño histórico, superando meses antes os picos de outros eventos de grande magnitude, e com tendência ainda de intensificar por três a quatro meses até alcançar o seu máximo de intensidade no final deste ano.
O El Niño de 2026-2027 continua ganhando força em ritmo excepcional e as projeções mais recentes atualizadas agora em agosto aumentaram ainda mais a intensidade máxima esperada do fenômeno. Dados do oceano e da atmosfera indicam que o aquecimento no Pacífico tropical está sendo alimentado por uma combinação incomum de águas muito quentes abaixo da superfície e fortes anomalias de vento de Oeste. O cenário coloca o episódio cada vez mais próximo de níveis considerados inéditos.
Um dos principais motores desse processo é uma sucessão de ondas de Kelvin oceânicas. O mecanismo transporta grandes volumes de água quente das camadas profundas do Pacífico Ocidental em direção ao centro e ao Leste do oceano, onde o calor passa a alcançar a superfície. A análise mais recente indica anomalias superiores a 10°C acima da média abaixo da superfície, formando o que pode ser considerado o “motor” do Super El Niño.

Temperatura do mar chega a estar 10ºC acima do normal em profundidade no Pacífico | METSUL
Eric Webb afirma que nunca havia visto a piscina de águas quentes do Pacífico deslocada tão para Leste. Segundo ele, a presença de águas com temperaturas de 30°C chegando a 100 metros de profundidade na longitude de 150°W é algo extraordinário. Webb avalia ainda que o atual El Niño é tão intenso que coloca o chamado “El Niño do século”, de 1997-1998, em segundo plano.
Ao mesmo tempo, ventos de Oeste sobre o Pacífico Equatorial apresentaram intensidade excepcional. Junho e julho de 2026 registraram, em uma ampla área do Pacífico equatorial central e ocidental, anomalias de vento de Oeste entre as maiores já observadas na série histórica. O comportamento favorece o deslocamento de mais água quente para Leste e ajuda a sustentar o processo de intensificação continuada do El Niño.
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Modelos de clima seguem aumentando projeções de evento excepcional
A quase totalidade de modelos de clima que fazem projeções para meses à frente sobre as condições do Pacífico possuem apenas uma atualização mensal, a maioria durante a primeira semana de cada mês.
Por meses seguidos, a cada atualização mensal, os modelos de clima têm indicado um pico mais elevado para o fenômeno. A mediana dos dados hoje aponta que o atual El Niño pode atingir no pico de intensidade no final deste ano valores próximos ou acima de +4°C de anomalia na principal região de monitoramento do El Niño (Niño +3.4), com base no tradicional índice de monitoramento ONI (Oceanic Niño Index).

Modelos a cada atualização mensal intensificam o El Niño | ZEKE HAUSFATHER/METSUL
Caso se confirme, será valor muito acima do patamar de +2°C utilizado para caracterizar informalmente um Super El Niño, o que pelo índice ONI já foi atingido ainda em julho, e não apenas superaria por larga margem os picos de todos os eventos do fenômeno no século 20 como colocaria o episódio atual em território excepcional e jamais observado em 170 anos de observações.
A intensidade também chama atenção porque o aquecimento de 2026 vem ocorrendo em uma velocidade extraordinária. O evento atual já supera o ritmo de desenvolvimento observado durante o Super El Niño, em 2015-2016, e se aproxima rapidamente do pico daquele episódio. A evolução acelerada é um dos aspectos que mais impressionam os meteorologistas e climatologistas que acompanham o fenômeno.

Modelo de clima europeu projeta El Niño extraordinário | ECMWF/METSUL
Os efeitos não devem ficar restritos ao oceano. A atmosfera já apresenta sinais de resposta ao forte aquecimento do Pacífico tropical. A alteração da circulação de Walker, com áreas de movimento ascendente sobre o Pacífico central e oriental e subsidência em outras regiões tropicais, indica que o El Niño começa a impor uma assinatura mais ampla sobre a circulação atmosférica.
Outro indicador importante é o Índice Multivariado de El Niño, o MEI, que combina informações oceânicas e atmosféricas. O período junho-julho de 2026 alcançou +2,4, um valor excepcionalmente alto para essa época e o maior registrado para esse bimestre desde o início da série da NOAA, em 1979. O índice havia saído de uma condição negativa no início do ano para níveis muito elevados em apenas alguns meses.
Super El Niño já é realidade há um mês
Na última semana, a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera, a NOAA, agência de clima do governo dos Estados Unidos, publicou que existe 95% de probabilidade de um El Niño muito forte (anomalias acima de 2ºC no Pacífico Equatorial Centro-Leste), mas a realidade é que o Pacífico já está em Super El Niño há mais de um mês. Então, por que a NOAA ainda não considera Super El Niño.
A explicação está em critério de monitoramento e o tradicional conservadorismo em suas projeções. Dois meses antes de anunciar o começo do episódio, em 11 de junho, a agência ainda calculava percentuais de probabilidade do fenômeno na casa de 80%, quando já era quase consenso desde março e abril na comunidade meteorológica que o El Niño era uma certeza.
Durante muitos anos, a NOAA usou como critério de monitoramento o chamado ONI (Oceanic Niño Index), que mede a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 em relação à média climatológica, mas neste ano passou a usar o RONI (Relative Oceanic Niño Index), que faz um ajuste para descontar o aquecimento global nos oceanos. Isso determina que o RONI tenha anomalias menores que as ONI, índice usado por décadas e que é utilizado ainda maciçamente por meteorologistas no mundo todo.

Pacífico Equatorial Centro-Leste jamais esteve tão quente | METSUL
De acordo com o mais recente informe semanal da NOAA, a anomalia pelo índice ONI na chamada região Niño 3.4, está em +2,6ºC (muito forte ou Super El Niño). Já pelo índice RONI, a anomalia está em +1,8ºC (forte).
Uma vez que o índice tradicional ONI já chega neste momento a +2,6ºC, o valor supera os picos dos principais eventos de El Niño das últimas décadas e se aproxima do recorde histórico, só 0,4ºC abaixo do máximo observado.
O cientista Zeke Hausfather, da Carbon Brief e da Berkeley Earth, afirma que a elevação da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 nas últimas semanas foi nada menos que “extraordinária”. Segundo ele, as temperaturas já superam valores históricos, embora o episódio atual ainda esteja a vários meses de seu pico.
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Levantamento da MetSul com base em dados semanais da NOAA e calculados pelo método ONI mostra que o maior valor de anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 entre os episódios de Super El Niño foi registrado no evento de Super El Niño 2015-2016, quando a anomalia semanal alcançou 3,0°C na semana de 18 de novembro de 2015, seguido por 2,6°C no Super El Niño de 1982-1983, na semana de 29 de dezembro de 1982.
Com dados do ONI, nunca nos tempos modernos o Pacífico atingiu o patamar de Super El Niño tão precocemente como em 2026. O primeiro dado semanal com anomalia de +2ºC foi na semana de 8 de julho. No Super El Niño de 1982-1983, a anomalia só alcançou +2ºC na semana de 24 de novembro. No Super El Niño de 1997-1998, a primeira semana com intensidade muito forte apenas ocorreu em 3 de setembro. E no grande evento de 2015-2015, o patamar de Super El Niño foi atingido pela primeira vez somente na semana de 16 de setembro.
O meteorologista Jeff Berardelli, que foi meteorologista-chefe da CBS News, afirma estar perplexo com as temperaturas oceânicas atuais. Berardelli destaca que ainda há meses de aquecimento pela frente e que o episódio já atingiu, com meses de antecedência uma intensidade que não havia sido observada em nenhum outro episódio registrado. Para o meteorologista, este episódio está em um patamar completamente fora do comum.
Mega El Niño e evento de 1789-1793
Na literatura científica, “Mega El Niño” descreve episódios excepcionalmente intensos, persistentes e abrangentes, normalmente em eventos de séculos até milhões de anos atrás, sendo raro o uso do termo na literatura técnica em eventos na era instrumental (1850-2026).
Na era instrumental, eventos com anomalias próximas ou superiores a 2°C no Niño 3.4 são frequentemente catalogados como El Niño extremo ou Super El Niño. Nos últimos dias, no entanto, alguns meteorologistas começaram a fazer no exterior o uso do termo “Mega El Niño”.
Um dos episódios dmais extremos identificados nos registros históricos ocorreu entre 1789 e 1793 e produziu consequências muito além do Oceano Pacífico. Conhecido como o Grande El Niño de 1789-93, o fenômeno alterou padrões de chuva e temperatura em diferentes continentes, provocando secas severas, inundações, perdas agrícolas, epidemias e crises de abastecimento.
O episódio foi estudado pelo historiador climático Richard Grove como um exemplo da capacidade de um evento excepcional de desencadear impactos simultâneos em escala global. Grove argumenta que o fenômeno foi um verdadeiro “Mega El Niño”, comparável aos eventos extremos conhecidos do passado distante e estudos pela paleoclimatologia.
Um dos impactos mais dramáticos ocorreu na Índia, onde sucessivos fracassos das monções provocaram perdas agrícolas e fome. A deficiência de chuva foi particularmente severa entre 1789 e 1792, atingindo regiões extensas do subcontinente. No Egito, a alteração do regime climático teve reflexos sobre o rio Nilo. Três anos consecutivos de cheias excepcionalmente baixas comprometeram a produção agrícola e contribuíram para uma grave crise alimentar. No México, sucessivas secas prejudicaram as plantações de milho. Já no Peru, o comportamento foi praticamente oposto: a costa registrou condições excepcionalmente quentes e úmidas associadas ao El Niño, com chuvas e inundações em áreas normalmente áridas.
Os efeitos também chegaram à América do Norte e à Europa. Na Filadélfia, as condições ambientais do período foram associadas a um cenário favorável à propagação da febre amarela. A epidemia de 1793 matou mais de 5 mil pessoas. Na Europa, a França enfrentou uma combinação de extremos climáticos, incluindo secas, tempestades de granizo e um inverno rigoroso. A destruição de plantações e a escassez de alimentos contribuíram para uma forte elevação dos preços e agravaram a situação da população mais pobre.
O período ganhou importância histórica porque ocorreu poucos anos antes da Revolução Francesa. A deterioração das condições agrícolas e o aumento do preço do pão não explicam sozinhos a revolução, que teve causas políticas, econômicas e sociais profundas. O clima, no entanto, pode ter funcionado como um importante fator de agravamento da crise. A combinação entre dificuldades econômicas e escassez de alimentos aumentou a pressão sobre uma sociedade já profundamente instável.