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Quem acompanha os dados do modelo de clima da agência de clima dos Estados Unidos (NOAA) se espanta com a projeções do El Niño para o segundo semestre deste ano, afinal o chamado modelo CFS (Climate Forecasting System) indica que o fenômeno pode ter uma intensidade jamais vista nos tempos modernos com anomalias de temperatura da superfície do mar absurdamente altas.

O CFS da NOAA foi criado para melhorar as previsões climáticas de médio e longo prazo dos Estados Unidos e sua primeira versão operacional entrou em funcionamento em 2004, representando um avanço na época ao integrar em um único sistema as condições da atmosfera, dos oceanos, da superfície terrestre e do gelo marinho.

Em 2011, a NOAA lançou uma versão mais moderna, o CFSv2, que trouxe melhorias na resolução e na qualidade das previsões sazonais. Durante mais de uma década, o CFSv2 tem sido uma das principais ferramentas utilizadas para monitorar e prever fenômenos climáticos globais, como El Niño e La Niña, embora com falhas.

Ocorre que a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA) já trabalha com um novo modelo de clima mais moderno e que deve substituir o CFS. O novo “Sistema de Previsão Sazonal” (SFS) da NOAA representa uma grande atualização na forma como são feitas as previsões climáticas de longo prazo.

Ele foi criado para substituir o modelo antigo que já estava em uso há mais de dez anos e apresentava várias limitações. Em maio de 2026, a NOAA começou a disponibilizar os dados do novo sistema em tempo quase real para que meteorologistas e pesquisadores possam acompanhar seu desempenho antes de sua adoção definitiva.

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Uma das principais vantagens do SFS é a busca por previsões mais confiáveis. O modelo CFS frequentemente apresentava erros ao indicar fenômenos como El Niño e La Niña, além de ter dificuldades para representar corretamente temperaturas, condições do oceano e padrões atmosféricos importantes, muitas vezes exagerando na intensidade.

O novo sistema utiliza tecnologias mais modernas para reduzir esses problemas e melhorar a capacidade de prever eventos climáticos extremos, como ondas de calor, ondas de frio, secas e riscos de incêndios florestais.

O SFS reúne informações da atmosfera, dos oceanos, do gelo marinho e da superfície terrestre em um único sistema integrado, permitindo uma visão mais completa do funcionamento do clima. Além disso, foi desenvolvido em um ambiente aberto e colaborativo, permitindo que pesquisadores de diferentes instituições contribuam para seu aperfeiçoamento.

A discrepância quanto às projeções do El Niño entre os dois modelos de clima da NOAA, o antigo em operação desde 2004 e o novo em versão beta, é espantosa. O antigo CFS prevê um El Niño extremo e sem precedentes enquanto o novo modelo indica evento de El Niño menos intenso, mas ainda assim forte muito forte.

Para comparar é preciso levar em conta que a NOAA mudou neste ano o sistema de monitoramento do Pacífico. Anteriormente, utilizava uma média fixa de 30 anos pelo chamado sistema ONI (Índice Oceânico Niño). Hoje, faz uso de um sistema que leva em conta a temperatura dos oceanos na região tropical devido ao aquecimento global, o denominado Índice Oceânico Niño Relativo ou RONI.

Considerando o índice tradicional ONI, o modelo antigo CFS chega a projetar que o El Niño teria anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico Centro-Leste (Niño 3,4) de +3,7ºC. Isso é muito acima dos piores eventos de El Niño das últimas décadas, notadamente os eventos de 1982-1983 e 1997-1998.

Modelo de El Niño

NOAA

Por outro lado, ainda considerando o índice tradicional ONI, o novo modelo em testes da NOAA (SFS) projeta anomalias de temperatura da superfície do mar entre +2,6ºC e +2,7ºC no final deste ano. São anomalias parecidas com os picos de intensidade dos episódios de Super El Niño de 1982-1983 e 1997-1998.

Modelo de El Niño

NOAA

Já pelo novo método de monitoramento (RONI), que por levar em conta o aquecimento acelerado dos oceanos devido às mudanças climáticas tem anomalias menores que o ONI, é igualmente marcante a diferença entre os dois modelos. O antigo CFS projeta um pico pelo índice relativo pouco acima de +3ºC, o que é extremo e acima dos índices relativos de 1982 (+2,5ºC) e de 1997 (+2,4ºC).

Modelo de El Niño

NOAA

O novo modelo Seasonal Forecasting System tem uma projeção muito menos agressiva. Conforme a projeção pelo índice relativo do SFS, o pico do El Niño ficaria em torno de +1,8ºC ou +1,9ºC, no limite superior da categoria de forte e perto do limiar de Super El Niño (anomalias de +2ºC ou superiores).

Modelo de El Niño

NOAA

Em resumo, o cenário de El Niño indicado pelo modelo antigo e tradicional da NOAA é de um episódio extremo e muito excepcional do fenômeno. Já pelo novo modelo da agência de clima dos Estados Unidos, seria um dos eventos de El Niño mais fortes da história recente, mas não com intensidade absurda e totalmente fora do comum. Logo, o indicativo para o clima de um é ruim e do outro é péssimo em intensidade.

O que isso significa na prática? Sob qualquer dos dois cenários, os impactos no clima serão significativos. Confirmando-se um ou outro, haverá enchentes no Sul do Brasil no segundo semestre deste ano e no primeiro de 2027, não se descartando cheias de rios com grande porte. Apenas que o risco de extremos maiores aumenta em se confirmando as projeções do modelo antigo (CFS).

Esta discrepância em projeções explica o porquê de a MetSul Meteorologia e experts do mundo inteiro estarem alertando para o risco de um El Niño forte a intenso enquanto se observa cautela sobre qual deve ser exatamente o pico de intensidade do fenômeno neste ano. Que haverá El Niño nos próximos meses é uma certeza. Que será forte uma quase certeza. E que pode ser muito forte (Super El Niño) uma alta probabilidade.