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Crise energética no mundo se agrava rapidamente com preços recordes de gás, carvão e eletricidade com apagões e fábricas paradas na China, ameaça de falta de luz na Índia, risco de desabastecimento de alimentos na Europa e contágio de preços na economia com maior inflação no mundo. | MAX VETROV/AFP/ARQUIVO/METSUL METEOROLOGIA

O brasileiro se assusta com a subida da conta da luz pela crise hídrica, mas o preço da energia dispara a níveis recordes e alarmantes em outras partes do mundo por um cenário extremamente complexo que envolve, dentre outros fatores, incapacidade de atender a demanda, medidas de restrição ao uso de combustíveis fósseis e cotações nas alturas de carvão e gás natural. As maiores economias do planeta começam a sentir duramente o impacto. A China, por exemplo, já está com racionamento de luz parando fábricas por todo o país. A crise na Europa é um presságio de problemas para o resto do planeta, já que a escassez de energia no continente traz avisos de apagões com fábricas europeias sendo forçadas a fechar.

Europa

Os preços de referência europeus para o gás natural aumentaram 500% em apenas seis meses e seguem disparando, com a Agência Internacional de Energia (AIE) identificando uma série de fatores por trás do aumento. Do lado da demanda, a recuperação econômica global das paralisações da pandemia aumentou o uso de gás enquanto os estoques ficaram baixos após um longo e frio inverno que levou os europeus a aquecerem mais suas casas.


O abastecimento foi atingido pela falta de manutenção durante a pandemia e pelo envelhecimento da infraestrutura. As entregas por oleoduto da Rússia foram retardadas por obras de engenharia e um incêndio em agosto. E as importações de gás natural liquefeito (GNL) da Ásia não estão conseguindo preencher a lacuna, já que a demanda também é alta no continente asiático.

Os consumidores, assim como as empresas, foram prejudicados pela alta de preços, com a agência de classificação Fitch alertando os fabricantes de fertilizantes e o agronegócio estão especialmente expostos. O governo britânico disse na terça-feira que entraria em ação para resgatar a CF Fertilizers a fim de reiniciar duas fábricas que se tornaram não lucrativas, já que seus subprodutos incluem dióxido de carbono, vital para a indústria alimentícia em geral e outras aplicações.

A ação do governo do Reino Unido ocorre sob a ameaça iminente, de poucos dias, que comece a faltar comida. Os suprimentos de frango e carne de porco ​​começam a se esgotar à medida que as cadeias de suprimentos lidam com a atual escassez de CO2 (dióxido de carbono), alertaram representantes das indústrias. A indústria informou que os produtores serão forçados a tomar medidas emergenciais para conservar o suprimento de CO2 nos próximos dias, já que as plantas mantêm o suprimento de dióxido de carbono de apenas um a cinco dias. O dióxido de carbono é usado no abate e no processo de embalagem de alimentos. Também é utilizado em refrigerantes, cervejas, queijos, frutas e vegetais e bolos, dentre outros itens. As plantas de fertilizantes desempenham um papel crucial na produção de dióxido de carbono. As duas fábricas, em Cheshire e Teesside, são responsáveis ​​por 60% do fornecimento de CO2 da Grã-Bretanha.

Os estoques de gás nas instalações de armazenamento europeias estão em níveis historicamente baixos para esta época do ano. Os fluxos de gasodutos da Rússia e da Noruega têm sido limitados. Isso é preocupante, pois menos vento reduziu a produção de turbinas eólicas enquanto as velhas usinas nucleares da Europa estão sendo desativadas ou estão mais sujeitas a interrupções, o que torna o gás ainda mais necessário.

O pico forçou alguns produtores de fertilizantes na Europa a reduzir a produção, com mais devendo seguir o mesmo caminho, ameaçando aumentar os custos para os agricultores e potencialmente aumentando a inflação global de alimentos. No Reino Unido, os altos preços da energia obrigaram vários fornecedores a fecharem as portas. Os recordes também estão caindo nos mercados de eletricidade, com contratos de 2022 chegando a valores jamais vistos, o que vai provocar um salto imenso na conta de luz das residências e do setor produtivo na Europa.

Menos vento reduziu produção eólica na Europa e medidas europeias para enfrentar o aquecimento global agravaram a crise energética | ERIC FEFERBERG/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Os especialistas em energia destacam duas razões para o aumento da luz: um aumento de 80% neste ano nos preços das licenças de emissão de carbono, à medida que a União Europeia aumenta suas ambições climáticas para 2030, e os efeitos indiretos do carvão e gás mais caros usados ​​para gerar energia. A situação pode piorar ainda mais com o inverno chegando neste final de ano. A IEA alertou que “o mercado europeu de gás pode muito bem enfrentar mais testes de estresse de interrupções não planejadas sob fortes períodos de frio, especialmente se ocorrerem no final do inverno”.

O órgão com sede em Paris pediu na terça-feira à Rússia que forneça mais gás para a Europa, enquanto Moscou enfrenta acusações de que está se segurando até que um novo e polêmico gasoduto para a Alemanha receba luz verde dos reguladores para começar a operar. A secretária de Energia dos Estados Unidos, Jennifer Granholm, atacou na quarta-feira “jogadores que podem estar manipulando o fornecimento para se beneficiarem”, enquanto não citava a Rússia.

Na Espanha, um imposto especial sobre a eletricidade será reduzido para empresas e consumidores, enquanto a França emitirá um cupom de energia de 100 euros para quase seis milhões de famílias menos abastadas. Portugal interveio sobre os preços da eletricidade e a Itália está a considerar uma medida semelhante. Mas, embora a Comissão Europeia diga que está em negociações com os Estados-membros, não houve nenhuma ação de Bruxelas até agora diante da grave crise energética que se espalha pelo continente. Os preços da energia estão subindo também nos Estados Unidos, onde alguns setores estão nervosos, apesar da medida de proteção proporcionada pela produção doméstica de gás de xisto.

China

A situação energética é muito grave na China com pelo menos 20 províncias e regiões chinesas que representam mais de 66% do PIB do país anunciando corte de luz. A província de Guangdong, o centro industrial do Sul chinês, está cortando 10% de sua demanda de energia em horas de pico. Reduções de energia em todo o país causadas por muitos fatores, incluindo um forte salto nos preços do carvão e aumento da demanda, levaram a efeitos colaterais em fábricas chinesas de todos os tipos, com alguns cortes na produção ou paralisação total da produção. Especialistas da indústria preveem que a situação pode piorar com a aproximação do inverno.

As interrupções na produção trazidas por cortes de energia desafiam a produção das fábricas e os especialistas acreditam que as autoridades chinesas irão lançar novas medidas para fazer frente à crise, incluindo um enfrentamento aos altos preços do carvão para garantir um fornecimento estável de eletricidade. Uma fábrica têxtil com sede na província de Jiangsu, no Leste da China, recebeu um aviso das autoridades locais sobre cortes de energia em 21 de setembro. Ela não terá energia novamente até 7 de outubro ou mais tarde. Há mais de 100 empresas no distrito de Dafeng, cidade de Yantian, província de Jiangsu, enfrentando situação semelhante.

Como resultado da recuperação econômica, o uso total de eletricidade no primeiro semestre do ano aumentou mais de 16% com relação ao ano anterior, estabelecendo um novo recorde por muitos anos. Devido à demanda, os preços das commodities e matérias-primas para indústrias básicas, como carvão, aço e petróleo bruto, aumentaram em todo o mundo. Isso fez com que os preços da eletricidade subissem e “agora é bastante comum que as usinas movidas a carvão percam dinheiro ao gerar eletricidade”, disse o analista-chefe de uma empresa de energia chinesa. “Alguns estão até tentando não gerar eletricidade para conter as perdas econômicas”, afirmou.

Menos vento reduziu produção eólica na Europa e medidas europeias para enfrentar o aquecimento global agravaram a crise energética | ERIC FEFERBERG/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Os especialistas da indústria preveem que a situação pode piorar antes de melhorar, já que os estoques de algumas usinas são baixos enquanto o inverno se aproxima rapidamente. Dado que o abastecimento de energia elétrica fica mais restrito no inverno, a fim de garantir o fornecimento de energia na estação que demanda aquecimento, a Administração Nacional de Energia realizou recentemente uma reunião para aumentar a produção de carvão e gás natural como garantia de abastecimento neste próximo inverno.

Em Dongguan, o centro de manufatura na província de Guangdong, Sul da China, a escassez de energia colocou empresas como a Dongguan Yuhong Wood Industry em uma situação difícil. As fábricas de processamento de madeira e aço da empresa enfrentam limites no uso de eletricidade. A produção é proibida das 20h às 22h, e a eletricidade deve ser reservada para sustentar a vida diária da população. O trabalho só pode ser feito depois das 22h, mas pode não ser seguro trabalhar tão tarde da noite, portanto, o total de horas de trabalho foi reduzido. Com a oferta reduzida e a carga (demanda) recorde, os governos locais pediram a algumas indústrias que reduzissem o consumo.

Guangdong divulgou um anúncio no sábado, apelando aos usuários da indústria terciária, como agências governamentais, instituições, shoppings, hotéis, restaurantes e locais de entretenimento a conservar energia, especialmente durante os horários de pico. O anúncio também pediu que as pessoas repensem o uso de ar-condicionado. Com os altos preços do carvão e a escassez de eletricidade e carvão, também há escassez de eletricidade no Nordeste da China. O racionamento de energia começou em muitos lugares na última quinta-feira. Toda a rede elétrica da região está em risco de colapso e a energia residencial está sendo limitada.

Índia

De acordo com a Bloomberg, os estoques de carvão na Índia caíram para o nível mais baixo em quase três anos, colocando mais da metade da capacidade de geração a carvão do país em risco de interrupções, o que pode levar o país a adotar racionamento de luz com cortes de energia para a população e a indústria.

As fortes chuvas nas maiores regiões de mineração da Índia pioraram a crise de abastecimento de carvão do país. Minas inundadas e estradas alagadas reduziram as operações da mineradora estatal Coal India Ltd., de acordo com o diretor técnico Binay Dayal, obstruindo o fornecimento de usinas de energia. Com isso, os estoques de combustível caíram para 9,3 milhões de toneladas, o menor desde outubro de 2018.

Impactos globais e no Brasil

“É chocante é chocante a rapidez com que isso saiu do controle”, resumiu Adam Button, analista de câmbio chefe e editor da Forex, especializada em mercados. Segundo o analista, “a velocidade e intensidade da crise de energia são impressionantes”. De acordo com Button, “no momento é difícil até mesmo manter acompanhar todos os problemas de energia do mundo”. “Esta é uma crise que vi se formando, mas estou continuamente surpreso com o quão forte ela está atingindo”, resumiu.

O professor de economia Cristiano Costa, da Unisinos, em entrevista para MetSul, explicou que há um “desbalanceamento” na geração de energia que tem se manifestado de diversas formas e tem origem em várias causas. Segundo ele, no Brasil a energia vem subindo devido à falta de chuvas, o que demanda o acionamento de termelétricas que, além de poluírem mais, custam muito mais caro. Os preços são repassados diretamente aos consumidores, disse.

Além disto, diz Cristiano Costa, o real enfraquecido juntamente com a alta do preço do barril de petróleo tem elevado o preço dos combustíveis. O cenário não deve mudar muito até o fim do ano. “Podemos dizer que, diante de sua matriz energética, o preço da energia no Brasil é extremamente dependente das condições climática, mas as variações dos preços da energia e combustíveis ao redor do mundo possuem múltiplas causas”, diz.

O professor e doutor em Economia pela Universidade da Pensilvânia (EUA) enfatiza que na Europa dois componentes catapultaram os preços. Na Inglaterra, as consequências dos Brexit, gerando descasamentos de oferta e demanda de produtos têm levado à falta de dióxido de carbono que levar à falta proteínas e derivados. “As condições climáticas são parte importante, mas lá o que pesa mais é a questão da adaptação ao Brexit”, resume.

Na Europa continental, destaca, o preço futuro do gás natural que em março estava US$ 2,40 hoje pela manhã subia mais 10% e chegava aos US$ 6,27. “É uma consequência das tempestades de verão, da chegada do inverno e de uma restrição global de oferta de energia fóssil. A mudança da matriz energética em direção à termelétricas encarece a produção”, assinala. Conforme Cristiano Costa, tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá os preços estão nos maiores patamares em anos. “A proximidade do inverno assusta os consumidores e os investidores pois não há perspectiva de queda no curto prazo”, sintetiza.


Na China, segundo ele, o cenário é similar. Os preços subiram muito nas últimas semanas, levando o governo chinês a decretar restrições de suprimento de energia intercaladas em diversas províncias. A combinação é de preços elevados em função do descasamento entre oferta e demanda e um desejo do governo chinês de reduzir as emissões para os jogos olímpicos de inverno, que acontecerão Beijing em fevereiro. “Há claramente um desbalanceamento entre as ambições econômicas e climáticas”, afirma.

A crescente e cada vez mais grave crise energética global pode piorar ainda mais a situação do bolso dos brasileiros. Isso porque, de acordo com o especialista, as consequências econômicas advindas da combinação desses movimentos mundiais na economia podem colocar ainda mais pressão nos preços no Brasil, à medida que as pausas nas produções chinesas levam à falhas nas cadeias de suprimentos e os componentes necessários para a produção ficam em falta ou atrasam. Além disso, a alta do preço do petróleo gera repasse aos consumidores nas bombas pela política de preços da Petrobrás, o que ocorre também com o gás de cozinha.

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