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Temperatura muito abaixo da média na maior parte da Antártida, enfraquecimento do cinturão de vento ao redor do continente antártico e mais gelo marinho que o habitual criam cenário ideal para poderosas e até extremas ondas de frio no Hemisfério Sul e que podem alcançar o Brasil | NOAA

O padrão atmosférico é favorável a novas incursões de ar polar de forte intensidade agora no final do mês de julho e também ainda em agosto e setembro, possivelmente com risco de frio intenso tardio mesmo no decorrer da primavera.

A possibilidade de novas massas de ar muito frio, como a do final do mês de junho e desta semana, acompanha o quadro de neutralidade no Pacífico que pode migrar novamente para La Niña ao longo deste segundo semestre e ainda pelo comportamento da temperatura e do vento na região da Antártida.


A temperatura desde o outono tem estado abaixo da média no continente antártico. Maior parte da Antártida vem registrando temperatura muito abaixo dos padrões históricos, o que, por exemplo, fez com que a cobertura de gelo marinho no Hemisfério Sul durante o mês de junho ficasse logo acima da média histórica 1991-2020.

Grande parte da Antártida está hoje com temperatura abaixo da média | Karsten Haustein

A cobertura fim de 14 milhões de quilômetros quadrados ou 1% acima da média dos últimos trinta anos. Esse pequeno desvio positivo ocorreu após cinco anos seguidos de menos gelo marinho do que a média em junho, especialmente entre 2017 e 2019.

Cobertura de gelo marinho estava acima da média dos últimos 30 anos na Antártida | Copernicus

De acordo com dados do sistema europeu Copernicus, o padrão de gelo observado no último mês na Antártida mascara grandes diferenças regionais no continente na concentração de gelo marinho com valores superiores ao normal a Oeste da península antártica, ao Norte dos mares de Bellingshausen e Amundsen, assim como nos setores do Índico e do Pacífico Oeste no Oceano do Sul. Gelo marinho abaixo da média predominou ao Norte nos mares de Weddel e Ross.

Por que o gelo marinho é importante? Estudo publicado por pesquisadores da UFRGS destacou uma mudança na trajetória do ar frio em direção à América do Sul. De acordo com o estudo, as incursões polares que atingem o Brasil se originam no Mar de Bellinghausen, a Oeste da Península Antártica, onde hoje há mais gelo. Os pesquisadores, contudo, defendem que houve mudanças.

O aquecimento da Terra teria alterado a dinâmica da atmosfera com vento mais forte. Estes se originam do Oceano Pacífico e podem ter deslocado, segundo estes cientistas, a origem das massas frias para o Mar de Weddell, no outro lado da Península Antártica. Estas massas de Weddel são mais frias por existir maior cobertura de gelo no mar e atingiriam o Brasil em épocas distintas das massas de ar polar tradicionais.

Oscilação Antártica

A chamada Oscilação Antártica ou Modelo Anular Sul ou Meridional é uma das mais importantes variáveis que impacta as condições no Brasil e no Hemisfério Sul, tanto na chuva como na temperatura. Do que se trata? Trata-se de um índice de variabilidade relacionado ao cinturão de vento e de baixas pressões ao redor da Antártida.

A Oscilação Antártica, também chamada de Modo Anular Sul, tem duas fases. A positiva e a negativa. Na positiva, o cinturão de vento ao redor da Antártida se intensifica e se contrai em torno do Polo Sul. Já na fase negativa, o cinturão de vento enfraquece e se desloca para Norte, no sentido do Equador, obviamente sem atingir a faixa equatorial.

Com a maior ondulação da corrente de jato na fase negativa cresce a chance de que ocorram eventos de frio mais intenso no Cone Sul da América e em outras áreas mais meridionais dos continentes do Hemisfério Sul como o Sul da África, Austrália e Nova Zelândia.

Na metade deste mês, a Oscilação Antártica entrou em fase negativa, o que favoreceu incursões de ar muito frio em latitudes médias como do Brasil. A projeção é que a oscilação tenha uma nova queda agora no final do mês de julho, o que manterá o cenário muito propício para ondas de frio de maior intensidade em países do Hemisfério Sul mais meridionais.

Onda de frio na África

Na mesma semana em que uma onda de frio atinge o Centro-Sul do Brasil e que trouxe temperatura de 8,2ºC abaixo de zero em Santa Catarina e marcas negativas em seis estados brasileiros, com graves perdas para diversas culturas da laranja ao milho e café, uma potente onda de frio alcança o Sul do continente africano.

A temperatura nesta quinta-feira chegou a 9,7ºC abaixo de zero na estação de Werda, em Botswana. A menor marca no país desde 1953, quando os termômetros indicaram 10,6ºC negativos. Muitas estações na África do Sul anotaram hoje marcas negativas. A de Twee Riviere indicou 9,5ºC abaixo de zero. O Aeroporto Internacional de Johanesburgo teve 0,2ºC negativo.

O serviço meteorológico da África do Sul alertou para frio ainda mais intenso no começo desta sexta-feira com marcas negativas e geada em muitas áreas do país com possibilidade de danos para produtores rurais. Em razão do frio e de limitações na geração de energia elétrica, a empresa Eskom anunciou que o sistema elétrico nacional está sob estresse.

O frio muito intenso chegou ao interior do país e chegou a provocar incomum queda de neve hoje cedo ao Norte de Cape, como na localidade de Kimberley, para o espanto dos moradores. Há um alerta nível 3 para perdas no gado em razão da neve nas áreas mais altas de Western Cape assim como em Namaka e o Sul de Free State.

Mais frio para o Brasil e pode ser extremo

Modelos numéricos consolidaram a tendência de uma nova e potente massa de ar polar alcançando o Centro e o Sul do Brasil na próxima semana com marcas muito abaixo de zero em algumas cidades e um grande número de municípios do Sul, Centro-Oeste e o Sudeste do país mais uma vez registrado marcas negativas.


O cenário que se esboça é de mais um evento de geada de grandes proporções que, a partir dos dados de hoje, pode ser ainda pior que o desta semana com enorme risco de perdas adicionais no setor primário, incluindo milho, laranja, café e hortaliças.

A se confirmarem as tendência de hoje dos modelos e que serão detalhadamente analisadas nos próximos dias pela MetSul, a onda de frio deste final de julho tem potencial para facilmente superar em intensidade as ondas polares do final de junho e agora desta semanas, equiparando-se a algumas das mais fortes na memória recente.

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