Três dos primeiros quatro dias de julho tiveram temperatura acima de 30ºC no Rio Grande do Sul. A temperatura neste começo de mês está muitíssimo acima da média histórica em quase todo o Centro-Sul do Brasil, exceção de da Metade Sul gaúcha. Cidades de Santa Catarina e do Paraná igualmente têm enfrentado tardes quentes com marcas acima dos 30ºC.

Inevitavelmente o mês de julho vai terminar com temperatura acima a muito acima da média na maior parte do Centro-Sul do país porque, mesmo na hipótese de uma onda de frio mais intensa na segunda metade do mês, o desvio positivo de temperatura vai ser tão grande nesta primeira quinzena de julho que um episódio de ar gelado apenas reduziria as anomalias acima da média e não faria o mês encerrar com temperatura abaixo dos padrões históricos.


A conclusão é baseada no que os modelos numéricos indicam para os próximos dez dias. A tendência é de muitos dias ainda de temperatura acima ou muito acima da média no restante desta primeira metade de julho, vários com registro de calor. Não há qualquer indicativo de uma grande e prolongada onda de frio nos próximos dez dias.

 


La Niña, fenômeno que atua neste momento no Pacífico Equatorial, favorece ondas de frio mais fortes no Sul do Brasil. A anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Leste está em -1,4ºC, na chamada região Niño 1+2. É uma grande anomalia negativa. Ocorre que não se trata da única peça do quebra-cabeças do clima a influenciar o ingresso de ar polar no Sul do Brasil.

Se a La Niña pode ser prevista com meses de antecedência, existe uma variável cujas previsões são de apenas muito curto prazo. E ela é extremamente importante para a chegada de massas de ar frio às latitudes médias da América do Sul, incluindo o Sul do Brasil. Trata-se da chamada Oscilação Antártica (AAO).

A chamada Oscilação Antártica ou Modelo Anular Sul ou Meridional é uma das mais importantes variáveis que impacta as condições no Brasil e no Hemisfério Sul, tanto na chuva como na temperatura. Do que se trata? Trata-se de um índice de variabilidade relacionado ao cinturão de vento e de baixas pressões ao redor da Antártida.

A Oscilação Antártica, também chamada de Modo Anular Sul, tem duas fases. A positiva e a negativa. Na positiva, o cinturão de vento ao redor da Antártida se intensifica e se contrai em torno do Polo Sul. Já na fase negativa, o cinturão de vento enfraquece e se desloca para Norte, no sentido do Equador, obviamente sem atingir a faixa equatorial.


Com a maior ondulação da corrente de jato na fase negativa cresce a chance de que ocorram eventos de frio mais intenso no Cone Sul da América e em outras áreas mais meridionais dos continentes do Hemisfério Sul como o Sul da África, Austrália e Nova Zelândia. Foi o que favoreceu o frio intenso do final de julho do ano passado com a segunda maior nevada neste século no Rio Grande do Sul, quando a AAO apresentou uma forte queda e o ar muito gelado da Antártida avançou até o Sul do Brasil.

As fases da Oscilação Antártica influenciam ainda o posicionamento das ciclogêneses (formação de ciclones extratropicais) em todo o Hemisfério Sul. Quando na fase negativa, a que favorece mais frio no Sul do Brasil, os ciclones extratropicais tendem a ocorrer em latitudes mais baixas do que na fase positiva, logo mais distantes da Antártida e mais próximos do Brasil.

Depois de um mês de junho com valores muito negativos da Oscilação Antártica, o que coincidiu com um junho de temperatura muito abaixo da média no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a oscilação em torno do Polo Sul entrou em uma fase positiva no final do mês e que persiste neste início de julho, o que se manteria ao menos até o meio do mês , coincidindo com este período sem grandes incursões de ar frio e com predomínio de ar quente com correntes de jato em baixos níveis.

O inverno não acabou e há muita estação ainda pela frente. Assim como a oscilação subiu muito nos últimos dias pode ter uma forte queda, como se viu em junho, afinal é bastante errática. Portanto, períodos mais frios ainda devem ser esperados. Apenas que, no curto e médio prazo, não se antevê uma onda de frio mais intensa e duradoura tampouco uma alta frequência de dias frios, mesmo sem uma grande massa de ar polar.