O inverno astronômico, com o solstício, tem início no dia 21 de junho às 11h58. É o começo da estação como a maioria das pessoas conhece. A ciência climatológica, entretanto, trabalha com outros termos inicial e final para as estações e, por isso, adota-se no Hemisfério Sul que o inverno climatológico ou meteorológico começa em 1º de junho e termina em 31 de agosto.

Inverno meteorológico na climatologia começa em 1 de junho. Já pelo critério astronômica, em que a data é móvel, neste ano o inverno vai ter início em 21 de junho. Muitas vezes os dias mais frios do ano ocorrem no começo de junho antes do começo do inverno astronômico. | ALEXANDRE PINTO/ARQUIVO

Então, por que as estações meteorológicas e astronômicas começam e terminam em datas diferentes? Em suma, porque as estações astronômicas são baseadas na posição da Terra em relação ao sol, enquanto as estações meteorológicas são baseadas no ciclo anual de temperatura.

A rotação natural da Terra em torno do Sol forma a base do calendário astronômico, no qual definimos as estações com dois solstícios e dois equinócios. As pessoas têm usado fenômenos naturais periódicos observáveis para marcar o tempo por milhares de anos. A inclinação da Terra e o alinhamento do sol sobre o equador determinam os solstícios e os equinócios.


Os equinócios marcam os momentos em que o sol passa diretamente acima do equador. No Hemisfério Sul, o solstício de verão cai por volta de 21 de dezembro e o solstício de inverno ao redor de 21 de junho. Já o equinócio de primavera por volta de 21 de setembro e o equinócio de outono por volta de 21 março.

Como a Terra realmente gira em torno do sol em 365,24 dias, um dia extra é necessário a cada quatro anos, criando o que conhecemos como ano bissexto. Isso também faz com que a data exata dos solstícios e equinócios varie. Além disso, a forma elíptica da órbita da Terra ao redor do Sol faz com que as durações das estações astronômicas variem entre 89 e 93 dias.

Essas variações na duração da estação e na data de início tornariam muito difícil comparar consistentemente estatísticas climatológicas para uma determinada estação de um ano para o outro. Assim nasceram as estações meteorológicas.


Meteorologistas e climatologistas dividem as estações em grupos de três meses com base no ciclo de temperatura anual, bem como em nosso calendário. Geralmente se pensa no inverno como a época mais fria do ano e no verão como a época mais quente do ano, sendo a primavera e o outono as estações de transição, e é nisso que se baseiam as estações meteorológicas.

Seguindo o calendário civil e tendo menos variação na duração e início da estação, torna-se muito mais fácil calcular estatísticas sazonais a partir dos dados mensais, que são muito úteis para agricultura, comércio e uma variedade de outros propósitos.

Assim, no Hemisfério Sul, o verão meteorológico vai de 1º de dezembro a 28 de fevereiro, o outono de 1º de março a 1º de maio, o inverno de 1º de junho a 31 de agosto e a primavera de 1º de setembro a 30 de novembro.

Primeira semanas do inverno meteorológico às vezes são as mais frias do ano

Por que fazemos questão de enfatizar a importância do conceito de inverno meteorológico que tem início em 1º de junho? Porque é muito mais realista para demarcar o começo da estação que 21 de junho, que costuma ser o começo do inverno pelo critério astronômico.


Muitas e muitas vezes vimos as menores temperaturas do ano ocorrendo nos primeiros 15 a 20 dia de junho, quando pelo critério astronômico ainda não é inverno. E não precisa voltar muito tempo para se ver isso.

No ano passado, em Porto Alegre, na estação oficial do Jardim Botânico do Instituto Nacional de Meteorologia, houve quatro dias em que a temperatura caiu abaixo de 5ºC: 4,0ºC em 1º/6; 4,9ºC em 11/6; 3,4ºC em 19/6; e 4,0ºC em 20/8.

Assim, dos quatro dias em que a temperatura caiu abaixo de 5ºC oficialmente na capital gaúcha em 2022, três se deram antes do começo oficial do inverno astronômico, mas já no denominado inverno climático, e apenas um dia no inverno astronômico. Mais, a mínima do ano de 3,9ºC em 19 de junho se deu ainda no outono astronômico.

Querem ver mais? Mínimas na casa dos 5ºC (5,0ºC a 5,9ºC). Foram quatro em 2022: 5,2ºC em 31/5; 5,6ºC em 12/6; 5,7ºC em 18/7; e 5,4ºC em 19/8. Metade destes dias ocorreu fora do inverno astronômico e ainda no outono.

Temperatura caiu a 3,8ºC abaixo de zero na estação da MetSul e da Prefeitura de São Leopoldo no Parque Imperatriz, no município da Grande Porto Alegre, na grande onda de frio de junho de 2012. | FELIPE MEERT DA SILVA/ARQUIVO

Em 2012, houve duas intensas massas de ar polar. Uma em junho e outra em julho. A de junho, quando ainda não havia iniciado o inverno astronômico, trouxe as menores mínimas daquele ano.

No episódio de junho de 2012, Porto Alegre anotou 4,4ºC no dia 6; 2,2ºC no dia 7; 1,3ºC no dia 8; 0,9ºC no dia 9; e 4,7ºC no dia 10. Foi um dos episódios mais gelados deste século até agora na capital gaúcha. E, atente para as datas, ainda durante o outono astronômico. No evento de julho, a menor mínima foi de 2,8ºC no dia 8. Assim, a menor mínima do ano em 2012 e a mais forte onda de frio do ano ocorreram antes do começo do inverno astronômico ter início.

Fica claro, assim, como as primeiras semanas de junho historicamente podem ter eventos de frio muito intenso e não raro as temperaturas mais baixas do ano, o que torna o uso do conceito de inverno climático (1º de junho a 30 de agosto) muito mais perto da realidade que o astronômico.

E como será em 2023?

Nem 2022, muito menos 2012. As primeiras semanas do inverno climático em 2023 não devem repetir o padrão observado nestes dois anos. Ao contrário, o frio será mais escasso. De acordo com dados de modelos, a tendência é de predomínio de dias de temperatura acima a muito acima da média.

Os primeiros dez dias de junho neste ano tendem a ser de marcas elevadas para esta época do ano e mesmo muito altas em alguns dias. Sem o ingresso de numa massa de ar frio de maior intensidade e a atuação de ar mais ameno, exceto por áreas de maior altitude, as noites não devem ser muito frias.

As tardes, inclusive, terão máximas elevadas para os padrões de junho no Sul do Brasil com marcas que mais lembrarão o mês de maio. Algumas tardes podem registrar máximas de 26ºC a 27ºC, portanto elevadas para junho. Porto Alegre, por exemplo, tem média máxima histórica de 20,3ºC em junho.

Os mapas abaixo mostram a tendência semanal de anomalia de temperatura pelo modelo europeu para os períodos de 29 de maio a 5 de junho, 5 a 12 de junho e 12 a 19 de junho, que marca as vésperas do começo do inverno astronômico.

Como se observa, a tendência é de temperatura acima a muito acima da média predominando nos primeiros dez dias de junho e entre a segunda e a terceira semana de junho uma redução na temperatura com ingresso de ar frio, mas sem indicativo de anomalias negativas que pudessem indicar uma forte incursão de ar polar.

Há dados de modelos meteorológicos sinalizando que frio mais intenso em junho poderia se dar na segunda quinzena do mês, em particular nos primeiros dias do inverno astronômico, com ar polar que influenciaria o Sul e o Sudeste do Brasil.

O inverno como um todo

Especial publicado na última semana pela MetSul Meteorologia mostrou as projeções de vários dos principais modelos climáticos internacionais apontando que a estação fria neste ano deve ter temperatura acima da média no Sul do Brasil e acima a muito acima da climatologia histórica no Centro do país.

Como se destacou no especial, embora a tendência de um inverno com menos dias de frio seco e intenso neste ano na comparação com anos anteriores, a tendência de uma estação com temperatura acima da média não significa ausência de frio.

Invernos de marcas acima da média climatológica também registram episódios de muito frio, mas os dias gelados ocorrem em menor quantidade. Por outro lado, a perspectiva de um evento de El Niño se instalando durante a estação deve trazer um aumento da chuva e vários dias úmidos no Sul do país, em particular na segunda metade do inverno.