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O começo do El Niño é iminente com a instalação de um episódio do fenômeno entre a segunda quinzena de maio e a primeira metade de junho, conforme análise da MetSul Meteorologia com base em indicadores e projeções para o oceano e a atmosfera.

Mapa do El Niño

Fenômeno El Niño começa a atuar nas próximas semana com maior aquecimento no Pacífico Equatorial e reflexos no clima do Brasil | COPERNICUS

Conforme dados da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), a agência de tempo e clima dos Estados Unidos, utilizando-se o método tradicional conhecido como ONI (Índice Oceânico Niño), já são quatro semanas seguidas com anomalias de temperatura da superfície do mar em patamar de El Niño (iguais ou acima de 0,5ºC).

Os dados da NOAA indicaram anomalias de 0,5ºC na semana de 15 de abril; 0,7ºC em 22 de abril; e 0,9ºC nas semanas de 29 de abril e 6 de maio. Dados diários, entretanto, já indicam anomalias acima de 1ºC.

A NOAA, porém, a partir deste ano, está usando um novo método de monitoramento que é denominado RONI (Índice Oceânico Niño Relativo), cujo último dado divulgado pela agência indica uma anomalia de 0,4ºC, ainda não em patamar de El Niño.

Uma grande quantidade de água extremamente quente, com anomalias recordes de até 8ºC a 9ºC acima da média até 200 metros de profundidade, recém começa a emergir na superfície e tende a intensificar o aquecimento superfície do Pacífico equatorial durante as próximas semanas, levando a um episódio de El Niño.

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São necessárias várias semanas de anomalias oceânicas de El Niño para que um evento seja declarado, assim é altamente improvável que a NOAA anuncie o começo do El Niño de 2026 já agora em maio. O mais provável é que o anúncio venha em junho, como se deu em 2023, ou mais tardar em julho.

Além disso, indicadores atmosféricos já começam a mostrar uma transição para o El Niño no Pacífico. Um dos principais, chamado de Índice de Oscilação Sul (SOI), que mede as diferenças de pressão atmosférica entre o Taiti e Darwin, tem apresentado valores mais negativos nas últimas semanas, consistentes com o processo de uma fase quente do Pacífico.

Entenda a mudança no monitoramento da NOAA

A NOAA anunciou mais cedo neste ano uma mudança importante na forma de monitorar o El Niño e a La Niña com a substituição do tradicional ONI (Oceanic Niño Index) pelo novo índice chamado RONI (Relative Oceanic Niño Index).

A alteração busca tornar o acompanhamento do Pacífico Equatorial mais preciso em um planeta cada vez mais aquecido pelo aumento da temperatura média global. O ONI utilizava anomalias de temperatura da superfície do mar calculadas com base em médias históricas fixas de 30 anos.

Evolução da temperatura do mar na região de monitoramento de El Niño principal

Evolução da temperatura do mar na região de monitoramento de El Niño principal | NOAA/METSUL

O problema é que, com o aquecimento global, os oceanos ficaram progressivamente mais quentes, o que poderia mascarar ou distorcer episódios de El Niño e La Niña ao comparar o presente com um clima passado mais frio.

O novo RONI passa a usar uma abordagem relativa, levando em conta o aquecimento global de fundo para identificar se o Pacífico Equatorial está efetivamente mais quente ou mais frio do que o restante dos oceanos tropicais. Assim, o índice tenta separar melhor o sinal natural da tendência de aquecimento causada pelas mudanças climáticas.

Na prática, a NOAA entende que o RONI poderá identificar de forma mais realista a intensidade dos eventos e evitar classificações exageradas ou subestimadas. A mudança também pode alterar comparações históricas entre episódios antigos e atuais de El Niño e La Niña, já que os critérios de análise passam a considerar um oceano global significativamente mais quente do que décadas atrás.

Veja as projeções para o El Niño

O fenômeno El Niño começa no final deste outono e tende a ganhar força ao longo do inverno rapidamente. A esmagadora maioria dos modelos indica que o evento deverá atingir o seu pico de intensidade no último trimestre do ano, como normalmente ocorre, entre outubro e dezembro, e com intensidade forte a muito forte (Super El Niño).

A atualização de 1º de maio do modelo climático europeu (ECMWF) elevou o alerta para a possibilidade de um Super El Niño histórico nos próximos meses. As projeções agora indicam aquecimento ainda mais intenso no Pacífico Equatorial, com anomalias na região Niño 3.4 perto de +3,2°C até o fim de 2026, pelo critério tradicional (ONI). Em muitos cenários do modelo, o aquecimento varia entre +2°C e +4°C.

Projeção para o El Niño do modelo europeu

ECMWF/METSUL

Se confirmado, o evento poderá rivalizar ou até superar os maiores episódios já registrados, como os de 1997-1998 e 2015-2016, que atingiram cerca de +2,8°C e +2,7°C respectivamente. Alguns cenários sugerem um dos três eventos de El Niño mais intensos desde o século XIX, em aproximadamente 150 anos de dados observacionais.

O fortalecimento das projeções está ligado à maior transferência de calor para a superfície do Pacífico nas últimas semanas. Meteorologistas também acompanham a possibilidade de novos episódios de ventos de Oeste no fim de maio, que podem reforçar ainda mais o aquecimento do oceano e sustentar a tendência de alta nas projeções climáticas.

Projeção de El Niño do modelo NMME

Projeção de aquecimento do Pacífico do modelo NMME | NOAA/METSUL

Além do ECMWF, o modelo norte-americano CFS da NOAA também projeta um El Niño excepcionalmente forte. Pelo antigo índice ONI, algumas projeções superam +3°C, enquanto pelo novo índice RONI o aquecimento aparece um pouco menor, mas ainda em território de Super El Niño, entre 2,5ºC e 2,7ºC. A maioria dos cenários indica forte intensificação no segundo semestre, com pico entre a primavera e o fim de 2026.

Quando começam os impactos

À medida que as condições da atmosfera e do oceano começam a se acoplar, a circulação geral da atmosfera deve entrar em modo de El Niño, o que, por óbvio, deve começar a se refletir nas condições do tempo já ainda neste outono e no começo do inverno. Os impactos maiores do El Niño, entretanto, devem se dar na segunda metade do ano.

Nenhum El Niño é igual ao outro e desde o início os efeitos já devem ser diferentes do último episódio de 2023-2024 com tendência de chuva acima a muito acima da média neste fim de outono entre o Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo e parte de Santa Catarina, inclusive com risco de inundações.

Mapa de projeção de chuva para 45 dias

Projeção de chuva para 45 dias do modelo EPS do Centro Meteorológico Europeu | METSUL

De acordo com a avaliação da MetSul, o período de maior risco e mais crítico em 2026 para eventos extremos mais ao Sul do Brasil, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, será no segundo semestre deste ano, em especial de setembro a novembro.

No Norte do Brasil, o El Niño costuma provocar diminuição das chuvas, especialmente no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é um período mais seco e quente, que favorece a propagação de queimadas e agrava incêndios florestais. No Nordeste, os efeitos são ainda mais críticos: a redução acentuada das precipitações pode levar a episódios de seca, comprometendo o abastecimento de água e causando prejuízos significativos à agricultura.

No Centro-Oeste, historicamente, os impactos tendem a ser mais moderados, com uma leve tendência de chuvas acima da média em algumas áreas, mas acompanhadas por temperaturas mais elevadas. Episódios de calor intenso se tornam mais frequentes, sobretudo no final do inverno e durante a primavera, enquanto as queimadas aumentam no Pantanal.

Já no Sudeste, o principal sinal do fenômeno é o aumento das temperaturas médias, com períodos mais quentes que o normal e extremos de calor, sem um padrão claro e consistente de mudança no regime de chuvas.

No Sul do Brasil, o El Niño costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias de rios e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte. Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio.

O que é El Niño

Um evento de El Niño ocorre quando as águas da superfície do Pacífico Equatorial se tornam mais quente do que a média e os ventos de Leste sopram mais fracos do que o normal na região. A condição oposta é chamada de La Niña. Durante esta fase, a água está mais fria que o normal e os ventos de Leste são mais fortes. Os episódios de El Niño, normalmente, ocorrem a cada 3 a 5 anos.

El Niño, La Niña e neutralidade trazem consequências para pessoas e ecossistemas em todo o mundo. As interações entre o oceano e a atmosfera alteram o clima em todo o planeta e podem resultar em tempestades severas ou clima ameno, seca ou inundações. Tais alterações no clima podem produzir resultados secundários que influenciam a oferta e os preços de alimentos, incêndios florestais e ainda criam consequências econômicas e políticas adicionais. Fomes e conflitos políticos podem resultar dessas condições ambientais mais extremas.

Ecossistemas e comunidades humanas podem ser afetados positiva ou negativamente. No Sul do Brasil, La Niña aumenta o risco de estiagem enquanto El Niño agrava a ameaça de chuva excessiva com enchentes. Historicamente, as melhores safras agrícolas no Sul do país se dão com El Niño, embora nem sempre, e as perdas de produtividade tendem a ser maiores sob La Niña. O El Niño agrava o risco de seca no Nordeste do Brasil enquanto La Niña traz mais chuva para a região.

A origem do nome data de 1800, quando pescadores na costa do Pacífico da América do Sul notavam que uma corrente oceânica quente aparecia a cada poucos anos. A captura de peixes caía drasticamente na região, afetando negativamente o abastecimento de alimentos e a subsistência das comunidades costeiras do Peru. A água mais quente no litoral coincidia com a época do Natal.

Referindo-se ao nascimento de Cristo, os pescadores peruanos, então, chamaram as águas quentes do oceano de El Niño, que significa “o menino” em espanhol. A pesca nesta região é melhor durante os anos de La Niña, quando a ressurgência da água fria do oceano traz nutrientes ricos vindos do oceano profundo, resultando em um aumento no número de peixes capturados.