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Cientistas consideram resfriamento no Hemisfério Sul pelo vulcão de TongaCientistas se debruçam ainda sobre os dados da erupção gigantesca do sábado do vulcão Hunga Tonga-Hunga Haʻapai no Pacífico Sul para avaliar se haverá impacto, mesmo pequeno, no clima planetário.

Erupções de enormes proporções são conhecidas por gerar quantidade de cinzas e gases que alcançam a estratosfera com redução da temperatura no hemisfério em que ocorreu a erupção ou em escala planetária. A última vez que uma grande erupção gerou resfriamento temporário do planeta se deu em 1991 com o Pinatubo, que foi VEI-6 na escala de erupções, e por dois anos causou diminuição da temperatura planetária.


Os primeiros dados obtidos por satélite sugerem que, a não ser que ocorram outros eventos explosivos de grande porte do vulcão, não ocorreriam impactos relevantes no clima da Terra. O satélite Sentinel-5P da União Europeia conseguiu mapear a quantidade de dióxido de enxofre (SO2) liberada pelo Hunga Tonga-Hunga Haʻapai na atmosfera. As primeiras indicações são de que a massa de SO2 injetada não é suficiente para ter um impacto significativo na temperatura global. Os cálculos apontaram 0,4 Tg (teragrama) ou 400 mil toneladas.

Pode parecer muito, e realmente é, mas para que uma erupção vulcânica tenha um grande impacto no clima do planeta é preciso muito mais. Os cientistas concordam que para haver um efeito significativo no sistema climático a erupção teria que ser muitas vezes maior que a do sábado. O Pinatubo em 1991, por exemplo, liberou 20 Tg de S02. O vulcão El Chichón de 1982 emitiu 7,5 Tg de dióxido de enxofre. As duas erupções foram as principais nas últimas décadas a interferir no clima do planeta.

Apesar disso, os cientistas discutem que pode haver efeitos no clima da região. Alguns ponderam a partir de eventos passados que mesmo erupções que não atingiram patamares como a do El Chichõn ou Pinatubo acabaram influenciando o clima mundial, mesmo sem causar resfriamento planetário relevante.

Uma possibilidade é aquecimento maior da estratosfera nos próximos meses e é sabido pela ciência que eventos de aquecimento na estratosfera podem levar a episódios extremos de frio na troposfera (camada mais baixa), logo aumentando o risco de grandes ondas de frio em diferentes partes do mundo.

O cientista Jim Salinger, que pesquisou os impactos de grandes erupções vulcânicas, incluindo a do Pinatubo, no clima da Nova Zelândia, disse à rádio estatal da Nova Zelândia que não foi uma erupção tão grande quanto a de 1991 nas Filipinas e não teria um impacto global no clima, mas poderia haver alguns efeitos locais no Hemisfério Sul, o que inclui a América do Sul. Salinger disse que pode levar alguns meses para os efeitos começarem a ser sentidos com um resfriamento de cerca de 0,1ºC a 0,5ºC durando até a primavera.

Pinatubo, o último grande vulcão a esfriar o planeta  

O Monte Pinatubo, nas Filipinas, entrou em erupção com uma força imensa, ejetando grandes quantidades de cinzas e gás na atmosfera que penetraram a estratosfera. A estratosfera é a camada da atmosfera que se estende de cerca de 10 km a 50 km de altitude. O Pinatubo injetou cerca de 20 milhões de toneladas de dióxido de enxofre na estratosfera, onde reagiu com água para formar uma camada nebulosa de partículas de aerossol compostas principalmente de gotículas de ácido sulfúrico. Ao longo de dois anos, fortes ventos estratosféricos espalharam essas partículas de aerossol ao redor do globo.

Ao contrário da baixa atmosfera (ou troposfera, que se estende da superfície até cerca de 10 km), a estratosfera não tem nuvens de chuva como mecanismo para limpar rapidamente os poluentes. Portanto, um forte influxo de poluentes aerossóis, como a pluma do Monte Pinatubo, permaneceu na estratosfera por anos até que os processos de reações químicas e circulação atmosférica pudessem filtrá-los. No caso do Pinatubo, o resultado foi um resfriamento mensurável da superfície da Terra por um período de quase dois anos.

Como espalham e absorvem a luz solar que entra, as partículas de aerossol exercem um efeito de resfriamento na superfície da Terra. A erupção do Pinatubo aumentou a profundidade óptica do aerossol na estratosfera por um fator de 10 a 100 vezes os níveis normais medidos antes da erupção. A profundidade óptica do aerossol é uma medida de quanta luz partículas transportadas pelo ar impedem de passar por uma coluna de atmosfera. Consequentemente, nos 15 meses seguintes, os cientistas mediram uma queda na temperatura média global de cerca de 0,6ºC.

Os cientistas concordam que erupções semelhantes em todo o mundo são inevitáveis no futuro. Monte Pelée, Katmai, Monte Santa Helena, El Chichón são exemplos de eventos vulcânico do século 20 de grandes proporções. A Caldeira de Yellowstone produziu uma supererupção há cerca de 640.000 anos, com força suficiente para cobrir grande parte do continente norte-americano em uma camada de cinzas e esfriar o planeta por anos. E atividade vulcânica massiva há cerca de 250 milhões de anos pode ter aquecido o planeta e provocado a maior extinção em massa da história.

Tambora trouxe o ano sem verão

Em 5 de abril de 1815, o Monte Tambora, na Indonésia, explodiu. Muitas pessoas próximas ao vulcão perderam suas vidas no evento. O Monte Tambora ejetou tanta cinza e aerossóis na atmosfera que o céu escureceu na região. Houve relatos de vários metros de cinzas flutuando na superfície do oceano. Mas as partículas menores expelidas pelo vulcão eram leves o suficiente para se espalhar pela atmosfera nos meses seguintes e tiveram um efeito mundial no clima.

Os gases e cinzas do Tambora chegaram à estratosfera e a temperatura média global da Terra caiu em até 3ºC. O efeito foi temporário. O chamado “Ano Sem Verão” em 1816 teve muitos impactos na Europa e na América do Norte. As lavouras foram perdidas, seja pela geada ou pela falta de sol. Isso fez com que os alimentos ficassem escassos e fez com que os agricultores que conseguiam cultivar tivessem medo de serem roubados.

O desastre agrícola naquele verão tornou os alimentos cultivados mais valiosos e o preço dos alimentos subiu. Como o preço da aveia aumentou, ficou mais caro para as pessoas alimentarem seus cavalos. Os cavalos eram o principal meio de transporte, portanto, com aveia cara, o custo da viagem aumentou. Foi o que pode ter inspirado o alemão Karl Drais a inventar uma maneira nova se se locomover, a bicicleta.

Na Europa e na Grã-Bretanha, os efeitos do vulcão Tambora incluíram não apenas o verão mais frio já registrado, mas dia após dia de céu encoberto por nuvens e chuvas acima do normal, que causaram perdas generalizadas nas colheitas, surtos de doenças e fome.

Erupção do Krakatoa provocou fortes ondas de frio no Sul do Brasil

Embora ninguém em 1816 tenha percebido que Tambora tinha efeitos globais, outra enorme erupção da Indonésia, o Monte Krakatoa explodiu em 23 de agosto de 1883 e teve impacto mundial. A erupção matou cerca de 36 mil pessoas.

Em 1883, o mundo estava conectado por cabos telegráficos submarinos e linhas telegráficas terrestres. Poucas horas após a erupção do Krakatoa, as notícias se espalharam pelo mundo, inclusive para a comunidade de observadores meteorológicos profissionais e amadores, que nas semanas e meses após a erupção compartilharam suas observações.

As cinzas de Krakatoa primeiro se espalharam pelos trópicos e depois lentamente para o Norte e o Sul. Os efeitos do Krakatoa no clima global não foram tão pronunciados quanto os que se seguiram à erupção de Tambora, mas em 1884 as temperaturas médias do verão no Hemisfério Norte caíram até 2ºC.

Algumas regiões registraram um clima incomum, como as quantidades recordes de chuva que caíram na Califórnia durante o ano hídrico de 1º de julho de 1883 a 30 de junho de 1884. No Rio Grande do Sul, os invernos seguintes à erupção do Krakatoa tiveram ondas de frio extraordinárias e com muita neve.

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