O supertufão Bavi avança pelo Pacífico e atingiu no começo da semana as Ilhas Marianas do Norte, território dos Estados Unidos, com intensidade extrema, provocando destruição significativa, interrompendo serviços essenciais e deixando autoridades em alerta para um cenário que pode levar semanas ou até meses de recuperação.

NOAA/CSU
O ciclone passou diretamente sobre a pequena ilha de Rota, onde vivem cerca de 1.900 pessoas, com ventos sustentados estimados em até 290 km/h, equivalentes a um furacão de categoria 5 na escala Saffir-Simpson.
As primeiras informações apontam para danos severos a catastróficos na ilha. Edifícios públicos sofreram destruição, árvores foram arrancadas pela raiz, postes caíram e as redes de energia e comunicação ficaram interrompidas.
Um dos prédios destruídos foi o gabinete do prefeito de Rota. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram ruas cobertas por destroços, telhados arrancados e construções parcialmente destruídas.
As equipes de emergência ainda enfrentam dificuldades para avaliar a dimensão dos prejuízos devido às condições meteorológicas que persistiram mesmo após a passagem do centro do ciclone.
Segundo o Centro Conjunto de Alerta de Tufões (JTWC), sediado no Havaí, Bavi alcançou seu pico de intensidade justamente no momento em que cruzou a ilha de Rota. A agência classificou o sistema como um supertufão de categoria 5, com ventos sustentados de 290 km/h e rajadas estimadas próximas de 350 km/h.
A Agência Meteorológica do Japão, responsável pelos avisos oficiais na região do Pacífico Ocidental, estimou uma pressão central de aproximadamente 910 hPa, valor extremamente baixo e característico apenas dos ciclones tropicais mais intensos do planeta.
Especialistas destacam que Bavi se aproximou muito do chamado potencial máximo de intensidade da atmosfera naquele ambiente. Modelos desenvolvidos pela Universidade de Wisconsin indicavam que, nas condições oceânicas e atmosféricas existentes, o ciclone poderia teoricamente atingir ventos próximos de 320 km/h e pressão em torno de 885 hPa.
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Embora poucos ciclones consigam atingir esse limite teórico, Bavi chegou muito próximo graças a uma combinação quase perfeita de fatores ambientais. As águas superficiais do Pacífico Ocidental estavam excepcionalmente quentes, entre 30°C e 31°C, fornecendo enorme quantidade de energia para alimentar a tempestade. Além disso, o calor não estava restrito apenas à superfície.
Os meteorologistas observaram elevado conteúdo de calor oceânico, indicando águas muito quentes também em grandes profundidades. Isso impede que a passagem do ciclone resfrie rapidamente a superfície do mar, permitindo que ele continue encontrando combustível para manter sua intensidade.
Outro fator importante foi o reduzido cisalhamento do vento durante a fase de fortalecimento. O ambiente apresentou pouca variação dos ventos com a altitude, permitindo que a estrutura interna do tufão permanecesse extremamente organizada.
Imagens de radar obtidas a partir de Guam revelaram ainda uma característica incomum no interior da parede do olho do ciclone. Meteorologistas identificaram sinais da presença de mesovórtices, pequenos redemoinhos embutidos na parede do olho capazes de produzir rajadas localizadas muito superiores aos ventos médios do sistema.
As estruturas já foram observadas em alguns dos ciclones mais destrutivos da história recente, como o furacão Hugo, em 1989, e o furacão Andrew, em 1992. Elas podem explicar áreas onde a devastação é significativamente maior do que a observada nas regiões vizinhas.
A ilha de Guam, localizada cerca de 80 quilômetros ao sul de Rota, também registrou impactos importantes, embora tenha escapado da região mais intensa do ciclone. Diversas árvores foram derrubadas, postes de energia caíram e veículos chegaram a ser tombados pela força do vento.

YUICHI YAMAZAKI/AFP/METSUL
Várias rodovias ficaram bloqueadas por destroços, dificultando o deslocamento das equipes de emergência. As autoridades recomendaram que a população permanecesse em casa mesmo após a passagem do centro do ciclone devido ao risco representado por cabos energizados, árvores instáveis e novas rajadas de vento.
As comunicações também sofreram interrupções importantes. Em Rota, uma torre de telefonia entrou em colapso, deixando grande parte da população sem sinal de celular justamente durante as primeiras horas após a passagem do supertufão.
Os trabalhos de busca e avaliação de danos ainda avançam lentamente porque muitos acessos continuam bloqueados. Em Tinian e no sul da ilha de Saipan, ao norte de Guam, também foram registrados ventos equivalentes aos de um furacão de categoria 1, suficientes para provocar danos estruturais localizados, queda de árvores e interrupções no fornecimento de energia elétrica.

YUICHI YAMAZAKI/AFP/METSUL
Antes da chegada do ciclone, as autoridades norte-americanas haviam realizado uma ampla operação preventiva. Foram distribuídos aproximadamente 1,1 milhão de litros de água potável, mais de 1,2 milhão de refeições prontas, milhares de camas de campanha e dezenas de geradores de energia.
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O Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos chegou a alertar que partes de Rota poderiam permanecer inabitáveis durante semanas ou até mais tempo em razão da magnitude da destruição.
Bavi continua avançando pelo Pacífico Ocidental. Embora tenha iniciado um lento processo de enfraquecimento, o ciclone ainda permanece extremamente perigoso. A previsão indica que o aumento do cisalhamento do vento nos próximos dias deverá reduzir gradualmente sua intensidade.
Mesmo assim, os modelos meteorológicos projetam que o sistema continuará como um poderoso tufão ao se aproximar do Leste da Ásia. A trajetória prevista leva Bavi em direção ao Norte de Taiwan e às ilhas Ryukyu, no Sul do Japão, antes de um provável deslocamento rumo ao litoral da China durante o fim de semana.
Apesar de chegar ao continente com ventos inferiores aos registrados nas Ilhas Marianas, o ciclone deverá apresentar um campo de vento muito mais amplo, aumentando o potencial para ressaca, maré de tempestade, chuvas torrenciais e inundações.
A temporada de tufões deste ano tende a ser mais ativa em razão do desenvolvimento do fenômeno El Niño. O aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial modifica a circulação atmosférica em escala global e costuma favorecer condições ambientais mais propícias ao desenvolvimento de ciclones tropicais intensos no Pacífico Ocidental.
A mudança na configuração da atmosfera aumenta a preocupação com a possibilidade de uma temporada marcada por sistemas muito intensos. o)s oceanos do planeta também atravessam um período excepcionalmente quente. Dados recentes indicam que junho registrou as temperaturas médias da superfície do mar mais elevadas já observadas para o mês, ampliando a disponibilidade de energia para ciclones tropicais.
As Ilhas Marianas do Norte conhecem bem esse tipo de ameaça. Nos últimos anos, o arquipélago já foi atingido por diversos tufões destrutivos, incluindo o supertufão Mawar, em 2023, e o supertufão Sinlaku, que em abril deste ano deixou um rastro de destruição, milhares de consumidores sem energia elétrica e grandes prejuízos à infraestrutura.
