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Um casal caminha onde o nível da água costumava chegar, em Vilar, às margens do rio Zêzere, na Pampilhosa da Serra, Centro de Portugal, em fevereiro. No inverno, não apenas o Centro e o Sul de Portugal foram atingidos pela seca, como já aconteceu nos últimos anos, mas todo o país enfrentou grave déficit hídrico. | PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

“Nunca vi isso antes”, lamenta Carlos Perdigão, de 76 anos. Este português vem muitas vezes pescar no rio Zêzere, onde existem hoje faixas significativas de terra rachada devido à seca que castiga a península ibérica. Na sua frente, as ruínas de Vilar, uma antiga aldeia de pedra que foi engolida pelo rio após a construção de uma grande albufeira há cerca de 70 anos, surgiram há várias semanas devido aos baixos níveis de água.

A cena causa alarme nos moradores da região que já foi atingida por graves incêndios em 2017 que deixaram mais de cem mortos. Espanha e Portugal foram atingidos no inverno boreal recém terminado por uma extrema aridez devido à falta de chuva em janeiro que foi o segundo janeiro mais seco desde 2000 na península ibérica, segundo as agências meteorológicas dos dois países.


Esta seca é excepcional “pela sua intensidade, amplitude e duração”, indica Ricardo Deus, climatologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Na Espanha, “em janeiro choveu um quarto do que normalmente teria chovido neste período”, explica Rubén del Campo, porta-voz da AEMET, agência meteorológica espanhola.

A situação levou o governo português a tomar medidas de emergência. Em um país onde 30% da energia consumida é de origem hidráulica, as autoridades foram obrigadas no início de fevereiro a anunciar a suspensão da produção hidrelétrica em cinco barragens para “preservar os volumes necessários ao abastecimento público”.


Do outro lado da fronteira, o ministro espanhol da Agricultura, Luis Planas, manifestou preocupação e garantiu que o governo vai tomar “as medidas necessárias consoante a evolução da situação”. Os níveis de reservas de água, essenciais para a agricultura, estão atualmente em menos de 45% de sua capacidade na Espanha, segundo dados oficiais.

As regiões mais afetadas são Andaluzia (Sul) e Catalunha (Nordeste). A falta de chuva alerta os agricultores e fazendeiros em ambos os países. Com o aquecimento global, a intensidade e a frequência dos episódios de seca, que ameaçam a segurança alimentar da população, correm o risco de aumentar, mesmo que o mundo consiga limitar o aumento das temperaturas a +1,5°C em relação ao período pré-industrial.

Imagem aérea do rio Zêzere na Pampilhosa da Serra, Centro de Portugal, mostra a drástica diminuição dos níveis dos mananciais com a seca severa ou extrema que tomou conta do país, de acordo com dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) | CARLOS COSTA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Ribeira de Alge, onde antes havia água, nas margens do rio Zêzere na Pampilhosa da Serra, Centro de Portugal, com o leito seco em meio à grave seca que assola Portugal em 2022 | CARLOS COSTA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

A previsão para esta semana indica um padrão mais chuvoso na península ibérica com chuva mais frequente e até volumosa em algumas áreas da Espanha e Portugal. Modelos numéricos indicam a perspectiva de pontos dos territórios espanhol e português registrarem acumulados de precipitação muito altos.

A chuva é mais do que bem-vinda pela necessidade de reposição hídrica para o verão. Os estoques de água são manifestamente insuficientes para garantir os consumos agrícolas, industriais e domésticos. Portanto, é preciso ainda muita água para encher os reservatórios e garantir que no verão haja água para cobrir as necessidades.

As regiões mais problemáticas são o Alentejo, onde já há animais em situação de magreza extrema por escassez de pastos e o Algarve. Os prejuízos agrícolas, em alguns casos, já são irreparáveis. Alguns especialistas recomendam o reforço da capacidade de armazenamento de água que devia ser guardada para os anos de mais fraca pluviosidade.

A chuva que caiu nos últimos dias contribuiu para um “desagravamento da intensidade da situação de seca meteorológica na região Litoral Norte e Centro”, onde aumentou a água no solo, conforme o IPMA.

Mais para o interior, em Trás-os-Montes, Beira Alta e grande parte do Sul, totalizando 77% do território, mantém-se “seca severa e extrema”. O período entre outubro de 2021 e 15 de março foi o mais seco desde 1931, acrescenta o IPMA. Quanto à temperatura na primeira quinzena do mês, esteve 1,7ºC abaixo do valor médio mensal 1971-2000.

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