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A Europa segue castigada por uma das mais extraordinárias ondas de calor já registradas em sua história recente. A intensidade do calor observada neste fim de junho está reescrevendo recordes climáticos em vários países, especialmente na França, onde as temperaturas atingiram níveis considerados excepcionais.

Foto mostra Paris durante onda de calor na Europa

BRUNO DE HOGUES/ONLY FRANCE/AFP/METSUL

A agência nacional de saúde da França informou que o episódio de calor extremo provocou um aumento sem precedentes na procura por atendimento médico de emergência. Segundo o órgão, o fenômeno afetou pessoas de todas as idades, incluindo jovens entre 15 e 44 anos.

Entre os dias 21 e 22 de junho, o número de atendimentos hospitalares relacionados ao calor triplicou em território francês. As consultas médicas de urgência realizadas pelo serviço SOS Médecins quadruplicaram, refletindo a gravidade das condições meteorológicas enfrentadas pela população.

Os principais motivos dos atendimentos foram casos de insolação, desidratação e exaustão pelo calor. Autoridades sanitárias alertam que episódios prolongados de temperaturas extremas aumentam significativamente o risco de complicações cardiovasculares, respiratórias e neurológicas, sobretudo entre grupos vulneráveis.

Segundo estimativas baseadas em projeções populacionais e previsões meteorológicas, cerca de 94 milhões de europeus enfrentariam temperaturas superiores a 35ºC nesta semana. A maior parte dessa população está concentrada na França e na Espanha, os países mais atingidos.

Mais de 350 milhões de pessoas no continente europeu devem enfrentar temperaturas máximas acima de 30ºC. Isso representa mais de dois terços da população da Europa.

Pesquisadores apontam que padrões atmosféricos persistentes estão aprisionando massas de ar quente sobre amplas áreas do continente. Esse bloqueio impede a chegada de sistemas mais frios e favorece o acúmulo progressivo de calor por vários dias consecutivos.

Um estudo científico divulgado nesta semana concluiu que o episódio foi significativamente agravado pelas mudanças climáticas provocadas pela atividade humana. Sem o aquecimento global, as temperaturas observadas atualmente seriam entre 2ºC e 4ºC mais baixas.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, advertiu que a onda de calor representa uma ameaça crescente à saúde pública europeia. Ele pediu investimentos urgentes para tornar os sistemas de saúde mais resilientes às mudanças climáticas.

Na França, cerca de 44 milhões de pessoas estavam sob o mais elevado nível de alerta meteorológico para calor extremo. As temperaturas médias diurnas e noturnas alcançaram 29,8ºC na terça-feira, o maior valor observado desde o início dos registros nacionais. As máximas em diversas regiões francesas ficaram entre 40ºC e 45ºC, incluindo áreas próximas de Paris e da Bretanha. Em diversos departamentos, estações meteorológicas registraram marcas entre 44ºC e 45ºC, valores raramente observados no país.

O dia 23 de junho de 2026 entrou para a história como o mais quente já registrado nacionalmente na França desde pelo menos o início do século XX. A temperatura média nacional aproximou-se de 30ºC, superando recordes históricos anteriores. O antigo recorde nacional pertencia à onda de calor de julho de 2019, quando a média diária atingiu aproximadamente 29,4ºC. Outro episódio emblemático ocorreu em agosto de 2003, mas ambos agora foram ultrapassados pelos eventos deste ano.

Dados preliminares indicam que 135 recordes absolutos de temperatura foram quebrados em apenas um dia na terça (23). Além disso, foram estabelecidos 174 novos recordes mensais, acompanhados por dezenas de igualações de marcas históricas em diferentes localidades francesas.

Entre os destaques, a cidade de Caen alcançou 40,8ºC, superando em mais de cinco graus seu recorde mensal anterior. Cherbourg registrou 37ºC, ultrapassando tanto seu recorde mensal quanto sua máxima absoluta histórica observada anteriormente. La Roche-sur-Yon atingiu impressionantes 42,7ºC, estabelecendo novo recorde absoluto local. Em Bordeaux, os termômetros chegaram a 42,5ºC, renovando mais uma vez o recorde histórico da cidade.

O calor extremo também provocou impactos na infraestrutura. Falhas no fornecimento de energia elétrica foram registradas em diversas áreas da França. No departamento de Finistère, aproximadamente 68 mil residências ficaram sem eletricidade após problemas em transformadores.

No Reino Unido, operadores da rede elétrica alertaram para possíveis dificuldades de abastecimento devido ao aumento da demanda por refrigeração. As vendas de ventiladores e aparelhos de ar-condicionado dispararam em vários países europeus durante a semana.

O setor turístico também sofreu consequências importantes. Monumentos famosos, como a Torre Eiffel e o Museu do Louvre, em Paris, precisaram reduzir horários de funcionamento. Em Bruxelas, o Atomium também adotou medidas para proteger visitantes e funcionários. Empresas e escolas enfrentaram dificuldades para manter suas atividades normais.

Em muitos locais, trabalhadores passaram a atuar remotamente e instituições encerraram atividades antecipadamente devido às condições consideradas perigosas para permanência prolongada em ambientes sem climatização adequada.

Meteorologistas alertam que a onda de calor ainda deve avançar para o Leste europeu nos próximos dias. Países como Croácia e Hungria já emitiram alertas máximos para temperaturas extremas e risco elevado de impactos à saúde. Outro fator de preocupação é o aumento do risco de incêndios florestais. Especialistas franceses alertam para condições favoráveis ao desenvolvimento de secura rápida da vegetação, fenômeno conhecido como “flash drought”, associado a ventos quentes e baixa umidade.