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Marroquino observa os incêndios florestais destruindo uma floresta na região de Chefchaouen, no Norte do Marrocos, em agosto de 2021, durante violenta onda de calor que atingiu os países do Mediterrâneo | FADEL SENNA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

O relatório publicado ontem pelos especialistas em clima da Organização das Nações Unidas (ONU) apresenta um panorama das duras consequências do aquecimento global para as quais a humanidade não está suficientemente preparada. Essas são as principais conclusões do Painel Intergovernamental de Especialistas sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas.

As consequências devastadoras das mudanças climáticas tornaram-se uma realidade para entre 3,3 bilhões e 3,6 bilhões de pessoas, deixando quase metade da população mundial “muito vulnerável”. A temperatura do planeta aumentou, em média, +1,1 °C desde a era pré-industrial, o que já provocou a extinção de várias espécies animais (e o declínio de muitas outras), o aumento de doenças transmitidas por mosquitos, mortes por calor e seca, bem como a perda de colheitas e populações de peixes.


A saúde física e mental dos seres humanos também tem sido afetada. “O aumento dos extremos meteorológicos e climáticos leva a consequências irreversíveis” para a sociedade e a natureza, afirma o IPCC, mas é apenas o começo, advertem os especialistas do IPCC.

Com 1,5 ºC de aquecimento, entre 3% e 14% das espécies terrestres poderiam desaparecer e o número de pessoas expostas a doenças como a dengue aumentaria em bilhões. E, em geral, haveria um “aumento sensível de doenças e mortes prematuras”. Ultrapassar os 1,5 ºC, mesmo que temporariamente, “teria consequências irreversíveis” em alguns ecossistemas fundamentais, como os recifes de coral, os glaciares de montanha e a calota polar.


Até 2050, um bilhão de pessoas poderá viver em áreas costeiras sob risco de submersão, seja qual for a taxa de emissões de gases de efeito estufa. O aumento do nível do mar também agrava o impacto de tempestades e inundações costeiras. Se as águas subirem 75 cm, valor compatível com as projeções em 2100, a população exposta às inundações dobrará.

Atualmente, cerca de 900 milhões vivem em áreas abaixo de 10 metros acima do nível do mar. Entre agora e 2100, o valor da infraestrutura e outros ativos instalados em áreas de risco de inundações excepcionais (“uma a cada 100 anos”) será de 10 bilhões de dólares, em um cenário de emissões moderadas.

Hoje, a questão da adaptação, ou seja, as medidas que podem ser tomadas para limitar ou se preparar para as consequências do aquecimento global, é o tema central do relatório do IPCC. O IPCC alerta que o mundo não está pronto. O aquecimento está indo mais rápido do que as medidas para reduzir suas consequências.

Além disso, “no ritmo atual de planejamento e implementação da adaptação, a lacuna entre o que é necessário e o que está sendo feito continua aumentando”. Possibilidades como recuperar variedades agrícolas mais resistentes, restaurar manguezais ou plantar árvores nas cidades para criar corredores de ar puro podem ser exploradas, mas não há garantias de que funcionem.

O IPCC alerta ainda para os riscos de algumas medidas, que podem ser contraproducentes, no momento em que não há margem para erro. “Há evidências crescentes de má adaptação de muitos setores e regiões”. Por exemplo, a construção de represas para proteção contra inundações costeiras pode criar uma falsa sensação de segurança, desencadeando o desenvolvimento dessas áreas, apesar dos riscos.

O relatório também lança luz sobre mudanças irreversíveis e potencialmente catastróficas nos sistemas climáticos, chamados de “pontos de inflexão”, que podem ocorrer em certos níveis de aumento de temperatura. Especificamente, o derretimento das calotas polares pode liberar água suficiente para elevar o nível dos oceanos em metros. Em curto prazo, regiões como o Nordeste do Brasil, Sudeste da Ásia, Mediterrâneo, Centro da China e quase todas as áreas costeiras podem ser afetadas simultaneamente por vários extremos.

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