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Lápides feitas por manifestantes em Glasgow simbolizam o fracasso do processo COP26 que teve um texto final visto como ambíguo, insuficiente e tímido para enfrentar a ameaça do aquecimento global | PAUL ELLIS/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Um acordo foi alcançado por quase 200 países no sábado em Glasgow durante a COP26 e agora o mundo deve atuar de maneira mais rápida possível para reduzir as emissões de gases do efeito estufa e afastar o cenário de aquecimento global “catastrófico”, advertem cientistas e políticos.

Depois de duas semanas de negociações e que precisaram de um prazo extra, quase todas as nações do planeta concordaram com um compromisso para acelerar a luta contra o aumento da temperatura, mas, embora cada décimo de grau Celsius adicional tenha consequências importantes, as decisões do “Pacto de Glasgow” não resultarão em um aquecimento limitado a 1,5°C na comparação com a era pré-industrial. Esta é a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris, que estabeleceu em 2015 as bases para a ação climática.


“A catástrofe climática continua batendo em nossas portas”, advertiu o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. “Mantivemos + 1,5°C ao nosso alcance (…) mas o pulso está fraco”, declarou o presidente da COP26, o britânico Alok Sharma. “As emissões mundiais devem diminuir de forma imediata, rapidamente, com total urgência”, pois continuam aumentando, implorou Joeri Rogelj, do Imperial College de Londres, antes de destacar que “ciência nunca esteve tão presente nas decisões de uma COP”.

Fechar as centrais de carvão

Glasgow, berço da Revolução Industrial alimentada por carvão, será para sempre a cidade onde pela primeira vez no mais elevado nível, após 26 conferências, as palavras “combustíveis fósseis” e “carvão”, que designam as principais causas do aquecimento global, foram condenadas em um documento.

“Isto acontece muito tarde, mas realmente é bem-vindo”, afirmou Chris Littlecott, especialista em transição energética do grupo de especialistas E3G. “Em 2021 vimos o fechamento da torneira para o financiamento do carvão, a COP26 inaugurou um novo capítulo, o de acelerar o fechamento das centrais elétricas a carvão que ainda existem”.

Incluir as palavras carvão e petróleo foi algo complicado. Índia e China conseguiram no último momento atenuar ainda mais a frase da resolução, que cita a “redução” (phase down) e não “saída” (phase out) do carvão, o que levou Alok Sharma, com lágrimas nos olhos, a pedir desculpas ao mundo.]

A mudança da China aconteceu depois que o país anunciou na quarta-feira um acordo surpreendente com os Estados Unidos, o segundo maior emissor de gases do efeito estufa, atrás apenas do gigante asiático. O presidente americano Joe Biden, que no início da COP criticou o colega chinês, Xi Jinping, por sua ausência em Glasgow, terá uma videoconferência com o líder chinês na segunda-feira. Neste domingo, Sharma declarou à BBC que China e Índia terão que apresentar “explicações” por esta decisão.

“Sofrimentos indescritíveis”

“Pequim deve, no futuro próximo, cumprir com as promessas do acordo climático de Glasgow e fixar uma data para acabar com o uso de carvão em seu território”, de acordo com Byford Tsang, da E3G. “A maneira como os países estabelecerão uma nova cooperação para alcançar ações mais rápidas nos próximos 12 meses será o verdadeiro teste de aprovação de Glasgow”, resume a E3G, que também recorda outras promessas da COP26 a respeito da redução das emissões de metano – poderoso gás de efeito estufa -, do desmatamento ou financiamento das energias fósseis.

“Incentivo aqueles que têm responsabilidades políticas e econômicas a atuar de maneira imediata, com coragem e com visão de futuro”, afirmou o papa Francisco neste domingo após a tradicional oração do Angelus, em uma referência à COP26. “Se todos os países, em particular aqueles que são grandes emissores, se limitarem às políticas de pequenos passos e ‘business as usual’, condenarão as atuais e futuras gerações a viver em um mundo de sofrimentos e danos indescritíveis”, adverte a UCS (Union of Concerned Scientists).

Os sofrimentos já afetam os países mais pobres, que são os menos responsáveis pelo aquecimento global, mas que estão na linha de frente em termos de impacto, e que batalharam em Glasgow para obter financiamento específico para tentar reparar suas “perdas e danos”. Estas nações finalmente cederam, de maneira relutante, e aceitaram prosseguir com o diálogo para que não perder os avanços obtidos na luta contra o aquecimento global.

“Sempre soubemos que Glasgow não era a linha de chegada”, afirmou o enviado norte-americano para o clima, John Kerry. Doze meses “separam” Escócia e Egito, onde acontecerá a 27ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre o Clima (COP27).

Tapando buracos com blá, blá, blá

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anfitrião do encontro, destacou que “o acordo de hoje é um grande passo adiante”, embora admitiu que “ainda resta uma quantidade enorme de coisas a fazer nos próximos anos”. O presidente da Colômbia, Iván Duque, tuitou que o pacto é “um avanço significativo na luta contra a crise climática, mas não é suficiente para alcançar os objetivos globais”.

O documento não define uma data exata, nem valores. “O que este texto está tentando fazer é tapar buracos e iniciar um processo”, especialmente em relação às finanças para adaptação, ou seja, para se precaver diante do que pode acontecer no futuro, explicou Helen Mountford, do World Resources Institute. O texto “é tímido, é fraco e a meta de 1,5ºC mal está viva, mas dá um sinal de que a era do carvão está acabando. E isso é importante”, reagiu Jennifer Morgan, diretora executiva do Greenpeace.

Para a jovem ativista Greta Thunberg, a conferência sobre o clima foi puro “blá-blá-blá”. “O verdadeiro trabalho continua fora dessas salas. E nunca, nunca nos renderemos”, afirmou no Twitter.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou em comunicado que o acordo mantém vivas as metas do Acordo de Paris 2015, “dando-nos a oportunidade de limitar o aquecimento global a 1,5º C”. O pacto “urge os países desenvolvidos a no mínimo duplicar suas contribuições coletivas para a adaptação dos países em desenvolvimento, com base os níveis de 2019, até 2025”.

Os bancos multilaterais deverão colaborar com a missão, e o texto também pede “políticas inovadoras” para atrair capital privado. Mas os países ricos não conseguiram regularizar os US$ 100 bilhões anuais que os países vulneráveis supostamente tinham que receber desde 2020. E esse número era apenas uma base.

O texto reconhece e “lamenta profundamente” esta situação, que necessita urgentemente ser corrigida até 2025. Os países em desenvolvimento querem que o dinheiro a receber a partir de agora seja, de um modo geral, compartilhado igualmente na mitigação das mudanças climáticas (redução das emissões de gases de efeito estufa) e na adaptação ao que está por vir (por exemplo, por meio de represas, diques nas costas, etc.). “Pela primeira vez, uma meta de financiamento para a adaptação foi acordada”, comemorou Gabriela Bucher, da Oxfam.

Alarme entre cientistas

As indenizações por perdas e danos são um capítulo especialmente polêmico porque envolvem Estados, grandes multinacionais (como as petroleiras) e seguradoras. O pacto “decide estabelecer o Diálogo de Glasgow (…) para discutir os preparativos para financiar atividades a fim de evitar, minimizar e reparar danos e perdas”. Esse diálogo deve culminar em 2024.


Por fim, nos debates sobre os combustíveis fósseis, que nunca foram denunciados explicitamente nos documentos oficiais dessas conferências, o fim foi polêmico. O ministro indiano do Meio Ambiente, Bhupender Yadav, argumentou que as nações menos industrializadas, com pouca responsabilidade histórica pelo aquecimento global, têm “direito a sua parte justa do orçamento global de carbono e têm direito ao uso responsável de combustíveis fósseis”. “Como os países em desenvolvimento podem fazer promessas para eliminar os subsídios ao carvão e aos combustíveis fósseis?”, questionou.

Como proposto pela Índia, o texto finalmente menciona a necessidade de acabar com os “subsídios ineficientes para os combustíveis fósseis”, mas, novamente, com atenção às “circunstâncias nacionais particulares”. Desde o Acordo de Paris de 2015, o alarme cresceu e o mundo segue rumo a uma situação “catastrófica” caso não sejam adotadas medidas drásticas, insistem os cientistas. O objetivo fixado em Paris há seis anos era que o aumento da temperatura média global não superasse +2ºC, e de maneira ideal 1,5ºC. Especialistas afirmam que o texto de Glasgow condena o planeta a um aquecimento de até 2,4ºC.

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