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Imagem de satélite da extremidade Sul do comboio principal de veículos blindados e veículos artilharia na rodovia T-1011, a Leste do Aeroporto Antonov, em Kiev, em 28 de fevereiro | MAXAR TECHNOLOGIES/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Desde um comboio militar russo avançando rumo a Kiev até os danos provocados por mísseis e o movimento dos refugiados: no conflito ucraniano, as imagens de satélite de empresas privadas permitem que o público em geral tenha acesso a informações que antes eram reservadas às agências de inteligência.

Estas tecnologias podem atravessar as nuvens e operar de noite, permitindo interpretações quase em tempo real do que acontece no campo de batalha. “Os governos já não são os únicos que produzem dados satelitais de alta precisão”, disse à AFP Craig Nazareth, um ex-oficial de inteligência norte-americana que se tornou acadêmico da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos.


Graças ao grande crescimento da indústria de satélites privados, o volume de imagens é maior e o tempo de resposta é mais rápido em comparação com conflitos anteriores, como a anexação da Crimeia por parte da Rússia em 2014. A maioria das nações ocidentais tem seus próprios satélites, mas esta informação é secreta, ao contrário do que acontece com as empresas privadas.

As imagens de terceiros ajudam a dar credibilidade às afirmações dos governos, incluídos os de Estados Unidos e Reino Unido, que geraram maior desconfiança pública desde a guerra do Iraque de 2003. Os políticos podem dizer: “Olha, não somos nós, isto realmente está acontecendo, não estamos inventando”, comentou Nazareth.


Além de ajudar a dar forma à narrativa, as imagens estão destinadas principalmente a assistir as forças ucranianas no terreno. “A Capella Space está trabalhando diretamente com os governos de Estados Unidos e Ucrânia […] para proporcionar dados atualizados e assistência no conflito atual”, disse à AFP o chefe da empresa, Payam Banazadeh.

As imagens feitas por esta startup de São Francisco ajudaram um grupo de investigadores independentes a perceber que a invasão da Ucrânia tinha começado uma hora antes que o presidente russo Vladimir Putin anunciasse a “operação militar”, na madrugada de 24 de fevereiro.

Antes do discurso de Putin, Jeffrey Lewis, do Instituto Middlebury na Califórnia, detectou uma sinalização de engarrafamento no Google Maps, onde a Capella Space tinha visto um comboio militar. Segundo ele, provavelmente eram civis russos bloqueados pelos controles de trânsito estabelecidos para deixar o comboio passar.

Apesar de a maior parte dos satélites de imagens necessitar de luz diurna e céu limpo, os equipamentos da Capella Space funcionam em todos as condições meteorológicas, graças a uma tecnologia chamada SAR (Synthetic Aperture Radar). O SAR “penetra nas nuvens e na fumaça, inclusive durante tempestades e incêndios muito grandes, por isso podemos capturar imagens claras e precisas da Terra em quase qualquer condição”, afirma Dan Getman, vice-presidente de produtos da companhia. A tecnologia existe há tempo, mas só foi introduzida no setor privado há pouco tempo.

Outra empresa cujas imagens foram bastante utilizadas pelos meios de comunicação é a BlackSky, que publicou o que acredita ter sido um dos primeiros enfrentamentos da guerra: um ataque à central térmica de Luhansk pouco depois das 16h locais de 23 de fevereiro. Nas órbitas tradicionais, de Norte a Sul, um satélite conseguia tirar duas fotos de um lugar determinado por dia, mas a BlackSky faz seu hardware girar em sentido contrário ao da rotação do planeta, o que permite que ele passe pela mesma área com mais frequência. As imagens são enviadas aos clientes em 90 minutos e um software que utiliza inteligência artificial ajuda a interpretá-las.

Talvez, a imagem mais chamativa do conflito até agora tenha sido a do comboio russo de 64 quilômetros de comprimento, capturada pela Maxar, a “decana da indústria”, segundo Chris Quilty, da consultoria especializada Quilty Analytics. Ao contrário dos satélites tradicionais que só apontam para baixo, os da Maxar têm giroscópios que os permitem girar e apontar com mais precisão.

Por sua vez, a Planet, que trabalha com governos, organizações intergovernamentais e meios de comunicação, publicou imagens mostrando comparações de antes e depois dos ataques. “Pontes derrubadas. Aviões destruídos. Continuaremos trazendo isso à tona”, tuitou na quinta-feira o cofundador e diretor-executivo da Planet, Will Marshall.

O governo norte-americano é um dos principais clientes da Maxar e, por isso, decide quais áreas observar, o que explica o tempo dedicado atualmente à Ucrânia. Contudo, a divulgação seletiva das imagens também poderia levantar questões éticas.

A Maxar e outras empresas “estão capturando inevitavelmente imagens de movimentos de tropas ucranianas e posições defensivas, e esta informação não é divulgada para o público”, disse Quilty. Assim, segundo ele, “há sem dúvida uma capacidade de influenciar a narrativa, em função das imagens disponíveis”.

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