Porto Alegre enfrentou em junho de 1984 uma grande enchente que assolou também outras regiões do Rio Grande do Sul com mortes e muitos prejuízos. A área metropolitana foi duramente castigada pelas inundações com mais de vinte mil desabrigados numa época em que cidades da Grande Porto Alegre, ainda não possuíam sistemas de combate às cheias. A enchente foi tão grande que levou o então prefeito de Porto Alegre João Dib a determinar o fechamento do portão do muro da Mauá no Cais Central pela primeira vez, o que somente viria a se repetir em outubro de 2015.

Foi uma grande enchente a de junho de 1984. Apesar dos jornais da época noticiarem que o nível do Guaíba passou de 2,65 metros no Cais Mauá, os registros oficiais da Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH) mostram uma cota máxima de 2,60 metros. 

O então prefeito cancelou uma viagem programada para o interior do Estado e se dirigiu para o Cais Central na Avenida Mauá pela subida muito acelerada do nível do Guaíba em razão do represamento provocado pelo forte vento do quadrante Sul. 

Assim como agora ocorre em grandes enchente nas ilhas de Porto Alegre, a população carente foi a que mais sofreu com a cheia de 1984. Moradores da Vila dos Sargentos, na zona Sul da Capital, tiveram muitos prejuízos com a inundação. Alguns tiveram que deixar as suas casas. A maioria resistiu em sair. 

O Guaíba transbordou nos clubes náuticos e, como ocorre em todas as grandes cheias, as suas águas refluíram pela rede de esgotos na área central da cidade e no Quarto de Distrito. Assim como se viu nas enchentes do Super El Niño de 2015/2016, em 1984 também houve alagamentos na Estação Rodoviária e na Avenida Voluntários da Pátria e suas transversais. 

Em 1984, muitas cidades da Grande Porto Alegre não possuíam sistemas de prevenção e combate a cheias como os existentes hoje, notadamente os diques de proteção erguidos em São Leopoldo, Novo Hamburgo e outros municípios.

Isso fez com que a situação se tornasse crítica em cidades próximas de Porto Alegre. Em Cachoeirinha, a elevação do Rio Gravataí, represado pela subida do Guaíba, inundou residências, comércios e fábricas. Uma pessoa morreu. 

A situação mais grave, entretanto, se deu no Vale do Sinos. E foi dramática. Mais de vinte mil pessoas tiveram que deixar as suas casas na cidade de São Leopoldo. Em Novo Hamburgo, um homem morreu nas enchentes.

O então prefeito de São Leopoldo Valdir Schmidt sobrevoou o município inundado e em entrevista ao jornal Zero Hora disse que não era possível fazer a distinção do leito do Rio dos Sinos. “É tudo água”, declarou à época.

Foram três meses de chuva muitíssimo acima da média em Porto Alegre, repetindo o padrão (não os volumes) da enchente de abril e maio de 1941. Em 1974, a Capital teve 243,9 mm em abril; 268,6 mm em maio e 340,1 mm em junho. Em Caxias do Sul, como referência para os rios que nascem na Serra ou junto à região serrana e desembocam no Guaíba e na Grande Porto Alegre (Sinos e Caí), abril teve 198,6 mm; maio bateu em 202,2 mm e junho foi a 355,9 mm. Já Santa Maria, no Centro do Estado, como referência regional para o Jacuí (passa por Cachoeira do Sul e não Santa Maria), registrou 384,3 mm em abril; 471,4 mm em maio e 341,1 mm em junho.

Outono excepcionalmente chuvoso com índices de precipitação muito acima da média criou as condições para as grandes enchentes de junho de 1984

Em Porto Alegre, o acumulado em 24h de chuva até 9h do dia 19 de junho de 1984 foi de 60,7 mm. No dia seguinte, 73,3 mm. No começo do mês, entre os dias 2 e 6, a Capital já havia anotado chuva volumosa com alturas diárias de 11,5 mm no dia 3; 35,7 mm no dia 4, 39,6 mm no dia 5 e 30,1 mm no dia 6. 

A análise das imagens de satélite dos dias 18 e 19 de junho de 1984 mostra uma sistema semi-estacionário sobre o Rio Grande do Sul com nuvens mais carregadas do Centro para o Leste gaúcho, atingindo Porto Alegre. As características pela sequência de imagens mostram um sistema frontal de características quentes em algum momento, fenômeno típico de junho e que explica os elevados volumes. A imagem reproduzida é das 18h (21Z) de 18 de junho de 1984.  

Em julho de 2015, quando o Guaíba enfrentava naquele momento a maior cheia desde 1984, o seguidor da MetSul nas redes sociais Maurício Maciel enviou fotografias que fez com a sua família na cidade de Guaíba na enchente de 1984, repetindo as fotos na enchente de 2015.

*Colaborou para este material com o arquivo de jornais do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa o pesquisador André Kruse