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O supertufão Sinlaku avança pelo Pacífico Oeste sobre águas excepcionalmente quentes e surge como mais um forte indicativo de que o El Niño está próximo e pode ser forte a intenso nos próximos meses com o fenômeno de aquecimento do oceano trazendo grande impacto no clima do Sul do Brasil com excesso de chuva, riscos de enchentes e muitos temporais na Região Sul e intensas ondas de calor no Centro-Oeste e no Sudeste.

Tufão nas Ilhas Guam

JTWC

As temperaturas da superfície do mar na região do Pacífico onde atua o tufão (com força de um furacão categoria 5) estão muito acima da média, fornecendo grande quantidade de energia para o ciclone tropical.

O calor latente do oceano em excesso permite que ciclones tropicais se organizem rapidamente e alcancem níveis extremos de intensidade. Foi exatamente o que ocorreu com Sinlaku, que passou por uma intensificação explosiva ao atingir força equivalente à categoria 5 em pouco mais de um dia.

O supertufão não oferece risco algum ao Brasil, por estar no Pacífico e no outro lado do mundo, mas as condições oceânicas em que se formou são um prenúncio de El Niño nos próximos meses com profundo impacto no clima brasileiro.

Por quê? O cenário de aquecimento no Pacífico Oeste não é isolado. Ele faz parte de uma reorganização maior do sistema climático que está em curso, típica dos períodos que antecedem episódios de El Niño. À medida que o fenômeno se desenvolve, há uma redistribuição de calor no oceano, com impactos diretos na atmosfera.

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O fortalecimento de Sinlaku ocorre justamente dentro deste cenário de mudança que está em andamento. A presença de águas muito quentes e de uma atmosfera instável cria condições ideais para a formação de ciclones mais potentes. Esse tipo de ambiente tende a se tornar mais frequente à medida que o El Niño ganha força.

Outro aspecto que acende o alerta é o período do ano em que o supertufão se formou. A ocorrência de um tufão tão intenso nessa época sugere que a temporada pode ser mais ativa do que o normal. Em anos de El Niño, há maior probabilidade de formação de sistemas fortes no Pacífico, especialmente na sua porção Oeste.

Em outras palavras, o supertufão não é um evento isolado, mas parte de um cenário maior. A presença de águas mais quentes no Pacífico Oeste com um tufão mais cedo e mais intenso do que o normal para esta época do ano acompanha um “estoque” de águas quentes no Pacífico que é um preditor de El Niño.

Região onde supertufão se formou carrega a energia para o El Niño

Há neste momento uma grande “piscina” de águas quentes no Pacífico Oeste, próxima à Indonésia e à Austrália. Durante a La Niña, os ventos alísios se intensificam e empurram ainda mais água quente para essa região, criando um acúmulo de calor na superfície do mar.

Mapa de temperatura do Pacífico

Grande bolsão de águas quentes presente no Pacífico Oeste | NOAA

Esse equilíbrio, porém, se rompe quando os ventos alísios enfraquecem ou ocorrem os chamados estouros de vento de Oeste. Esses eventos deslocam a água quente acumulada em direção ao Centro e ao Leste do Pacífico por meio de ondas de Kelvin, que funcionam como pulsos de energia no oceano. Com isso, a água quente passa a ocupar áreas onde antes predominavam águas frias.

Esse deslocamento de calor marca o início de um episódio de El Niño, com a formação de uma faixa de águas quentes ao longo do Pacífico equatorial. A mudança altera a circulação atmosférica global, provocando secas em algumas regiões e chuvas intensas em outras. Assim, o que começa no Oceano Pacífico acaba influenciando o clima em escala planetária, inclusive no Brasil.

O que é El Niño

Um evento de El Niño ocorre quando as águas da superfície do Pacífico Equatorial se tornam mais quente do que a média e os ventos de Leste sopram mais fracos do que o normal na região. A condição oposta é chamada de La Niña. Durante esta fase, a água está mais fria que o normal e os ventos de Leste são mais fortes. Os episódios de El Niño, normalmente, ocorrem a cada 3 a 5 anos.

El Niño, La Niña e neutralidade trazem consequências para pessoas e ecossistemas em todo o mundo. As interações entre o oceano e a atmosfera alteram o clima em todo o planeta e podem resultar em tempestades severas ou clima ameno, seca ou inundações. Tais alterações no clima podem produzir resultados secundários que influenciam a oferta e os preços de alimentos, incêndios florestais e ainda criam consequências econômicas e políticas adicionais. Fomes e conflitos políticos podem resultar dessas condições ambientais mais extremas.

Ecossistemas e comunidades humanas podem ser afetados positiva ou negativamente. No Sul do Brasil, La Niña aumenta o risco de estiagem enquanto El Niño agrava a ameaça de chuva excessiva com enchentes. Historicamente, as melhores safras agrícolas no Sul do país se dão com El Niño, embora nem sempre, e as perdas de produtividade tendem a ser maiores sob La Niña. O El Niño agrava o risco de seca no Nordeste do Brasil enquanto La Niña traz mais chuva para a região.

A origem do nome data de 1800, quando pescadores na costa do Pacífico da América do Sul notavam que uma corrente oceânica quente aparecia a cada poucos anos. A captura de peixes caía drasticamente na região, afetando negativamente o abastecimento de alimentos e a subsistência das comunidades costeiras do Peru. A água mais quente no litoral coincidia com a época do Natal.

Referindo-se ao nascimento de Cristo, os pescadores peruanos, então, chamaram as águas quentes do oceano de El Niño, que significa “o menino” em espanhol. A pesca nesta região é melhor durante os anos de La Niña, quando a ressurgência da água fria do oceano traz nutrientes ricos vindos do oceano profundo, resultando em um aumento no número de peixes capturados.