O Chile enfrenta um dos mais severos episódios de chuva das últimas décadas, com um desastre que já deixou cinco mortos, quatro desaparecidos e cerca de 100 mil pessoas isoladas pela atuação de um poderoso rio atmosférico. A tragédia levou o governo a decretar estado de catástrofe em parte do país, enquanto um novo sistema frontal ameaça agravar ainda mais uma situação que já é considerada excepcional pelas autoridades e meteorologistas.

LUCAS AGUAYO ARAOS/ANADOLU/AFP/METSUL
A sequência de tempestades começou na última semana no Sul do Chile, mas rapidamente avançou para o Centro e o Norte do país. O maior impacto ocorre nas regiões de Coquimbo e Atacama, áreas de clima desértico onde precipitações tão volumosas são extremamente raras e normalmente acontecem apenas em circunstâncias muito incomuns.
Segundo a Direção Meteorológica do Chile, o país não registrava uma sequência de tempestades tão extensa e persistente havia cerca de vinte anos. Além da longa duração do evento, chamam atenção os elevados acumulados de chuva em regiões que figuram entre as mais secas do planeta, como o Atacama.
A configuração atmosférica favoreceu a formação de um sistema frontal muito ativo, alimentado por grande disponibilidade de umidade e sucessivas áreas de instabilidade dentro de um rio atmosférico. O resultado foi chuva intensa durante vários dias consecutivos, com acumulados que superaram amplamente a média climatológica de julho em diversas localidades chilenas.
Em Coquimbo, uma das áreas mais atingidas, rios transbordaram rapidamente e invadiram bairros inteiros. A enxurrada cobriu ruas com lama, destruiu veículos, inundou residências e obrigou centenas de famílias a abandonarem suas casas em busca de locais seguros.
O governador regional, Cristóbal Juliá, afirmou que a situação é muito mais grave do que a registrada em 1997, até então considerado o principal episódio de chuva intensa na região. Segundo ele, muitas famílias perderam praticamente tudo e dependem agora da ajuda das equipes de emergência.
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As enchentes destruíram pontes, romperam aterros e bloquearam dezenas de rodovias em diferentes regiões do país. Como consequência, aproximadamente 100 mil pessoas permanecem isoladas, sem acesso terrestre, dificultando o transporte de alimentos, medicamentos, combustíveis e equipes de socorro.
As operações de resgate passaram a utilizar helicópteros militares para alcançar comunidades completamente cercadas pelas águas ou pela destruição das estradas. Em muitos locais, máquinas trabalham de forma ininterrupta para remover toneladas de lama, pedras e árvores que bloquearam os principais acessos.
O presidente José Antonio Kast decretou estado de catástrofe nas regiões mais afetadas. A medida permite ampliar a atuação das Forças Armadas, acelerar a distribuição de ajuda humanitária e facilitar a mobilização de equipamentos e recursos para enfrentar a emergência.
O balanço oficial pelo rio atmosférico aponta cinco mortos e quatro desaparecidos, números que podem aumentar à medida que as equipes conseguem acessar localidades ainda isoladas. Aproximadamente 20 mil pessoas precisaram deixar suas residências devido às enchentes, aos deslizamentos e ao elevado risco de novos desastres.
Mais de 1.100 imóveis foram destruídos ou sofreram danos estruturais severos. Em muitas cidades, bairros inteiros permanecem cobertos por lama, enquanto moradores tentam retirar água e recuperar parte dos bens perdidos após a passagem das enxurradas.
Segundo o vice-ministro do Interior, Máximo Pavez, o episódio pode ser classificado como um evento de precipitações “anormal e extremo”. Em algumas cidades, choveu em apenas uma hora o equivalente ao volume normalmente esperado para um mês inteiro.
Volumes tão elevados em um intervalo tão curto provocaram enchentes repentinas e sobrecarregaram completamente os sistemas urbanos de drenagem. Em muitos municípios, galerias pluviais não conseguiram escoar a água, agravando rapidamente as inundações nas áreas urbanas.
Além da chuva torrencial, ocorreram numerosos deslizamentos de terra em áreas montanhosas. Em Viña del Mar, um grande escorregamento destruiu parte de uma rodovia, enquanto outros movimentos de massa interditaram importantes ligações rodoviárias em diferentes regiões chilenas.
O fornecimento de energia elétrica também foi fortemente afetado. Entre 150 mil e mais de 250 mil consumidores ficaram sem luz em diferentes momentos da crise, consequência da queda de postes, rompimento de cabos e danos provocados pelas enchentes.
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O abastecimento de água potável sofreu interrupções em várias cidades devido à elevada turbidez dos rios e aos danos nas estruturas de captação e tratamento. Caminhões-pipa passaram a atender parte da população enquanto as concessionárias trabalham para restabelecer os serviços.
A empresa Aguas del Valle informou que parte de sua infraestrutura foi danificada pelas enchentes. Em algumas áreas, equipes precisaram interromper os trabalhos devido às condições de segurança, uma vez que permanecia elevado o risco de novos deslizamentos.
Os ventos também contribuíram para ampliar os prejuízos. Rajadas superiores a 100 km/h foram registradas em diversas localidades, provocando destelhamentos, queda de árvores e novos danos à rede elétrica, além de dificultarem os trabalhos das equipes de emergência.
As condições marítimas deterioraram-se rapidamente durante a passagem do sistema frontal. Como medida preventiva, dezenas de portos restringiram parcial ou totalmente suas operações diante do mar muito agitado e das fortes rajadas observadas ao longo da costa.
As autoridades também suspenderam as aulas em diversas regiões atingidas e mantêm alerta vermelho em áreas com elevado risco de novos deslizamentos, enxurradas e transbordamentos de rios. Moradores receberam orientação para seguir rigorosamente as determinações dos órgãos de emergência.
A preocupação permanece elevada porque um novo sistema frontal deverá atingir o Chile nas próximas horas. Com o solo completamente encharcado, qualquer novo volume significativo de chuva poderá provocar novas enchentes, ampliar os deslizamentos e dificultar ainda mais os trabalhos de recuperação.