O El Niño que se desenvolve no Pacífico tropical ganhou força rapidamente e poderá se transformar no evento mais intenso já observado na memória recente, com possibilidade de ser o mais forte desde o século 19. A avaliação é do Met Office, serviço meteorológico do Reino Unido.

NOAA
O fenômeno já chama atenção pela velocidade com que as águas do Pacífico equatorial estão aquecendo. O El Niño foi oficialmente declarado em junho, mas desde então as temperaturas da superfície do mar continuaram subindo. Como o fenômeno normalmente atinge seu auge entre o fim do outono e o início do inverno do Hemisfério Norte, existe ainda espaço para um fortalecimento significativo nos próximos meses.
Segundo o Met Office, as projeções do seu modelo GloSea indicam temperaturas superiores a 3°C acima da média na região Niño 3.4, uma das principais áreas utilizadas para acompanhar a intensidade do El Niño. O valor seria excepcionalmente elevado e colocaria o episódio em uma categoria informalmente chamada de Super El Niño.
Em eventos considerados fortes, a temperatura do Pacífico tropical leste costuma ficar entre 1°C e 2°C acima da média. Uma anomalia de 2°C já é considerada muito significativa. Uma previsão próxima de 3°C, portanto, representaria um salto para um patamar muito mais raro.
Adam Scaife, responsável pela previsão de longo prazo do Met Office, classificou o cenário como sem precedentes. Segundo ele, nunca havia observado nos modelos uma sinalização de El Niño tão intensa. Se as projeções se confirmarem, o episódio de 2026 poderá superar amplamente os eventos mais fortes registrados nas últimas décadas.
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Os últimos grandes El Niños ocorreram em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016. Esses episódios provocaram alterações importantes nos padrões de temperatura e chuva em diversas regiões do planeta. O fenômeno de 2026, contudo, poderá alcançar um nível ainda mais elevado.
O El Niño ocorre quando uma grande quantidade de água quente que normalmente fica acumulada no Pacífico ocidental se desloca em direção ao centro e ao leste do oceano. O aquecimento modifica a maneira como o calor é transferido do oceano para a atmosfera e altera grandes padrões de circulação atmosférica.
Essas mudanças não ficam restritas ao Pacífico. O El Niño pode modificar a posição e a intensidade de correntes de jato, deslocar áreas de chuva e alterar a trajetória de sistemas meteorológicos em diferentes continentes.
Alguns efeitos já começam a aparecer. O regime de monções da Índia apresenta precipitação abaixo do normal, enquanto determinadas regiões da América Central, do oeste do Pacífico e da América do Sul tropical também estão entre as áreas que podem enfrentar maior risco de chuva abaixo da média.
O fenômeno também interfere na atividade de ciclones tropicais. No Atlântico Norte, o aumento do cisalhamento do vento associado ao El Niño tende a dificultar a formação e o fortalecimento de furacões. No Pacífico, entretanto, as condições podem favorecer maior atividade de tempestades tropicais.
Na América do Sul, os efeitos são especialmente relevantes porque a resposta ao El Niño varia bastante conforme a região e a época do ano. O aquecimento do Pacífico altera a circulação atmosférica e pode modificar a distribuição das chuvas, aumentando a precipitação em algumas áreas enquanto favorece períodos mais secos em outras.
O impacto sobre a temperatura global também é uma das principais preocupações. Grandes episódios de El Niño liberam uma quantidade maior de calor armazenado no oceano para a atmosfera. Esse processo tende a elevar a temperatura média do planeta, principalmente no ano seguinte ao pico do fenômeno.
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Por isso, o Met Office considera que 2027 tem grande probabilidade de superar 2024 como o ano mais quente já registrado. O serviço meteorológico britânico também projeta que 2027 poderá registrar novamente uma temperatura média global temporariamente superior a 1,5°C acima do período pré-industrial.
O impacto ocorre sobre um planeta que já está mais quente devido ao aquecimento provocado pelas atividades humanas. Dessa forma, o El Niño não é responsável sozinho pelos recordes de temperatura, mas acrescenta um impulso natural ao aquecimento de fundo provocado pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa.
O cenário ganha importância adicional porque os oceanos também estão registrando temperaturas excepcionais. Em 22 de agosto, a temperatura média da superfície dos oceanos atingiu 21,10°C, segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, superando o recorde anterior de 21,09°C registrado em março de 2024.
A combinação de um planeta já aquecido com um El Niño potencialmente extraordinário aumenta a possibilidade de novos recordes climáticos nos próximos meses.
Ainda existe incerteza sobre o pico definitivo do fenômeno. Previsões de longo prazo podem mudar conforme novas observações do oceano e da atmosfera são incorporadas aos modelos. Mesmo assim, a convergência entre diferentes sistemas de previsão reforça a preocupação com a intensidade excepcional que o El Niño poderá alcançar.