O El Niño de 2026 já entrou em uma categoria de enorme intensidade excepcional, mas os sinais observados no Pacífico equatorial indicam que o fenômeno ainda está longe do seu auge, previsto para o fim do ano. Dados mostram águas com anomalia de 10°C abaixo da superfície.

Gráfico de temperatura do mar abaixo da superfície que intensifica o El Niño

Temperatura do mar chega a estar 10ºC acima do normal em profundidade no Pacífico | METSUL

O que chama atenção neste momento não é apenas o calor extraordinário na superfície do oceano, mas principalmente a enorme quantidade de água quente acumulada abaixo dela. É a reserva de calor subsuperficial que irá alimentar nova etapa de intensificação nas próximas semanas.

Na última semana, a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera, a NOAA, agência de clima do governo dos Estados Unidos, publicou que existe 95% de probabilidade de um El Niño muito forte (anomalias acima de 2ºC no Pacífico Equatorial Centro-Leste), mas a realidade é que o Pacífico já está em Super El Niño há mais de um mês.

Então, por que a NOAA ainda não considera Super El Niño. A explicação está em critério de monitoramento e o tradicional conservadorismo em suas projeções. Durante muitos anos, a NOAA usou como critério de monitoramento o chamado ONI (Oceanic Niño Index), que mede a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 em relação à média climatológica, mas neste ano passou a usar o RONI (Relative Oceanic Niño Index), que faz um ajuste para descontar o aquecimento global nos oceanos.

Isso determina que o RONI tenha anomalias menores que as ONI, índice usado por décadas e que é utilizado ainda maciçamente por meteorologistas no mundo todo. Pacífico Equatorial Centro-Leste jamais esteve tão quente

De acordo com o mais recente informe semanal da NOAA, a anomalia pelo índice ONI na chamada região Niño 3.4, está em +2,7ºC (muito forte ou Super El Niño). Já pelo índice RONI, a anomalia está em +1,8ºC (forte). Uma vez que o índice tradicional ONI já chega neste momento a +2,7ºC, o valor supera os picos dos principais eventos de El Niño das últimas décadas e se aproxima do recorde histórico, só 0,3ºC abaixo do máximo observado.

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Oceano tem uma espécie de “bateria” de calor

Para entender por que o El Niño pode continuar ganhando força sem parar, é preciso olhar para além da superfície. O Pacífico equatorial funciona como um gigantesco reservatório de energia. Em condições normais, os ventos alísios sopram predominantemente de Leste para Oeste e empurram a água quente superficial em direção à Indonésia e à Austrália. No lado Leste do Pacífico, junto à América do Sul, esse mecanismo favorece a subida de águas mais frias das profundezas.

Durante um El Niño, esse equilíbrio é alterado. Os ventos de Leste enfraquecem e podem ocorrer episódios de ventos de Oeste, conhecidos internacionalmente como westerly wind bursts, ou WWB. Esses pulsos de vento são importantes porque modificam a circulação do oceano e ajudam a empurrar enormes volumes de água quente para leste. É exatamente esse mecanismo que ajuda a explicar o atual comportamento do Pacífico.

Um WWB pode parecer apenas um episódio de vento, mas seus efeitos podem continuar por semanas ou meses. Quando ventos de Oeste persistem sobre o Pacífico equatorial ocidental e central, eles transferem energia para o oceano e alteram a posição da termoclina, a camada de transição entre águas superficiais mais quentes e águas profundas mais frias.

O resultado pode ser o desenvolvimento de uma onda de Kelvin oceânica de subsidência, que se desloca de oeste para leste junto ao equador. A onda transporta calor subsuperficial para o Pacífico central e oriental. Em outras palavras, o vento funciona como um mecanismo capaz de movimentar a “bateria” de calor armazenada no oceano. E há um aspecto particularmente importante agora: o reservatório subsuperficial já está excepcionalmente quente.

Por que 10°C abaixo da superfície é tão importante?

Uma anomalia de 10°C não significa que exista uma camada inteira do Pacífico com água 10°C mais quente do que o normal. Trata-se de uma diferença localizada em relação à climatologia, em determinada profundidade e região.

Ainda assim, o número revela algo extraordinário: existe uma enorme quantidade de calor acumulada abaixo da superfície. A NOAA registrou em agosto que a termoclina está mais profunda que o normal e que as temperaturas subsuperficiais apresentam anomalias de até aproximadamente 10°C. O índice de conteúdo de calor subsuperficial do Pacífico equatorial também aumentou durante julho.

Essa configuração é importante porque a água quente que está abaixo da superfície não permanece necessariamente ali. Mudanças na circulação oceânica podem fazer parte desse calor migrar para camadas superiores, elevando a temperatura da superfície. É aí que aparece um mecanismo de retroalimentação.

Um círculo que pode alimentar o próprio El Niño

Mais calor na superfície significa maior evaporação e mais energia disponível para a atmosfera. A convecção e as tempestades tropicais aumentam sobre as áreas mais quentes do Pacífico.

A alteração da convecção modifica a circulação atmosférica e pode favorecer novas mudanças nos ventos equatoriais. Se surgirem novos episódios de ventos de Oeste, eles poderão novamente transferir energia para o oceano e ajudar a transportar mais água quente para leste. Forma-se, portanto, uma espécie de círculo de realimentação entre oceano e atmosfera:

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Mais calor no oceano, mais convecção, mudanças nos ventos, mais transporte de calor para Leste, superfície ainda mais quente e El Niño mais intenso.

O processo não funciona indefinidamente nem de maneira automática. Depende da continuidade dos padrões de vento, da convecção tropical e de outros componentes da circulação atmosférica. Mas, no momento, os sinais observados são favoráveis à continuidade do fortalecimento.

O pico ainda está distante

O ponto fundamental é que existe uma defasagem entre o que acontece no oceano profundo e o que aparece na temperatura da superfície. O calor acumulado abaixo da superfície pode levar semanas para ser redistribuído. Por isso, El Niño que já apresenta temperaturas superficiais muito elevadas pode continuar ganhando força mesmo depois de ter atingido níveis considerados muito intensos.

É como se o oceano tivesse acumulado combustível antes de o fenômeno atingir seu pico atmosférico. Se os atuais episódios de ventos de Oeste continuarem ou novos WWBs ocorrerem, o que modelos numéricos indicam, poderão surgir novas ondas de Kelvin e mais transporte de água quente para o Pacífico central e oriental. Isso poderia elevar ainda mais as temperaturas superficiais e prolongar a fase de intensificação.

Essa combinação explica por que, mesmo diante de um El Niño que já é muito intenso, existe combustível oceânico e dinâmica atmosférica suficientes para que o fenômeno ainda se fortaleça.

O grande ponto de atenção das próximas semanas será justamente observar se o calor acumulado nas profundezas continuará sendo transferido para a superfície e se os ventos de Oeste continuarão alimentando o processo. Se isso ocorrer, e a tendência é muito alta, o El Niño poderá chegar ao fim de 2026 muito mais forte do que está agora e com capacidade de produzir alterações importantes na circulação atmosférica e nos padrões de chuva e temperatura em várias partes do planeta.