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Por que eu? Por Lincoln Muniz Alves

Nesta semana, como costumeiramente faço para me locomover na cidade, utilizei um aplicativo de transporte de passageiros e lá pelas tantas o motorista comenta que depois de muito tempo ele assistiu ao noticiário que só falava da pandemia do coronavírus, política e de “um tal relatório que o mundo iria acabar”.


Escutava ansiosamente até onde ele queria chegar com aquele papo e pensava comigo será que ele percebeu que sou um estudioso da ciência do clima e participei desse relatório?

Depois de alguns minutos de silêncio, perguntei se esse tal relatório que ele falou não era do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, mais conhecido pelo acrônimo do IPCC.

Prontamente, ele respondeu que escutou esse nome. Continuei… você acha que estamos vivenciando uma mudança do clima? Ele olha pelo retrovisor desconfiado e responde que percebe que as estações do ano já não são mais iguais a da época que ele chegou em São Paulo quando veio do interior da Paraíba devido às secas.

Neste momento, me apresento como um dos 234 autores dos 65 países que participaram na elaboração desse tal relatório. Novamente olha pelo retrovisor, mas agora com uma feição de espanto.

Logo explico que não é o fim do mundo, mas os principais resultados desse relatório são realmente preocupantes porque revelam que a mudança do clima já está afetando todas as regiões do planeta, de múltiplas formas, sem precedentes em milhares de anos e que essas mudanças que estamos experimentando irão aumentar com o aumento do aquecimento global.

Na sua humildade ele pergunta: Mas o que é aquecimento global?

Respondo: É um aumento na temperatura média do planeta considerando um longo período de tempo causado pelas emissões de gases de efeito estufa (GEEs) oriundas das atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis, desmatamento, etc.

E ai continuo na explicação: este relatório analisou mais de 14,000 estudos científicos e afirma categoricamente que a influência humana está tornando os eventos climáticos extremos, como ondas de calor, aumento do nível do mar nas cidades costeiras, chuvas fortes e secas, mais frequentes e severas..

Fadel Senna/AFP/MetSul Meteorologia

Bruno Fahy/AFP/MetSul Meteorologia

Paul J. Richards/AFP/MetSul Meteorologia

Esse relatório, também mostra, que algumas dessas mudanças já são irreversíveis, como o derretimento de lugares com gelo permanente. Mas outros impactos podem ser retardados, ou amenizados, com a ajuda de todos os níveis de governos, empresas e nós como sociedade.

Outro exemplo é que quando falamos em aumento da temperatura média no planeta, essa temperatura já aumentou cerca de 1,1oC. Mas, nos continentes, onde está a população no mundo, essa temperatura aumentou cerca de 1,6oC.

Lembra quando o senhor disse que percebeu que as estações do ano não são mais como eram 40 anos atrás quando chegou a São Paulo? Então, esse é um efeito das mudanças que ocorreram no clima juntamente com o crescimento da cidade.

Além do relatório fornecer uma compreensão atualizada e abrangente do clima e das mudanças climáticas, ele também informa como as temperaturas e padrões de chuvas e outras variáveis ambientais mudarão até o final do século.

Essas informações são importantes para os formuladores de políticas e setores como agrícola, recursos hídricos, energia e saúde para orientar suas estratégias e planos futuros para essa nova realidade. Onde eventos semelhantes à seca da região sudeste e do Pantanal devem ser mais frequentes e graves em um mundo em aquecimento e se as emissões de gases de efeito estufa continuarem.

O bom de tudo isso é que com a tecnologia na palma de nossas mãos podemos ter acesso a todas essas informações. Juntamente com o relatório o IPCC lançou também um Atlas Interativo que permite analisar através de mapas, gráficos e tabelas as principais conclusões de todos os capítulos do relatório.

Você vai ver que as mudanças climáticas não são apenas uma questão de temperatura. Elas causam mudanças em vários aspectos, em diferentes regiões que irão aumentar progressivamente.

Cada 0,5°C adicional de aquecimento global causa aumentos claramente perceptíveis na intensidade das chuvas, bem como secas agrícolas em várias regiões e tudo isso com uma alta confiança.

Ele avisa que chegamos ao destino.
Agradeço e antes de descer do automóvel digo que ele deveria de fato se preocupar com a mudança do clima. Ele olha espantado novamente e pergunta:

Por que eu?

Porque para se preocupar com as mudança climáticas e apoiar a ação climática, você não precisa ser um cientista, um ativista ou um cidadão de uma das ilhas que serão engolidas pela elevação do nível do mar nos próximos anos.

Você simplesmente tem que ser um ser humano, vivendo aqui neste planeta. E nós somos tudo isso. E não só porque vivemos nele, mas principalmente, porque somos os únicos responsáveis por ele.


Lincoln Muniz Alves é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (INPE) e autor líder do Grupo de Trabalho 1 (WG1) do Sexto Relatório de Avaliação (AR6), do IPCC

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