Frio extremo na América do Norte contraria o aquecimento do planeta e as mudanças no clima alertadas pelos cientistas? Ao contrário. A forte tempestade de inverno que atingiu grande parte dos Estados Unidos entre sexta-feira e o começo desta segunda, e já deixou ao menos 24 mortos em 14 estados, é uma evidência de clima mais extremo com o aquecimento recorde do Ártico.

AMID FARAHI/AFP/METSUL
O sistema trouxe neve intensa ao Norte e Nordeste do país e chuva congelante e gelo ao Sul, causando colapso no transporte, danos à infraestrutura e frio extremo. Governos de 20 estados decretaram estado de emergência em diversas regiões enquanto equipes seguem realizando resgates e checagens de bem-estar em áreas isoladas.
Autoridades alertam que o número de vítimas pode aumentar nos próximos dias, à medida que os efeitos do frio intenso e da falta de energia persistem. Nova York registrou seis mortes, o maior número entre os estados afetados. Texas e Tennessee contabilizaram três óbitos cada, enquanto a Louisiana confirmou duas mortes. Arkansas, Illinois, Iowa, Kansas, Massachusetts, Michigan, Missouri, Ohio, Pensilvânia e Virgínia relataram ao menos uma fatalidade.
Na cidade de Nova York, cinco pessoas foram encontradas mortas ao ar livre antes da nevasca, segundo o prefeito Zohran Mamdani. Outra morte foi confirmada no domingo. Em algumas áreas do estado, o acumulado de neve superou 33 centímetros até esta segunda-feira.
A nevasca foi recorde em partes do Meio-Oeste. Em Dayton, no estado de Ohio, foram registrados 31,5 centímetros de neve em 24 horas, o maior volume já observado na cidade, de acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia (NWS).
No Sul, a chuva congelante e o acúmulo de gelo derrubaram árvores e linhas de transmissão. Tennessee, Mississippi, Louisiana e Texas concentraram a maior parte dos apagões. No Mississipi, a tempestade de gelo foi a maior desde 1994.
Concessionárias relataram danos extensos em subestações e redes elétricas. O impacto também foi severo no transporte aéreo. Mais de 20 mil voos foram cancelados na soma do fim de semana e hoje com atrasos em cadeia nos principais aeroportos do país. Rodovias interestaduais tiveram trechos bloqueados por gelo.
Após a tempestade, o frio extremo se intensificou. Em partes de Minnesota, os termômetros marcaram −40 °C, e mais de 85 milhões de pessoas seguem sob alertas de frio intenso. Autoridades pedem que a população evite deslocamentos desnecessários enquanto a recuperação avança lentamente.
FRIO EXTREMO NÃO CONTRADIZ O AQUECIMENTO GLOBAL
O evento extremo de frio e neve nos Estados Unidos – que afeta também o Canadá – com muita neve, gelo e temperaturas congelantes não contraria o aquecimento global e, ao contrário, é uma evidência das mudanças no clima, explicam especialistas.
Os cientistas explicam uma incursão de ar extremamente gelado em um continente ou parte de um continente não contrariam o aquecimento planetário. Destacam que o ar mais quente não desaparece, mas é redistribuído para outras áreas à medida que a atmosfera se comporta em forma de ondas.
Algumas poucas áreas do planeta podem ter ficado muito frias nos últimos dias, mas, no geral, quase toda a Terra estava mais quente ou muito mais quente que a média. Uma realidade local isolada não pode ser usada para confrontar uma curva de tendência planetária porque para cada um ponto que ficou mais frio existem muitíssimo mais que ficaram mais quentes.

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Mesmo se considerarmos apenas o tempo, o frio extremo de agora nos Estados Unidos não é evidência que contrarie o aquecimento global. Assim, o que acontece em nosso quintal não é parâmetro para se avaliar uma tendência de escala planetária.
Uma onda de frio no inverno, por exemplo, no Sul do Brasil não é evidência que contrarie uma série histórica de décadas mostrando aquecimento na região e no mundo. É a diferença entre tempo (curto prazo) e clima (longo prazo). Por exemplo, no mesmo instante em que a brutal e histórica onda de frio atingia nesta semana a América do Norte, ali próximo, no Ártico, de onde vem o ar gelado, a temperatura está muito acima do normal.
O Brasil enfrentou muito recentemente uma onda de calor anormal no Sudeste com máximas sucessivas recordes em São Paulo. A temperatura máxima observada em 28 de dezembro na cidade de São Paulo chegou a impressionantes 37,2ºC na estação meteorológica do Mirante de Santana, instalada na zona Norte da cidade e pertencente ao Instituto Nacional de Meteorologia.
Foi a terceira vez desde o dia 25 de dezembro que o recorde de temperatura máxima de dezembro da cidade de São Paulo foi quebrado. Trata-se de um fato assombroso do ponto de vista estatístico. O estabelecimento de um novo recorde mensal em uma série de décadas já é fato por demais notável, mas por três vezes em quatro dias é uma enorme anomalia e um fato espantoso.
A cidade de São Paulo enfrentou uma sequência extremamente atípica e histórica de dias de calor excessivo no fim de ano. A estação do Instituto Nacional de Meteorologia no Mirante de Santana (zona Norte), usada como referência para a climatologia da capital paulista, registrou máximas de 33,7ºC no dia 21 de dezembro; 33,9ºC no dia 22; 34,1ºC no dia 23; 34,6ºC no dia 24; 35,9ºC no dia 25; 36,2ºC no dia 26; 35,5ºC no dia 27; e 37,2ºC no dia 28.
É algo tão fora da curva que a máxima do dia 28 ficou a apenas 0,6ºC do recorde absoluto de máxima da cidade de São Paulo desde o começo das medições em 1943 que é de 37,8°C, do dia 17 de outubro de 2014. E, por ser dezembro, mês mais chuvoso, períodos de calor excessivo não costumam ocorrer em São Paulo.
2025 FOI O TERCEIRO ANO MAIS QUENTE JÁ REGISTRADO NO CLIMA DO PLANETA
As principais agências de monitoramento climático do mundo — Copernicus, NOAA, NASA e Berkeley Earth — constataram que que 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado, mantendo uma sequência alarmante de aquecimento global que desafia as metas do Acordo de Paris.
O ano de 2025 ficou posicionado logo atrás de 2024, que permanece como o campeão absoluto de calor, e de 2023, o segundo colocado. O que mais preocupa os cientistas, entretanto, não é a posição isolada no ranking, mas o fato de que os últimos três anos formam agora o triênio mais quente da história da civilização humana.
Pela primeira vez, a média de temperatura global em um período de 36 meses flutuou perigosamente na marca de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. De acordo com o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S), da União Europeia, a temperatura média global em 2025 foi 1,47°C superior à base de referência de 1850-1900.

COPERNICUS
Especialistas da NOAA explicam que, embora o fenômeno La Niña tenha surgido no segundo semestre de 2025 trazendo um resfriamento temporário nas águas do Pacífico, o calor acumulado nos oceanos e a alta concentração de gases de efeito estufa na atmosfera impediram uma queda maior da temperatura global.
“Estamos observando uma tendência que não dá sinais de recuo”, afirmou o relatório anual da NASA. A agência destacou que, em 2025, o Ártico e a Antártida sofreram perdas massivas de gelo marinho, enquanto o conteúdo de calor dos oceanos atingiu um novo pico histórico, servindo como combustível para eventos extremos.
AQUECIMENTO NO ÁRTICO FAVORECE FRIO EXTREMO EM LATITUDES MÉDIAS
O que ocorre no Ártico não fica no Ártico. A chamada amplificação do Ártico é um fenômeno do clima no qual as temperaturas na região ártica aumentam a uma taxa muito maior do que em outras partes do mundo.
Esse efeito é amplamente atribuído ao derretimento do gelo marinho e da cobertura de neve, que reduz a capacidade da superfície de refletir a luz solar, um processo conhecido como albedo.
Com menos gelo, mais radiação solar é absorvida pelo oceano e pela terra exposta, gerando um efeito de aquecimento adicional no clima. Esse ciclo de retroalimentação contribui significativamente para o aumento acelerado das temperaturas no Ártico.
Estudos sugerem que o aquecimento do Ártico está enfraquecendo a corrente de jato polar, fazendo com que ela fique mais ondulado e permitindo que episodicamente o ar extremamente gelado avance para o Sul em áreas do Hemisfério Norte com eventos de frio de grande magnitude. O Ártico é a região que mais está aquecendo no mundo e a taxa de elevação da temperatura na região tem sido três vezes maior que no restante do mundo.
As consequências da amplificação do Ártico vão além da região polar. O derretimento do gelo contribui para o aumento do nível do mar global, afetando comunidades costeiras em todo o mundo.
Além disso, o aquecimento ártico altera os padrões de circulação atmosférica, como o jato polar, o que pode resultar em eventos climáticos extremos em latitudes mais baixas, como ondas de frio extremo, como se vê agora.
Os meteorologistas da MetSul recordam ainda que a neve e o gelo nos Estados Unidos tiveram como elemento central a umidade do Golfo do México interagindo com o ar gelado no continente. As águas do Golfo têm estado muito mais quentes do que a média há anos com sucessivos recordes, acompanhando a tendência mundial de aquecimento dos oceanos, com maior liberação de umidade na atmosfera que favorece precipitações mais intensas e alterações no clima com extremos.

