O consumo de energia elétrica no Brasil cresce no verão, impulsionado pelo uso intenso de ventiladores, aparelhos de ar-condicionado e refrigeradores. Com as ondas de calor cada vez mais frequentes, a demanda do Sistema Interligado Nacional (SIN) sobe, mas de forma desigual ao longo do dia, agravando um desequilíbrio estrutural do setor elétrico e que vai pesar no bolso do consumidor, destaca reportagem da edição de hoje do jornal O Globo.

Homem se refresca com ventilador devido ao calor

TERCIO TEIXEIRA/AFP/METSUL

O paradoxo é evidente: o país vive um momento de excesso de oferta de energia, especialmente de fontes renováveis, mas enfrenta dificuldades justamente quando o consumo aumenta por causa do calor.

Isso ocorre porque o pico de demanda acontece no fim da tarde e à noite, quando as pessoas chegam em casa e ligam equipamentos de refrigeração. Nesse horário, a geração solar praticamente desaparece, e a eólica também perde força em muitas regiões.

Já o maior volume de produção de energia solar e eólica ocorre entre a manhã e o meio da tarde, período em que o consumo é menor, especialmente fora dos dias úteis. Para evitar sobrecargas e apagões, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) é obrigado a cortar a geração de energia renovável nos momentos de excesso de oferta.

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Esses cortes, conhecidos como curtailment, se tornaram cada vez mais frequentes desde 2023 e atingiram níveis recordes em 2025. A interrupção afeta principalmente grandes parques solares e eólicos, que são despachados pelo ONS.

Como essas usinas têm contratos a cumprir, acabam arcando com prejuízos ao comprar energia no mercado livre para substituir o que deixaram de gerar. O problema se agrava nos fins de semana, quando a demanda da indústria e do comércio cai, ampliando ainda mais o descompasso entre oferta e consumo.

Segundo o ONS, a falta de flexibilidade do sistema pode levar a um cenário crítico já em 2026, se nenhuma medida estrutural for adotada. Um dos principais fatores apontados por especialistas é o crescimento acelerado da geração distribuída, sobretudo painéis solares em telhados de casas e prédios.

Essa energia entra diretamente na rede das distribuidoras e não pode ser controlada pelo ONS, concentrando os cortes nos grandes empreendimentos. Hoje, a micro e minigeração distribuída já soma cerca de 43 gigawatts de capacidade instalada, com projeção de chegar a 65 GW até 2030. Essa expansão, embora positiva do ponto de vista ambiental, aumenta os desafios operacionais do sistema.

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O custo dessa ineficiência acaba sendo socializado. Usinas afetadas pelo curtailment buscam compensações financeiras, e eventuais indenizações tendem a virar encargos incluídos na conta de luz.

Especialistas alertam que, sem ajustes regulatórios, o problema tende a se agravar. A falta de armazenamento de energia, como baterias de grande porte, impede que o excesso gerado durante o dia seja usado à noite, quando o consumo dispara. Isso mantém o sistema caro e pouco eficiente.

Há também impactos indiretos. O aumento do custo da energia afeta preços de produtos e serviços, pressionando a inflação. Indústrias eletrointensivas já apontam perda de competitividade, o que pode se refletir em empregos e renda.

O risco, segundo representantes do setor, é de uma combinação perigosa: tarifas mais altas, maior instabilidade do sistema e possibilidade de novos apagões. Para o consumidor, isso significa pagar mais por uma energia que, paradoxalmente, o país tem de sobra em boa parte do dia.