Existe uma relação entre o mais tardio furacão a se formar no Oceano Atlântico, e que vai atingir os Estados Unidos neste fim de semana, e os muitos temporais que têm causado danos no Sul do Brasil? Existe e a causa está no padrão geral de circulação da atmosfera hoje no planeta.

ARTE SOBRE IMAGENS DE TROPICAL TIBIDTS E CARLOS KIST
A conexão entre o furacão tardio Isaias no Atlântico Norte e os temporais com chuva excessiva no Sul do Brasil está justamente no El Niño, um fenômeno climático capaz de alterar a circulação da atmosfera em grandes extensões do planeta.
Embora ocorram em regiões muito distantes, o fato de o primeiro furacão do ano ter se formado apenas em outubro e os temporais frequentes no Sul do Brasil são consequência da mesma mudança nos padrões atmosféricos associada ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial.
Leia tambémMudança de La Niña para El Niño recorde em 2026 espanta a ciência
O ponto central é que o El Niño desfavorece a formação e a intensificação de ciclones tropicais no Atlântico Norte e, ao mesmo tempo, favorecer períodos de chuva excessiva e tempestades no Sul do Brasil.
Atente que o El Niño não determina sozinho o tempo em cada região, mas modifica as condições atmosféricas que ajudam a definir como os vários sistemas meteorológicos se desenvolvem.
No Atlântico Norte, o El Niño altera os ventos em diferentes alturas da atmosfera, aumentando o chamado cisalhamento vertical do vento. Em termos simples, isso significa que os ventos podem soprar em velocidades e direções diferentes conforme a altitude, dificultando a organização das tempestades que alimentam um ciclone tropical. Com a desorganização, torna-se mais difícil para alguns sistemas se formem, organizem e ganhem força até atingir a categoria de furacão.
É o que explica por que Isaias se formou tão tarde na temporada atlântica de 2026. O sistema se tornou o primeiro furacão do ano em outubro, a um mês e meio final da temporada de furacões que começa em 1º de junho e termina em 30 de novembro.
Leia tambémNova projeção prolonga o El Niño com grande intensidade em 2027
No Sul do Brasil, a influência do El Niño ocorre por mecanismo diferente. O aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial modifica a circulação atmosférica em escala global e altera os padrões de vento, umidade e distribuição das chuvas. Na Região Sul, o fenômeno está historicamente associado a maior propensão a períodos de precipitação acima da média, especialmente durante a primavera.
A influência é relevante no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, onde a combinação de calor, umidade e sistemas meteorológicos organizados pode provocar temporais intensos, vendavais e grandes volumes de chuva. Quando as condições favoráveis à precipitação persistem por vários dias, os acumulados podem provocar alagamentos, enxurradas e elevação dos níveis dos rios.
A conexão entre Isaias ser tardio e os temporais no Sul do Brasil, portanto, não está em uma ligação direta entre os sistemas meteorológicos dos hemisférios Norte e Sul, mas sim na influência de fenômeno climático comum. O mesmo El Niño que contribui para dificultar a formação de furacões no Atlântico Norte favorece condições atmosféricas associadas à chuva excessiva no Sul do Brasil com tempestades frequentes.