O mês de março marca a transição do verão para o outono e os dias ainda têm mais características da estação quente do que a das folhas. É o primeiro mês do chamado outono meteorológico ou climático compreendido pelo trimestre de março a maio, mas pelo critério astronômico o outono somente tem início no dia 20 às 18h25.

Uma vez que as características climáticas do mês ainda são mais próximas do verão do que do outono, os dias de calor e as pancadas de chuva passageiras e localizadas são comuns, mas à medida que o mês se aproxima do fim cresce o número de dias com a temperatura mais agradável, e às vezes até com frio durante a madrugada e cedo da manhã.

Em Porto Alegre, a temperatura mínima média histórica de março (série 1991-2020) é de 19,5ºC e a temperatura máxima média de 29,2ºC, quase 2ºC inferior à média máxima de janeiro. A precipitação média mensal histórica na capital gaúcha é de 103,3 mm, muito próxima da média de chuva da maioria dos meses do ano.


Por sua vez, na cidade de São Paulo, com base na climatologia histórica da estação de Mirante de Santana, a temperatura mínima média de março pela série 1991-2020 é de 18,9ºC ao passo que a média máxima mensal é de 28,0ºC. Já a precipitação média é de 229,1 mm, a quarta maior entre todos os meses do ano, atrás de janeiro (292,1 mm), fevereiro (257,7 mm) e dezembro (231,3 mm).

Março em 2023 marcará a transição do fenômeno La Niña, que está chegando ao fim, para um estado de neutralidade no Oceano Pacífico Equatorial depois de três anos com predomínio de anomalias de temperatura da superfície do mar em patamar de Niña.

De acordo com o último boletim da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Central (região Niño 3.4) está em -0,3ºC, portanto já na faixa de neutralidade de -0,4ºC a +0,4ºC. Já o Pacífico Equatorial nos litorais do Peru e do Equador, a denominada região Niño 1+2, estava neste final de fevereiro com anomalia de +0,4ºC. Anomalia positiva nesta área do Pacifico favorece mais chuva no Rio Grande do Sul.


A tendência é de gradual aquecimento das águas superficiais equatoriais no Pacífico, marcando o fim do evento de La Niña de três anos (triple-dip La Niña). Especial atenção se volta para o Pacífico mais a Leste porque o aquecimento das águas na região Niño 1+2, observado durante fevereiro, tende a favorecer mais chuva no Sul do Brasil.

A chuva em março

Os modelos climáticos, em geral, indicam um padrão de chuva abaixo da média na maior parte do Sul do Brasil no mês de março com maior probabilidade precipitações mais abundantes no estado do Paraná e abaixo da média no Rio Grande do Sul.

No Centro do Brasil, a maior probabilidade de chuva acima da média se concentra em áreas do Mato Grosso, Norte do Mato Grosso do Sul, Centro-Norte do estado de São Paulo e parte de Minas Gerais (maior chance no Sul e no Triângulo com padrão mais seco ao Norte próxima da Bahia).


Rio de Janeiro e Espírito Santo possuem tendências muito diversas nas projeções, o que sinaliza uma tendência de grande variabilidade com pontos com chuva acima a abaixo da média por conta de pancadas isoladas e temporais localizados.

Projeção de anomalia de precipitação do modelo britânico para março | METSUL

Projeção de anomalia de precipitação do modelo europeu para março | METSUL

Projeção de anomalia de precipitação pelo multimodelo da América do Norte NMME para março | METSUL

Projeção de anomalia de precipitação do modelo da NASA para março | METSUL

Embora o indicativo de chuva abaixo da média na maior parte do Sul do Brasil pela maioria dos modelos de clima, a MetSul não segue essa tendência em seu prognóstico. A nossa crença é que vai chover mais do que os modelos indicam em março e que, por exemplo, vários pontos do Norte e Nordeste do território gaúcho (Alto Uruguai, Planalto Médio, vales, Serra, Grande Porto Alegre e Litoral Norte) podem encerrar março com precipitação acima da média.

O problema no estado gaúcho se concentra mais no Oeste e no Sul que possuem maior probabilidade de chuva abaixo das médias históricas em alguns pontos, mas mesmo nestas áreas pode chover mais que o indicado pelos modelos de clima com registros localizados elevados.  Não acreditamos, portanto, em um março seco, cimo projetado por modelos.

Da mesma forma não cremos que a chuva vai ficar abaixo da média de forma generalizada em Santa Catarina, como projetam diferentes modelos de clima. Muitas áreas do estado catarinense devem terminar março com chuva perto da média ou acima. Há, inclusive, preocupação com o risco de chuva localmente excessiva em pontos do Leste do estado. No Paraná, março pode ter até chuva muito acima da média em algumas áreas.

Com ar quente predominando e maior umidade, as áreas entre a Metade Norte do Rio Grande do Sul e o Paraná, o que inclui Santa Catarina, terão uma maior propensão para temporais no decorrer do mês. São temporais isolados, mas que localmente podem ser fortes e com danos. O interior de São Paulo será outra com risco aumentado de temporais neste março de 2023.

Chamamos atenção que áreas mais a Leste da Região Sul e parte da costa do Sudeste podem ter desvios positivos localizados de precipitação com acumulados muito altos a excessivos neste mês em diferentes cidades destas áreas mais próximas do oceano e a Leste da Serra do Mar.

Isso pode estar associado a eventos de infiltração de umidade do mar com vento Leste e que não raro resultam em episódios de chuva excessiva em áreas costeiras ou próximas junto à Serra do Mar pelo efeito de orografia (relevo), especialmente entre o Litoral Norte do Rio Grande do Sul e o litoral do Rio de Janeiro.

Este tipo de situação oferece maior risco, pelas características de topografia e densidade populacional, em especial no Leste de Santa Catarina e nos litorais de São Paulo e Rio de Janeiro quando há o avanço de uma massa de ar frio na costa com aporte de umidade a partir do oceano.

É importante enfatizar que modelos de clima são destinados a estabelecer tendências de um padrão regionais e não locais, logo mesmo que a simulação esteja indicando para uma região chuva abaixo da média é possível que cidades ou pontos nesta região possam terminar o mês com chuva acima da média porque o modelo de clima (longo prazo) não se presta a antecipar eventos de chuva volumosa localizados, estes previstos pelos modelos de tempo (curto prazo).

Temperatura em março

Já a temperatura deve ficar acima da média em muitas áreas do Centro-Sul do Brasil neste mês de março com os desvios positivos mais expressivos no Rio Grande do Sul. Os indicativos são de um março quente na parte mais meridional do território brasileiro, mas não nos níveis de janeiro e da primeira metade de fevereiro no território gaúcho.

Uma onda de calor vai assolar a Argentina na primeira semana de março, inclusive, com chance de recordes históricos de máximas para o mês e isso vai se refletir no Rio Grande do Sul, em especial nas regiões Oeste e Sul do estado.

Projeção de anomalia de temperatura pelo multimodelo da América do Norte NMME para março | METSUL

Projeção de anomalia de temperatura do modelo alemão para março | METSUL

Projeção de anomalia de temperatura do modelo europeu para março | METSUL

Não se observa nenhuma incursão de ar frio nos primeiros dez dias de março no Rio Grande do Sul, assim que a primeira quinzena de março tende a ser predominantemente quente entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina com alívios temporários em algumas cidades por conta de pancadas de chuva e temporais localizados. Algumas tardes serão muito quentes para esta época do ano, especialmente no Oeste gaúcho, pela proximidade com o centro da bolha de calor que vai se instalar na Argentina.

No Centro do Brasil, por conta de um padrão de tempo instável, não são esperados relevantes desvios da temperatura média em parte da região e se antecipa, assim, que haverá grande variabilidade de anomalias dentro da região com marcas acima e abaixo da média em diversos pontos, conforme a precipitação.

Os modelos de clima não indicam, mas na análise da MetSul algumas áreas do Sudeste devem ter um mês de março muito quente. Setores do Rio de Janeiro, Espírito Santo e de Minas, ao contrário, devem ter maior número de dias de calor – vários de calor excessivo – e temperatura mais acima da média ante a menor precipitação. No interior de São Paulo, onde chuva e temporais serão frequentes, a atmosfera muito aquecida com alta umidade trará elevado número de dias de calor com intenso abafamento e grande desconforto térmico.